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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Março 25, 2020

Um cenário otimista para reorganizar o que resta do ano letivo.

vai-teaosprofessores

Um cenário otimista para reorganizar o que resta do ano letivo

Entramos na 2ª semana de encerramento das escolas e as atividades com alunos são bastante mais reduzidas. Vejamos um caso de um aluno do 11º ano Ciências e Tecnologias, na primeira semana teve solicitação de atividades de 3 disciplinas, biologia, física e química e matemática, que lhe ocuparam cerca de uma hora diária. Na segunda semana teve solicitações de duas disciplinas, sendo que uma deles deu mesmo matéria, por videoconferência. Ou seja, as atividades através de videoconferência, em período de quarentena, foram bastante mais reduzidas, em média hora e meia diária, comparando com as 5 horas diárias, em média, com atividades letivas normais.

Portanto, mesmo com boa vontade dos professores houve bastante menos atividades diárias em relação ao dia passado na escola. Deu para mitigar a situação, mas não se pode comparar com a situação normal. Daí que se possa concluir que estar em casa e ter ensino à distância não permitiu acompanhar o ritmo natural de aulas em ambiente escolar, mesmo para os alunos sem problemas de acesso às tecnologias.

Isto é importante porque para os anos com exame é preciso acautelar um funcionamento regular da escola antes de se pensar em fazer exames.

Por outro lado, o pico da pandemia é esperado para finais de abril, pelo que é prováveis as escolas manterem-se fechadas até meados de maio, o que deverá dar, pelo menos, cerca de 6 semanas letivas, que precisam de ser recuperadas. Assim, teremos de ter alteração do calendário escolar de cerca de 6 semanas, o que seria possível com a primeira época dos exames em julho e a segunda época em setembro, como já em tempos se passava. Este será um senário otimista em relação à pandemia, que pode ou não verificar-se.

Subjacente está a questão da necessidade de haver exames, ora já defendi que com perfil do aluno o corolário lógico seria passar para o superior a escolha dos seus alunos e que faltou coragem à equipa da educação dar este passo. Teriam aqui uma oportunidade de ensaiar um novo processo de acesso, mas não acredito que entretanto a coragem tenha chegado.

Sendo cedo para se prever o que se vai passar não deixa de ser confrangedor estar a assistir ao completo apagamento da equipa da educação, durante esta crise. Ontem o Paulo Portas abordou o assunto na TVI e claro defendeu a manutenção dos exames, talvez agora venham à liça.

Março 11, 2020

Os professores e o futuro dos seus alunos.

vai-teaosprofessores

O tema da semana é o covid-19, mas não escreverei sobre o tema, porque não o domino. O tema que irei desenvolver será o do professor como «canivete suíço» na visão do Guinote, ou o subjacente na carta dirigida por uma professora aos encarregados de educação, publicada no Comregras a 8/3, onde se escreve: «para o futuro de cada uma das crianças e de cada um dos jovens com quem hoje partilho os meus dias, só posso desejar o melhor: que sejam responsáveis, curiosos, amantes do saber, sensíveis, briosos, dedicados, capazes de abdicar de alguns prazeres para lutarem pelas suas convicções, participantes ativos e esclarecidos na sociedade e felizes, muito felizes».

Ou seja, o papel de professor extravasa o nível científico e pedagógico, entrando por zonas da psicologia e da sociologia e acima de tudo abraçando o humanismo, de querer ver cada aluno como um vencedor na vida, tal como desejamos para os nossos filhos.

É neste contexto que quero trazer hoje um caso concreto de um aluno que demonstrava absentismo, estava sempre a arranjar maneira de sair da escola, quando ia às aulas não estava atento e consequentemente tinha insucesso escolar. Este comportamento ainda se manteve até ao final do primeiro período, mas, depois muda, tornando-se um aluno cumpridor e que se esforça para obter resultados. O que esteve na alteração de comportamento: o esforço dos professores que nunca desistiram dele e o elogiaram, quando mudou de atitude; a atual namorada que o incentivou a mudar para construírem um projeto de vida; ou, a mãe, para quem o filho só lhe dizia a verdade, confrontada com assinaturas falsificadas, começou a acreditar na informação veiculada pela escola e agiu.

