Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Novembro 13, 2019

O Estado social, a degradação da educação e a opinião pública.

vai-teaosprofessores

O estado social é um conceito que significa que o Estado promove medidas que garantam o acesso à educação, à saúde e segurança social, como forma de reduzir desigualdades e promover igualdade de oportunidades. É um elemento caraterístico do modelo europeu.

Quando o Estado não assegura a educação de forma eficiente são os mais desfavorecidos que saem a perder, na medida em que os que têm rendimentos podem sempre escolher os privados. Enfraquecer o estado social é promover os negócios privados na educação e saúde.

Desde a intervenção da troica que houve desinvestimento no estado social. Na saúde tem passado para a opinião pública esse desinvestimento, com os problemas nas urgências. Na educação, depois de uma fase em que houve intensificação do trabalho dos professores, mesmo sem alteração do horário, com a passagem de trabalho não letivo para trabalho com alunos, que devia ser letivo. Ou seja, com os outros funcionários públicos houve redução da jornada de trabalho para as 35 horas, mas com os professores não houve desagravamento da intensificação do trabalho. A preocupação com o défice está agora a criar constrangimentos ao nível dos funcionários e de turmas sem alguns professores.

O que interessa realçar é que os constrangimentos orçamentais impostos para se obter o saldo orçamental nulo começa a ter consequências na educação, ao nível da falta de funcionários e da falta de professores. Pela avalanche de casos não são problemas residuais. Começa também a opinião pública a tomar consciência das consequências desta política, que até agora estava camuflada pela intensificação do trabalho dos professores e por isso pelo agravamento do burnout entre os docentes, consequência com pouco impacto mediático por só afetar os professores.

Numa conjuntura de insuficiência de recursos para promover o estado social a meta de taxa de retenção nula no ensino básico só pode ser conseguida administrativamente. Claro que os professores desejam ter 100% de sucesso, mas sem baixar o nível de exigência, pelo que a taxa de retenção nula é desejada se apoiada em mais recursos, traduzidos em turmas mais pequenas, mais coadjuvação e mais apoio. Como não há dinheiro e já há falta de professores, só resta a via administrativa!

Outro problema que aparece agora na opinião pública é a da agressão a professores e funcionários. Aqui estão em causa vários fenómenos. Um deles é a atitude parental de super proteção aos filhos únicos. Outra é a degradação social da condição de professor que o torna um alvo mais fácil, consequência dos ataques à classe desde a MLR/Sócrates, que se traduziu na degradação do exercício da profissão com mais burnout e degradação salarial, o que leva a menor respeito social. A diminuição das taxas de retenção também se traduziu em mais indisciplina por estramos a premiar com pseudo sucesso alunos indisciplinados e, portanto, a reforçar tais comportamentos. Alguns pais não compreendem as passagens administrativas se os seus filhos não estão comtemplados. Alguns pais não entendem a necessidade de regras sociais quando aplicadas aos seus filhos. Daí as agressões. Fala-se em endurecer as penas a polícias e bombeiros agredidos, mas ninguém fez uma proposta sobre professores.

Concluindo, o ministro cientista começa a sentir na pele o que aceitou fazer, gerir a educação sem meios, mas teimando em prosseguir uma política para diminuir a retenção, a degradação da condição de trabalho e de vida dos professores, traduzida nas medidas universais e numa forte pressão para se implementar as passagem administrativas, argumentando que mesmo sem recursos «haverá oportunidade de recuperar as aprendizagens mais à frente no percurso do aluno». Mas o que se passa é estarmos a premiar a indisciplina, o absentismo e o desinteresse, tudo em nome da escolaridade obrigatória (será necessária?) e da flexibilidade (igualdade de oportunidades não é facilitismo). Temos estado a adiar a resolução dos problemas e eles começam a emergir e a passar para a opinião pública. A responsabilidade é sua Sr. Ministro e não a passe para outros: professores e diretores (como ontem fez na questão dos funcionários).

Novembro 06, 2019

Ainda a questão da gestão escolar a propósito da influência dos diretores na motivação dos professores.

vai-teaosprofessores

O Alexandre Henriques fez aqui no Com Regras uma referência ao artigo do Público  de segunda feira 4/11 sobre a influência decisiva na motivação de professores em https://www.comregras.com/a-relacao-diretor-professor-e-tao-importante-como-a-relacao-professor-aluno/.

Quem me segue sabe que esta tem sido uma das bandeiras das minhas opiniões: a gestão escolar é um fator decisivo para a existência de práticas democráticas nas escolas. Tenho posto o acento tónico na necessidade da escola ter práticas democráticas como exemplo e como preparação para a vida adulta e também como forma de combater o absentismo eleitoral que tem vindo a crescer.

O estudo da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto aborda o estilo de liderança e sua influência na motivação dos professores e encontrou uma «correlação positiva entre a forma como são geridos os estabelecimentos de ensino e a relação que os docentes têm com a profissão, no sentido de os professores vestem mais a camisola se a liderança da escola for ética».

É dito também que «a liderança despótica está negativamente correlacionada com o compromisso dos docentes».

A diferença de abordagem deste estudo da minha análise centrada na necessidade de práticas democráticas leva a conclusões diferentes, os autores do estudo propõe condições de acesso ao cargo de diretor, enquanto a minha solução é o regresso à democracia direta e a eleição de um órgão colegial.

Contudo, acho importante a divulgação do dito estudo que é mais um alerta para as práticas despóticas que se têm vindo a generalizar-se nas escolas.

Tenho evitado referir-me a experiências pessoais, mas é oportuno neste contexto referir que há alguns anos atrás escrevi uma carta aberta e na sequência da mesma tive um processo disciplinar, o que demonstra o clima antidemocrático de intimidação e tentativa de calar pensamentos alternativos e diversos. Este exemplo é demonstrativo de que nem sequer a alternativa é tolerada por certos diretores.

Depois temos aqueles casos mais comuns como castigar um professor ou professores com maus horários e com sobrecarga de trabalho em virtude de ousarem pensar de forma diferente. Para não falar em vaidades ou soberbas como o único carro a entrar no recinto escolar ser do diretor!

Concluindo, o artigo do Público levanta um tema pertinente, mas é tímido na solução, pois não basta impor condições de acesso ao cargo de diretor é preciso introduzir uma verdadeira democracia como forma de preparar os discentes para a prática democrática e de promover uma escola aberta ao debate que impeça práticas despóticas, como perseguir a opinião diversa. A democracia pode não impedir totalmente práticas despóticas mas cria sistemas de contrabalanço às mesmas que  as tornam a exceção e não a regra como tende a acontecer com o atual modelo. É aqui que acho insuficiente a conclusão do estudo, pois criar «condições de acesso ao cargo» parece-me muito pouco.

Outubro 28, 2019

O programa do governo e a educação.

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior a questão do modelo de gestão foi por mim considerada a principal questão para haver uma escola onde se praticasse a democracia e onde se estimulasse a participação como preparação para a vida adulta. Ora, no dito programa, aparece uma referência a esta questão no sentido de adequar o modelo de gestão «ao novo quadro que resultou do processo de descentralização e aos progressos feitos em matéria de autonomia e flexibilização curricular». Portanto, subordinação ao poder autárquico sem nenhuma preocupação em fomentar a democracia direta. Ao mesmo tempo promete-se a valorização das funções de direção, incluindo as chefias intermédias - lembram-se das propostas do Arlindo, que foram por mim comentadas na altura, de reservar os últimos escalões para a direção, incluindo coordenadores de departamento? Pareceu-me um ensaio de revisão da carreira docente e agora esta frase genérica revive o assunto, será coincidência?