Qual foi o mais importante, a namorada que o afastou das anteriores amizades e do seu grupo de pertença, a mãe que caiu na realidade e reagiu positivamente às informações recebidas da escola, após um período de negação, ou dos professores, que nunca se desinteressaram, obrigando-o a cumprir as faltas injustificadas na biblioteca, que ameaçaram comunicar à CPCJ, o seu absentismo, lembrando que depois ele e a mãe teriam de ir a reuniões justificar o seu comportamento, além de tentarem compreender o que estava na base do seu comportamento? Acho que foram os contributos destes 3 fatores que provocaram a mudança. Ou seja, quando a escola, a família e namorada se unem o sucesso é possível. Houve aqui um misto de sanções, com reforços positivos e acima de tudo muito diálogo com o aluno e mãe.

Concluindo, são estes casos que dão a satisfação de dever cumprido e energia aos professores, permitindo-lhes enfrentar o lado negativo desta profissão, como a perda de prestígio social e a desvalorização da profissão pelos últimos governos.

Março 04, 2020

Ainda a propósito da escola ser democrática: uma resposta aos que defendem o atual modelo.

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No blog do ComRegras tem havido um debate sobre a gestão democrática nas escolas, a propósito de uma petição que voltou a colocar o tema na atualidade. Veja-se o artigo «ímpares entre pares? A grande falácia» publicado a 3/3.

Em primeiro lugar quero distinguir a gestão democrática da escola democrática. A distinção é que se debatermos somente a gestão até podemos aceitar a existência de democracia nas escolas portuguesas, uma democracia limitada e indireta, porque os professores, alunos e funcionários elegem representantes no conselho geral, mas depois há os membros representantes da autarquia e forças socio/económicas. Há democracia limitada porque a eleição do diretor é indireta e há membros por inerência e cooptados.

Mas uma escola pode viver um clima de coação, por parte de um diretor, sobre todas as ideias que não se compaginam com a visão de escola do diretor. Portanto a escola pode não ser democrática ao não aceitar a diferença de opinião. Para isso o diretor tem vários mecanismos à sua disposição, a atribuição de horários e níveis, fazendo o assédio moral, o uso dos processos disciplinares (parece-me relevante o caso da professora agredida e alvo de um processo disciplinar para desistir da queixa feita nos órgãos policiais – veja-se o post «professora agredida leva processo disciplinar e agressora é condenada em tribunal» de 2/3). Eu próprio já escrevi uma carta aberta à comunidade educativa e tive um processo disciplinar que me valeu uma multa. O diretor escolhe o instrutor do processo, que no meu caso até me acusou de factos falsos de que tinha conhecimento pessoal de que o eram e tive de o chamar a depor para rebater algumas acusações. Como alguém escreveu num comentário ao post referido «a “matilha” juntou-se para isolar, humilhar e abater o alvo». Lembro que os processos disciplinares deixaram de ser da responsabilidade da inspeção e passaram a depender de um instrutor nomeado pelo diretor, ou seja, a justiça disciplinar não segue as mesmas normas da justiça normal, nomeadamente o princípio do juiz/instrutor independente e natural, antes pelo contrário aqui escolhe a seu belo prazer o instrutor.

Por último uma escola democrática deve estimular o pensamento crítico sobre todos os assuntos, quer entre professores, quer para alunos. Já há dificuldades em estimular o pensamento crítico no âmbito das matérias lecionadas devido à rigidez dos programas a lecionar, mas a liberdade de expressão dos próprios alunos aparece limitada aos temas selecionados nas publicações escolares. Conheço casos de artigos mandados para as publicações escolares que foram censurados ou não publicados, porque o tema era incómodo para o diretor.