Ainda relacionado com isto temos o debate sobre «em torno das carreiras da Administração Pública é inevitável. As progressões na Administração Pública custam todos os anos 200 milhões de euros. Deste valor, quase 2/3 é gasto em carreiras especiais em que o tempo conta no processo de progressão, e que cobre cerca de 1/3 dos trabalhadores do Estado. Este desequilíbrio deve ser revisitado. O aumento desta despesa não pode continuar a limitar a política salarial na próxima década e a impedir uma política de incentivos na Administração Pública que premeie a excelência e o cumprimento de objetivos predefinidos.» Esta parte do programa do governo remete para uma alteração profunda no modo de progressão da carreira dos professores, a ser negociada pela nossa ex-secretária de Estado, agora ministra, precisamente com a responsabilidade das carreiras da administração pública e profunda conhecedora da carreira dos professores, o que não me parece uma simples coincidência.

Depois realçaria a continuidade da procura do sucesso administrativo, agora assumido explicitamente: «Criar um plano de não retenção no ensino básico». Esta visão da escola encontra-se nos antípodas das necessidades de acabar com a indisciplina e promover a responsabilidade, a minha segunda prioridade na educação. Lembro-me de num conselho de turma intercalar uma mãe ter dito que os problemas de indisciplina eram previsíveis uma vez que no ano anterior os alunos indisciplinados e com aproveitamento negativo tinham sido premiados com notas votadas, pelo que não tiveram qualquer motivação para mudarem, antes pelo contrário, pelo que não entendia a queixa dos professores sobre o seu comportamento já que este era expectável.

 Depois a referência ao que pode ser um doce, inserido numa lógica de valorização dos professores em início de carreira (também prometido na carreira de técnicos superiores), a promessa de uma revisão do modelo de concurso para professores e dos QZP.

Concluindo, leio que no programa de governo para a educação uma revisão profunda da carreira docente com o objetivo de reduzir os escalões de acesso a todos os docentes, mantendo os escalões de topo só para alguns, talvez para a direção e chefias intermédias. Leio também a manutenção da indisciplina e a não responsabilização do aluno. O caminho é garantir aos alunos com dificuldade de aprendizagem essa aprendizagem, sem diminuir o nível de exigência, caminho este que parece não ser o do governo que quer resolver o problema do insucesso sem gastar recursos e apela via administrativa.

 

 

Outubro 23, 2019

A falta de professores e a agressão a um aluno por um «professor».

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior chamava a atenção para a falta de professores como um problema da educação, com impacto residual, mas que se pode tornar um problema estrutural a prazo. Dizia também que para quem navega (governa) à vista o mais provável é ignorar os problemas que não são prementes.

Por outro lado, foi notícia esta semana a agressão de um professor a um aluno por causa de um telemóvel. Uma agressão é sempre uma agressão que devemos repudiar e que envergonha a classe.

Mas depois soube-se que este «professor» foi contratação de escola e não tem profissionalização. É, portanto, um professor de recurso e não de carreira que encontrou trabalho no ensino sem estar preparado para este trabalho – nos Estados Unidos distingue-se o professor preparado do professor inexperiente chamando a este de professor substituto. Mais, isto aconteceu numa das áreas carenciadas do ensino em certas regiões: a informática. A conexão entre falta de professores e «professores» agressores está feita.

Confesso que não previ que o problema da falta de professores pudesse causar um problema destes, isto é, o recurso a profissionais pouco preparados pudesse levar a uma situação mais grave que é o uso da agressão por parte de um «professor». Mais uma vez me enganei, o que previa ser um problema residual, acabou por se transformar, por falta de preparação de uma pessoa ou temperamento, num problema grave e inadmissível, como o recurso à violência, que vai ser usado conta a classe.

Neste artigo refiro-me ao colega agressão como professor com aspas e identifico esta situação como uma falha do sistema que está a levar a haver contratação de professores sem que estes estejam preparados para o serem. Mas esta não é a visão de todos, uns dirão que isto é um mau exemplo da profissão, mas esquecem-se que este não era um profissional, pois não tinha a parte da profissionalização. Quando comecei a dar aulas havia também o recurso a pessoas só com formação superior mas sem preparação para serem professores, mas em geral estes ficavam com o ensino noturno para adultos, que hoje já não existe. Isto é, não tinham logo que enfrentar adolescentes, alguns revoltados por terem de andar na escola, o que exige o desenvolvimento de técnicas e estratégias para os trazer para dentro da escola.

Concluindo, há um recuo do recrutamento residual para o ensino ao que se passava nos anos oitenta: o recrutamento de pessoas com formação técnica, mas sem a componente psicológica, sociológica e pedagógica, que todos os professores necessitam. A eliminação deste tipo de recrutamento a partir dos anos noventa traduziu o maior acesso dos jovens ao ensino superior e o desenvolvimento das escolas de educação no ensino superior. Recuar no tempo é um sinal de alarme.

Em contraponto, continuam os casos de agressões a professores e funcionários, mas como este tipo de notícias já caiu na rotina, estes casos passam para segundo plano. A violência deve ser condenada em qualquer circunstância e neste caso o que está por detrás da notícia também deve preocupar os decisores públicos: a perda de autoridade do professor. Como mostrei em artigo anterior a indisciplina mina o funcionamento das escolas e prejudica também os alunos empenhados e esta deriva também da perda de autoridade do professor.

Por último, constatar que o «professor» agressor foi logo preso – o que me parece correto – enquanto os agressores de professores e auxiliares educativos aguardam por queixa e por inquérito judicial – aqui é que acho que devia haver o mesmo tratamento por parte das autoridades.

Outubro 16, 2019

Uma aula com alunos indisciplinados

vai-teaosprofessores

Aqui vai o resumo de uma aula pouco produtiva. O professor chega 3 minutos depois do toque, só 1/3 dos alunos está já à espera do professor. Os outros vão chegando a conta-gotas, os últimos apareceram já passava 15 minutos depois do toque. A partir dos 5 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que será marcada uma falta de atraso (a cada 3 destas faltas corresponde uma falta de presença). A partir dos 10 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que terão falta de presença. A aula arrancou aos solavancos e sempre a ser interrompida, o que não permite que haja ambiente de trabalho e concentração.

Depois há vários incidentes disciplinares, há alunos apanhados ao telemóvel, há alunos a conversar, tudo isto obriga o professor a interromper o assunto da aula e a tratar destes incidentes. Um dos alunos é apanhado uma segunda vez ao telemóvel e o professor manda o aluno para a biblioteca, seguindo o regulamento interno, pelo que sai da sala para chamar a auxiliar educativa para acompanhar o aluno e escrever num papel o motivo da ordem de saída da sala de aula e que trabalho deve o aluno fazer na biblioteca, onde um professor, de serviço na biblioteca, vai fazê-lo cumprir a atividade.

Aqui duas coisas podem acontecer, ou o aluno vai para a biblioteca ou recusa-se a ir, como algumas vezes acontece e a funcionária regressa à sala de aula para comunicar que o aluno se recusou a cumprir a tarefa, o que deverá dar origem a uma participação disciplinar grave, que vai originar um conselho de turma para propor à direção uma medida disciplinar. As ordens de saída da sala de aula só ao fim de 3 dão origem a processo disciplinar.

Com isto já passaram 2/3 do tempo de aula (50 minutos), o professor queria dar um dado tema e não conseguiu, o planeamento ficou comprometido. Para o último terço estava previsto a resolução de exercícios. O professor decide avançar para o exercício e explicar como resolvê-lo, quando devia ter dado oportunidade aos alunos de tentarem a sua resolução, num processo construtivista, mas não teve tempo.

Concluindo, a indisciplina mina o processo de ensino / aprendizagem, prejudicando o decorrer da aula e acima de tudo os alunos que querem aprender. Depois existe uma imensa burocracia de papelada a preencher, alguma durante a aula e outra depois se a situação for grave, neste último caso vai ser convocado um CT e vai-se discutir medidas disciplinares, sabendo nós que enviar alguém para casa com suspensão de dias é um prémio para o aluno, que se vai vangloriar de não ir à escola, havendo inúmeras dificuldades em implementar outro tipo de medida, como trabalho comunitário, que deve ter a concordância dos pais e da direção, que alega não ter funcionários para acompanhar os alunos castigados.