Concluindo, restringir a escola democrática a saber se há um laivo de democracia na eleição do diretor é redutor. A escola democrática implica mecanismos de equilíbrio de poderes e uma justiça disciplinar que não esteja inclinada para o lado do diretor. Acima de tudo implica aceitar o debate de ideias e não restringi-lo como certos diretores fazem. A arquitetura da instituição escola democrática exige eleições diretas, órgãos colegais, uma justiça disciplinar mais equilibrada com as mesmas regras da outra justiça e que exclua liminarmente o delito de opinião.

Fevereiro 19, 2020

O ministro da educação não é Marega.

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O acontecimento que o jogador do FCP, Marega, protagonizou ao abandonar o jogo após ser vítima de cânticos racistas veio mostrar que a nossa sociedade pratica bullying e esta prática tem sido considerada normal. Aqui o bullying surgiu numa das suas formas mais violentas, o racismo, considerado pela nossa sociedade crime de ódio.

Eu vou pelo conceito de bullying na minha análise ao caso Marega porque essa é a palavra usada em contexto educativo para designar atitudes de coação física e psicológica: Bullying (inglês) é o uso de força física, ameaça ou coerção para abusar, intimidar ou dominar agressivamente outras pessoas de forma frequente e habitual (wikipédia). O pretexto para se praticar o bullying é a diferença, de cor de pele, de massa corporal, de caraterísticas físicas, como imperfeições, de pensamento, etc.

Nós, os professores, em contexto escolar, combatemos este fenómeno e fiquei espantado, por o ministro da educação ainda não se ter pronunciado sobre o assunto. Continua mudo até hoje. Devia ter falado, porque tutela o desporto, onde se tem refugiado como contraponto ao seu desaparecimento na área da educação, como no caso das agressões aos professores e funcionários. Mas, como ministro da educação deveria ser assertivo com que o que se passou na sociedade, com o caso referido, isto é, deveria, aproveitando o debate em curso, para que se reforçasse o combate ao bullying em meio escolar como prevenção de situações futuras. Esta exigência seria tanto maior quanto sabemos que os discentes têm ídolos nas atividades desportivas. Mas não, está ausente, não temos ministro da educação atento aos problemas sociais com incidência educativa.

Devo dizer que me afastei do futebol, desde que ir ao futebol passou a significar ter de assistir a cenas de violência, tanto mais que levava a minhas filhas comigo, ainda em Coimbra nos anos oitenta. Presentemente vivo perto de Guimarães e já equacionei ir assistir a jogos de futebol no estádio do Guimarães, mas a coerção dos vimaranenses em relação às claques de outros clubes ou mesmo a um simples assistente ao jogo, como seria o meu caso, que não participa nas suas «causas», aconselhado por quem já viveu situações dessas, fez-me desistir. Ou seja o futebol está a afastar as pessoas de bem que somente valorizam o espetáculo sem clubite. Ainda recentemente num jantar de amigos, quando disse que a clubite vimaranense era agressiva, houve quem se tivesse zangado comigo.

O futebol tem estado a normalizar a violência física e verbal, o que torna mais difícil combater o bullying nas escolas, uma vez que os jovens tendem a internalizar comportamentos agressivos e de coerção praticados no futebol.

Esta inoperância das estruturas para com a violência do futebol fez crescer a intolerância e a xenofobia – veja-se como o deputado do Chega usou o futebol como trampolim através de discursos fomentadores da intolerância. Temos então fenómenos como Alcochete, a morte de um adepto do SCP e o racismo no futebol e coube ao Marega dizer basta.