Outubro 09, 2019

Aproxima-se uma crise no ensino devido à falta de professores?

vai-teaosprofessores

A resposta a esta pergunta passa por equacionarmos várias situações:

Em primeiro lugar o ataque feroz à profissão que vem do tempo da Maria de Lurdes Rodrigues e com a crise a desvalorização da carreira quer socialmente quer monetariamente pode estar a afastar candidatos a professores da profissão, como nos mostram a diminuição de candidatos aos cursos de formação de professores.

Depois quem entra na profissão sofre para entrar na carreira, ou seja, sofre para entrar no quadro. Do ponto de vista do professor: tem um salário mais baixo correspondente à pré-carreira, é afastado da família ou tem um desgaste (pessoal e custos acrescidos) com os quilómetros que tem de fazer. Esta precariedade prolonga-se pelo menos durante uma década na maioria dos casos. Ma s o ensino também fica pior com o arrastar da precariedade como nos bem descreve Guinote  em https://www.comregras.com/descontinuidade-pedagogica-paulo-guinote/, num artigo com um título sugestivo, «descontinuidade pedagógica».

Por outro lado, esta precariedade é agravada com o que se passa na sociedade na perspetiva do imobiliário, onde com o preço proibitivo da habitação, em especial no arrendamento, que é a solução para os professores deslocados da sua habitação familiar, tem afastado os professores de certas zonas como o Algarve e Lisboa, aparecendo cada vez mais situações de horários que não são preenchidos. Já agora a este propósito salienta-se que entre os médicos, juízes e professores, estes últimos são os únicos que não têm apoios para ter habitação quando deslocados, quer do governo central quer do local, o que é mais um indicador da perda de estatuto social.

Outro aspeto desta questão é a intensificação da intensidade do trabalho devido à implementação de estratégias de combate ao insucesso escolar, à custa de trabalho com alunos em tempo não letivo e à intensificação de reuniões de coordenação, tudo isto aumentando o trabalho burocrático. Este aspeto tem levado ao burnout, o que faz com que os atuais professores não incentivem o ingresso na profissão.

Concluindo, contrariamente ao que o PM Costa disse num debate, que só é necessário mexer na carreira / aposentação dos monodocentes, há muito trabalho a fazer na área da educação para garantir que a profissão docente não entre em crise aguda. Mas como possivelmente uma crise aguda não estará no horizonte de uma legislatura, o mais provável é nada ser feito. A ser assim, corre-se o risco de a médio prazo surgir a tal crise, ainda que ano após ano, os sinais que já existem se vão agravando. Por tudo isto, um governo com apoios pontuais no parlamento será uma solução que pode adiar medidas de fundo necessárias para o ensino incentivando a tática da avestruz que é ignorar os problemas quando não são permentes.

Setembro 27, 2019

A minha leitura dos programas eleitorais referentes à educação.

vai-teaosprofessores

A minha leitura dos programas eleitorais vai ser feita por ordem decrescente de temas que considero prioritários: modelo de gestão, disciplina/indisciplina, área curricular versus avaliações externas e outros temas.

O modelo de gestão precisa de ser revisto, para se reintroduzir a democracia nas escolas, com eleições diretas e acabar com abusos de alguns diretores, que rapidamente se esquecem que são professores. A democracia não resolve tudo, mas cria mecanismos que permitem remover mais facilmente os abusos. A este propósito relembro o artigo: Exemplos De Como Um Diretor Consegue Castigar E Pressionar Um Professor, Por  Alexandre Henriques, em 25 Setembro, 2019. Além disso, esta é uma medida que ajudará a combater o absentismo eleitoral ao permitir aos alunos terem prática de participação em eleições. Os programas do BE e CDU são os únicos a defender a alteração do modelo de gestão.

Em segundo lugar nas minhas prioridades tenho o combate à indisciplina, que permite melhorar a eficiência dos tempos letivos, garantido o bom funcionamento das aulas e menos desgaste do professor. Quando há perturbações na sala de aula, perdem não só os indisciplinados, mas também os disciplinados. A operacionalização da possibilidade de um serviço cívico escolar é para mim uma prioridade. Este tema vem tratado pelo PSD.