Concluindo, se o problema existe na sociedade e com a dimensão que este fim de semana ficou mais patente, também está nas escolas e torna-se difícil combater o fenómeno em meio escolar quando é pouco combatido na sociedade. As últimas condenações que houve foram em 2008 e somente 13. Interdição de estádios muito poucas. Logo a sociedade tem sido branda e isto tem de mudar. Um ministro atento deveria ter aparecido a dizer que a instituição escola fará o seu papel com tolerância zero ao racismo e ao bullying de uma forma geral, mas infelizmente ficou-se pelo silêncio, à espera de passar pelos pingos da chuva.

Fevereiro 12, 2020

A aplicação das medidas universais nos cursos profissionais e suas limitações.

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As medidas universais são para alunos que mostram dificuldades de aprendizagem e nos cursos profissionais é normal o professor fazer uma adaptação às caraterísticas dos alunos. Uma dessas adaptações é valorizar a componente do saber fazer com uma percentagem de pelo menos metade da parte cognitiva. Na parte cognitiva, sobre o saber, procuro restringir a matéria avaliada a perguntas previamente dadas, portanto orientando o estudo do aluno. Outra estratégia é reduzir a avaliação do saber a partes do lecionado através das questões de aula. Explicando melhor em vez de um teste sobre todo o módulo, entre 20 a 30 páginas, divido-o em questões de aula para reduzir a matéria que têm de estudar. Com estas medidas diminuíram o número de alunos que fazem recuperação.

Depois disto tudo ainda persistem alunos com resultados insuficientes para conseguirem aproveitamento. São os alunos completamente desmotivados, que ou faltam às aulas, ou estão de corpo presente, mas com o espírito ausente e que não fazem qualquer esforço para terem aprendizagens. Para estes as medidas universais não resultam porque mesmo nas medidas universais há e deve haver esforço (sem cair no facilitismo) e estes alunos nada querem fazer. São alunos desmotivados que são encaminhados para os serviços de psicologia ou para tutorias, os apoios não resultam. São situações em que os problemas familiares e sociais se sobrepõem às aprendizagens e só uma intervenção mais especializada permite inverter a situação.

A média na minha escola de insucesso no final dos 3 anos dos cursos profissionais ronda os 20% e traduz estes problemas, que têm um primeiro indicador no absentismo que estes alunos tendem a demostrar. Nalguns casos este absentismo encontra travão no facto de exigirmos que as faltas injustificadas acima do limite previsto, os 10% das aulas, sejam cumpridas na biblioteca, ou seja, passa a haver um preço sombra para as faltas que os leva a cumprir, na medida em que não se livram de estar na escola igual período de tempo por cada falta que dão. Assim, alguns alunos passam a ir às aulas, mas alguns destes continuam somente com o corpo presente. O facto de estarem na aula já significa algum sucesso social, pois não estão a passar o tempo de forma ociosa, correndo riscos de serem desencaminhados nos cafés integrados em grupos com comportamentos desviantes. Sabemos como o comportamento na adolescência é influenciado pelos grupos de pertença. Mas o sucesso académico continua inexistente.

Conclusão na medida em que a escola reflete os problemas da sociedade, não tem na sua (pouca) autonomia soluções para todos os problemas. As medidas universais são aplicáveis a quem tem um mínimo de empenho e de querer na aprendizagem. Os «forçados» a estar na escola e os desmotivados pela sua experiência social e familiar têm de ter outros mecanismos de intervenção que ultrapassam o professor.

Fevereiro 05, 2020

O ministro continua ausente, talvez deslumbrado na área do desporto...

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O ministério continua a não defender os professores em prol do interesse nacional. Hoje hesitei sobre o que escrever, mas mesmo sendo repetitivo decidi voltar ao tema das agressões em meio escolar e à falta de professores e ao desprezo do ministro por quem tutela porque esta postura tem de ser denunciada.