A última legislação deste governo, o perfil do aluno e os decretos 54 e 55, estão em contradição com a manutenção da avaliação externa. Isto é a implementação plena do perfil do aluno articulado com os referidos normativos leva a que se acabe com a avaliação externa. Esta bipolaridade do ensino precisa de ser resolvida. O PS, BE e CDU apontam para o reforço da autonomia do ensino básico e secundário, mas ninguém defende explicitamente o fim dos exames. Já o PSD e CDS preveem a prevalência da avaliação externa. Mais uma vez, se houver alternância, teremos mudanças, sem avaliação das reformas, outro dos grandes pecados do nosso sistema de ensino.

Por fim um último tema, a burocracia que tira tempo aos professores para o essencial, o trabalho com os alunos, trabalho este nem sempre letivo e por isso é usado para intensificar o trabalho dos professores que está a provocar burnout na profissão. Este tema é aflorado pelo BE e CDU.

Concluindo, é nos programas do BE e CDU que encontro algumas das questões que considero essenciais tratadas convenientemente. O programa do PSD tem o mérito de pelo menos ter referências ao problema da indisciplina e optar pela importância da avaliação externa.

Setembro 21, 2019

Notas sobre a abertura do ano letivo

vai-teaosprofessores

A primeira nota é que para as colocações terem saído a meio de agosto, as escolas anteciparam as necessidades de professores duas semanas, ainda com turmas por aprovar, o que teve como consequência haver mais professores lançados em horário zero (que corresponde a ter de concorrer e ir a concurso) e recuperados de seguida. Outra consequência foi a diminuição da oferta de vagas que depois sobraram para as RRs. Ou seja, o governo fez um brilharete político à custa da instabilidade criada com professores notificados que tinham horários zero e o adiar de colocações habituais em agosto para setembro, conhecendo eu um caso que, por causa deste esquema se perdeu o acesso à norma travão.

O segundo caso refere-se a uma escola requalificada que passou a ter um computador em cada sala (o que antes não acontecia) que permite aos professores fazerem sumários eletrónicos (melhoria no processo administrativo de controle) e passar power-points a partir de uma pen, evitando que o professor traga o seu portátil como fazia antes, mas o número de salas de informática, onde se pode fazer um ensino mais do século XXI e introduzir métodos de avaliação diferentes dos testes, não se alteraram, continuando a ser uma luta para se obter as ditas salas. Não sei de onde veio o financiamento para cerca de mais de meia centena de computadores, se do ministério, se da câmara (que financiou parte das obras) ou da união europeia, mas escolher utilizar recursos para processos administrativos ou permitir aulas expositivas com projeções, está longe do espírito do decreto 55, que promove a inovação pedagógica, que é facilitada com o acesso a meios tecnológicos.

Nota final, continua-se a exagerar nas reuniões, soube de um caso em que só em setembro, estão previstas duas de departamento e duas de grupo, mais os Conselhos de Turma. Dizem-me que duas delas são redundantes, mas dão a ilusão de intenso trabalho dos professores.

Concluindo, olha para o que eu digo e para as aparências, não para os normativos. Isto é, a micropolítica e a política, da ilusão no seu melhor.

Setembro 12, 2019

A formação tornou-se numa política educativa

vai-teaosprofessores

Neste último governo agravou-se a tendência da formação de professores se ter tornado em mais um elemento da política educativa para concretizar os objetivos do governo.

Este facto pode ser comprovado da seguinte maneira: em primeiro lugar são os temas lançados pelo governo, como o perfil do aluno, a flexibilidade curricular e a medidas para lidar com alunos com dificuldades (DL54) que foram os temas prioritários da formação no ano passado. Para este ano a formação vai-se centrar na avaliação, para articular esta com os temas atrás referidos. Mas, a grande decisão fica por tomar: o que fazer com os exames? Aqui falta ao governo coragem política, que é resolver se os exames continuam e passar o acesso para o superior para as universidades. Ainda hoje tive ações de formação sobre estes temas e houve unanimidade sobre a contradição disto com exames, cumprimento de programas e reuniões para os docentes articularem, que a existirem tornam o horário dos professores em quase como o dos motoristas, isto é, fazem horas sem lhes pagarem, nem sequer através de ajudas de custo.