O Ministério da saúde conseguiu que as agressões aos profissionais de saúde fossem consideradas prioritárias na investigação criminal. Do meu ponto de vista será pouco porque deveria ser crime público, mas já é alguma coisa. O ministério da educação contínua quieto e caladinho, sem defender os seus profissionais: parece que a política é fingir-se de morto. Tudo isto em contraponto a uma sondagem aos portugueses que acham que os médicos e professores deviam ganhar mais do que os políticos e magistrados, isto é, há um reconhecimento pelos portugueses por estas profissões, que consideram socialmente úteis, a que se contrapõe a degradação social contínua dos professores pelo(s) governo(s), quer em termos financeiros quer em termos sociais.

Quanto à falta de professores é lamentável que esta classe valorizada pelos portugueses e desprezada por governos, não tenham incentivos para ir para zonas carenciadas, como acontece com os médicos (no dia 4/2/2020 o JN refere que foram gastos 4,5 milhões de euros com incentivos a médicos). Mais uma vez no cotejo com o Ministério da Saúde o ministério de educação fica a perder na defesa dos seus profissionais. São todos funcionários públicos, mas uns mais do que outros.

Concluindo, existe um ministro ausente na educação em relação às preocupações da classe docente, quer no que se refere às agressões a professores e funcionários, quer na sua inação sobre o incentivo a professores em zonas carenciadas, o que não acontece com o Ministério da Saúde.

Janeiro 29, 2020

Ânimos exaltados na sala de professores: um debate sobre medidas universais.

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Ânimos exaltados na sala de professores: um debate sobre medidas universais.

Não foi por causa do aumento irrisório de 0.3%. Não foi por causa do tratamento especial para os agressores dos magistrados. Não foi pelo silêncio ensurdecedor do ministro quando há professores agredidos. E podia continuar com um rosário de queixas que atinge a classe.

O motivo do debate aceso foi uma «medida universal», a repetição de um grupo num teste em que o aluno tenha tido negativa, com o objetivo de chegar à positiva. Os defensores desta medida aplicam-na no âmbito das medidas universais e para motivar os alunos.

Do outro lado, o argumento é que se é dada uma oportunidade a alguns alunos somente, estamos a criar discriminação, pois quem tira positiva não tem uma segunda oportunidade. Alguém dizia que tinha dois filhos, um que tirasse negativa podia chegar à positiva, outro que tinha tirado positiva já não podia ter a oportunidade de subir a nota, podendo no limite ficar com a mesma classificação. A escola está a discriminar negativamente os alunos médios e acima da média ao aplicar este tipo de medidas.

Este debate mostra como os professores debatem com alma as alterações introduzidas pelos decretos 54 e 55. Nunca tinha visto a sala de professores tão animada. Mostra a grande preocupação dos professores com os alunos e por eles discutem, quando aparentemente se resignam com os ataques à profissão.

Este debate mostra que está a ser imposta às escolas um novo paradigma, a de se trabalhar com fatos feitos à medida, em vez de se estipular um uniforme único, ou seja, trabalhar-se para o aluno médio. Há medidas para os alunos com dificuldades de aprendizagem, mas também há medidas para os alunos com boas notas que podem ter exercícios com maior grau de dificuldade, por exemplo em aulas de coadjuvação em que um professor acompanha os alunos com dificuldades e outro acompanha os outros, com exercícios adequados a cada situação.

O problema desta alteração de paradigma é que está a ser feita com um acréscimo marginal de recursos: há somente coadjuvação de 15 em 15 dias. O teste de recuperação é feito em aulas normais e aumenta a ocupação de tempos letivos com a parte avaliativa à custa da parte da aprendizagem. Outro problema é a contradição das medidas universais e os resultados em exames – muitos dos alunos que atingem a nota positiva mínima não conseguem passar em exame.

Percebo que quem tenha filhos que são bons alunos e que por 1 valor podem não ter acesso ao curso pretendido veja aqui uma discriminação, pois o apoio a estes alunos é esporádico, enquanto as medidas para os alunos com dificuldades são mais efetivas na procura de percursos limpos e taxas de retenção mais baixas.

Concluindo, quando mexem com os alunos, os professores participam e discutem, parecendo anestesiados quando estão em causa os ataques à sua profissão.

Janeiro 22, 2020

A desvalorização das competências para ensinar: mais uma machadada na profissão docente

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Uma das medidas mais graves que vi tomadas em educação foi sem dúvida a desvalorização das competências para ensinar nos grupos carenciados em professores, nomeadamente em informática em que uma simples ação de formação é suficiente para se ser professor da área.

Os professores têm vindo a ver desvalorizada a sua profissão por motivos financeiros, dado que são uma das profissões onde a formação superior predomina e com mais elementos, em relação a médicos e magistrados. Também por motivos políticos por serem um obstáculo às visões neoliberais da educação, onde se valoriza os resultados e a avaliação, incluindo a profissional. O receio da capacidade reflexiva desta classe tem levado a tentar subjugá-la, uns pela imposição da mercantilização da educação, outros pelo facilitismo para obter resultados, mantendo os exames em contradição com outros objetivos para o ensino não superior explicitados no estatuto do aluno, receando politicamente o resultado da definição clara do que se pretende para o ensino básico e secundário e suas consequências para o acesso ao superior.

Na crise financeira sofreram um agravamento da intensidade do trabalho principalmente com a consideração como tempo não letivo de alguns trabalhos com alunos, como se fosse diferente preparar uma aula ou um apoio para meia dúzia de alunos. Esta situação ainda não foi revertida no pós troica.

Recentemente as situações de agressões continuam a ser ignoradas pela tutela, ao contrário da reação pronta do ministério da saúde, além do tratamento desigual quando magistrados são agredidos.

Mas a cereja no topo do bolo é a desvalorização técnico-científica da profissão em que uma simples ação de formação serve para criar competências profissionais. Esta desvalorização técnico-científica já tinha tido um episódio com a redução do efeito para progressão dos mestrados e doutoramentos.

Concluindo os governos têm vindo a desvalorizar economicamente a profissão docente, depois intensificaram o trabalho com a consideração como tempo não letivo de alguns apoios aos estudantes, tudo isto com um objetivo político de decapitar a capacidade reivindicativa e reflexiva, com a limitação de greves aos exames e às avaliações e agora temos a desvalorização técnico-científica, que permite à opinião pública pensar que ser professor pode ser qualquer um desde que faça umas horas de formação, como em alguns cursos existentes para desempregados.

Janeiro 15, 2020

A questão das aulas do século XX no século XXI.

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Num artigo recente o Alexandre Henriques aborda este tema. Quero aqui dar testemunho do meu caso pessoal.

Antes da interrupção letiva mandei um email à direção da minha escola a solicitar uma sala de informática para os alunos poderem realizar um trabalho, que contaria para avaliação, durante duas semanas. É uma turma dos profissionais, para quem o Conselho Pedagógico aprovou que se deveria ter no mínimo 40% da avaliação modular no âmbito do saber fazer. Além disso, a prática de execução de trabalhos pelos alunos é essencial para prepararem a sua PAP (prova de aptidão profissional no 12º ano).

Quando, no segundo período, regressámos ao trabalho passei pela direção para saber como estava a marcação. Foi-me dito que estavam a estudar o assunto e que havia um dia em que havia dificuldades de marcação, pois havia 3 candidatos à única sala livre. Estamos perante recursos escassos que inibem as aulas tipo século XXI por falta de investimento do ministério da educação.

Na primeira semana de aulas tive de alterar a programação feita por não ter sala de informática. Para a segunda semana foi-me atribuída a sala, por terem considerado que a matéria a lecionar era a que mais exigia uma aula com computadores.