Em segundo lugar, a formação sobre as alterações de normativos já referidas só é dada por pessoas que aprovam as medidas tomadas pelo governo e que estiveram nos grupos de estudo que as ajudaram a implementar. Ou seja, estreita-se o campo de recrutamento de formadores aos que apoiam os novos normativos.

Em terceiro lugar, como a regra que impõe que 50% da formação tem de ser formação específica, pode ser um escape ao esquema de centrar a formação nas novas políticas educativas, abrem-se exceções a esta regra, permitindo a título excecional que a formação não específica naqueles temas possa ser considerada específica.

A formação exigida aos professores para progressão na carreira deixou de estar ao livre arbítrio das necessidades sentidas por cada professor tendo em vista colmatar as lacunas por si detetadas, antes passou a ser mais um instrumento da política educativa para se condicionar o ensino que os governos pretendem. Estamos longe do conceito de autonomia das escolas e do reconhecimento do professor como um ser reflexivo. O novo paradigma é o professor ser um mero transmissor do que o governo decide, isto em contradição com o que se defende para os alunos, que não sejam recetores de conhecimento, mas analistas e criativos.

Concluindo, a autonomia é cada vez mais um «soudbite» sem qualquer relação com a realidade. Assiste-se é a cada vez mais à consolidação de um poder educativo centralizado no ministério da educação que pretende criar executantes.

Setembro 02, 2019

A avaliação de professores: um estudo de caso.

vai-teaosprofessores

O processo de avaliação docente.

Passou um mês após o processo de avaliação docente respeitante a 2018/19 estar concluído, pelo que é altura de se fazer um balanço baseado na minha experiência pessoal.

Com o fim do congelamento e com a reposição (injusta) dos 2 anos e 9 meses quase 2/3 da escola foi sujeita a avaliação.

A prioridade para acesso aos MB e E foi dada aos professores em vias de transitar para os escalões com barreiras (5º e 7º) foi uma opção correta. Mas realço que não foi uma opção absoluta, ficando de fora alguns casos com pouco empenho para com a escola.

Depois foram premiados os professores com cargos e que os desempenharam com rigor e empenho, mas aqui noto que enquanto para os coordenadores há um universo próprio e portanto há quotas, os elementos da direção, tendem a ficar todos premiados, à custa do universo geral. Assim, é necessário haver também um universo para este grupo, como há para os coordenadores.

Poucas vagas sobraram para os professores sem trabalho de coordenação e ligados à direção, mas com muita dedicação à escola, bastantes vezes com sacrifício familiar.

Depois começam as injustiças, como selecionar entre professores com trabalho meritório os que ficam na conta dos 25% com direito a mais do que bom? Tenho plena consciência que as injustiças levam aos desânimos, como alguns colegas desabafaram comigo e me disseram que para o futuro não se iriam empenhar mais, mas fazer o mínimo, pois façam pouco ou muito só têm o Bom.

Este é o perigo do atual sistema, provoca desmotivação e desânimo para quem cumpre, dedicando algumas semanas mais do que 60 horas à escola e não têm quota. Este processo de avaliação ao decretar que somente um em cada quatro professores pode ver reconhecido o seu trabalho corre o risco de criar somente esta percentagem de professores empenhados. Premiar o mérito de forma a desmotivar quase tantos professores como os premiados é prestar um mau serviço à escola, pois uma escola de qualidade não poderá ter somente 25% do seu corpo docente motivado. Nem tão pouco 50%, senão não tem qualidade.

Concluindo o atual sistema de avaliação de professores pode e está a criar desmotivação no corpo docente das escolas. Isto não se sentiu no passado com a carreira congelada, mas agora ficou claro que esta forma de avaliação a prazo pode diminuir a qualidade média das escolas à medida que os professores não virem o seu esforço reconhecido e isto pode acontecer com 75% dos professores.