Relacionando com a descentralização em curso, como o meu concelho aderiu à descentralização em educação, acho que é à câmara municipal que caberá garantir o apetrechamento de condições tecnológicas do século XXI para as escolas daqui para a frente, nomeadamente o apetrechamento de mais salas de informática que permitam assegurar um ensino diferente. A propósito deste tema o JN tem uma notícia na página 8 do dia 14/1/2020, em que explicita que a descentralização na educação deu prejuízo de 48 milhões ao norte. No corpo da notícia é dito que «todos os municípios da região apresentam um total de despesa elegível…superior a 100% da atribuída pelo OGE 2018».

Concluindo, no meu local de trabalho há rateio de salas de informática para se assegurar um ensino do século XXI. Para o futuro a responsabilidade de resolver o problema caberá ao executivo municipal e não ao ministério da educação, que faz leis para alterar o ensino, mas não deu condições para serem executadas e agora «passa culpas» para os municípios. Veremos se esta proximidade resolve o nosso atraso tecnológico, mas para já os municípios estão a financiar a educação acima do envelope financeiro cedido pelo governo que acompanha a descentralização.

Janeiro 09, 2020

Comparação entre professores e médicos na atitude do governo

vai-teaosprofessores

Começo por desejar Bom Ano a todos os leitores.

O meu tema de hoje é fazer um cotejo entre o tratamento das agressões a professores e das agressões aos médicos.

No que se refere às agressões a professores a opinião pública e a imprensa já começa a apropriar-se deste fenómeno. Contudo, continua a faltar os poderes políticos intervirem. Houve uma intervenção do ministro que prometeu falar com a justiça para analisar o problema do ponto de vista de ser considerado crime público.

No caso dos médicos houve logo reação da ministra da saúde, que reuniu com a ministra da justiça e com o ministro da administração interna para abordar a situação. Não sei se na prática haverá mais do que estas reuniões, tanto mais que a medida de criar um gabinete de segurança, foi considerada pelos médicos e enfermeiros uma medida paliativa, mas pelo menos houve uma mensagem de preocupação do governo com os médicos. No caso dos professores ficou-se por uma promessa de analisar o assunto sem consequências ou reunião.

Esta diferença reflete o quê? Diferença de peso dos ministros, o facto de a saúde ser prioritária para este novo governo? Não sei responder e escolher uma hipótese, mas já nos habituámos (os professores) a ser insignificantes para o atual ministro, que nem soube aproveitar as reuniões das suas colegas da justiça e da saúde para se colar ao processo. Mais uma vez desperdiçou uma oportunidade de defender os professores.

Também podemos analisar as causas das agressões. Se descontarmos os comportamentos agressivos patológicos, na saúde as agressões são também um grito de desespero pelas horas de espera nas urgências ou da dificuldade em se ter consulta a tempo e horas. Talvez descarregando a frustração pela ineficiência dos serviços em quem dá a cara. Portanto, há aqui uma revolta contra as opções das escolhas governativas.

Já na educação o que está em causa é a super proteção dada aos filhos, a par de uma desvalorização social da classe docente, resultante de uma política deliberada e de uma educação facilitista, sem pôr recursos na resolução das dificuldades. O caso do anúncio de novos 2000 professores que na maioria vieram substituir colegas é paradigmática de uma demagogia por parte do poder político no setor da educação, que não quer resolver problemas mas varre-los para baixo do tapete por via administrativa.

Concluindo, na comparação entre o tratamento das agressões a professores e a médicos, ressalta que mais uma vez o ministro não está ao lado dos professores. Quanto às causas, se na saúde a falta de investimento afeta todos, na educação estamos perante uma opção política que retira estatuto aos professores pela via monetária – o caso do tempo de serviço por contar - e pela via educativa, tornando-os em executores (não seres pensantes) de uma política que desvaloriza o professor e o conhecimento, na medida em que procura soluções administrativas e não encara os problemas de frente disponibilizando mais recursos para se alcançar o conhecimento, embora procure passar essa mensagem com recurso à demagogia.