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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

O currículo oculto nas escolas: o comportamento dos dirigentes

vai-teaosprofessores, 20.09.22

Nas escolas existem diversos tipos de currículos, os programas, os Planos Anuais de Atividades, o projeto educativo, mas também existe um currículo transmitido pela acção dos dirigentes e mesmo dos professores.

Vejamos exemplos de comportamento dirigentes que constituem currículo oculto. Havendo um estacionamento para cerca de 30 a 40 lugares, durante 6 meses os únicos carros que ali estacionaram foi o do/a diretor/a e do encarregado dos auxiliares. Mensagem transmitida: ser dirigente inclui tratamento previligiado. Mensagem alternativa não transmitida: o chefe dá o exemplo, olha para o que faço, não para o que digo.

No final do ano letivo todos os professores e funcionários que tiveram direito de estacionar, segundo critérios aceitáveis, tiveram de entregar os comandos (que foram sujeitos a pagamento reembolsável e taxados), havendo repetição do concurso de atribuição de lugares no início do ano letivo. Mas neste início de ano letivo os elementos da direção, incluindo adjuntos e acessores, o presidente do Conselho Geral, não ficaram sujeitos à regra, pois continuam a estacionar mesmo com o concurso de atribuição a decorrer. Mais uma vez se transmite que ser chefe ou seu colaborador implica acesso a tratamento diferenciado e de privilégio. Mensagem não transmitida: a lei é para todos não há excepções.

Ainda sobre este caso, mesmo reconhecendo que não fui prejudicado, não são afixadas a lista dos estacionamento atribuídos e com base em que critérios. Ou seja, mensagem não transmitida: não houve transparência na tomada de decisão. Esta falta de transparência também se constata em outras situações, como na ADD - avaliação do desempenho docente -, onde também há dificuldades em obter documentos que por lei deviam ser facultados. 

Concluindo o comportamento da direção transmite aos alunos valores como ser dirigente é ter privilégios, exemplificado no ter acesso exclusivo ao estacionamento, o chefe não tem de dar o exemplo.

 

A questão de retirar a classificação mais baixa

vai-teaosprofessores, 08.09.22

Nas reuniões de início do ano letivo verifiquei com agrado que o procedimento avaliativo de retirar a nota mais baixa apareceu em revisão e com auscultação aos zecos (professores sem cargos),  situação rara face ao papel central do diretor cada vez enraizado. Mas também verifiquei que muitos colegas não perceberam o significado desta norma, particularmente o de desresponsabilizar o aluno. Passo a explicar.

Nos procedimentos do projeto Maia a avaliação sumativa deve vir depois da formativa e sempre com direito a repetir a avaliação após feedback. Logo ao longo do processo avaliativo há hipóteses de se recuperar avaliações que não correram bem. Assim, a retirada da pior nota, não se insere no processo de feedback e de salvaguarda de um azar do aluno, mas simplesmente serve para inflacionar as notas e é usada para desresponsabilizar os alunos que não se empenharam, pois estes tiveram hipótese de recuperar classificações total ou parcialmente (total ou parcialmente porque em certas disciplinas só se pode recuperar um dos grupos dos testes ou questões de aula). Além disso muitos alunos usam esta norma para não trabalharem no 3º período, porque sabem que neste período, em geral mais curto, só haverá uma avaliação. Pessoalmente tive meia dúzia de alunos que tiveram esta atitude com efeitos na disciplina na sala de aula.

Outro problema que se põe é quanto a escola deve estar afastada da forma como a sociedade funciona (?). Na vida social os erros não são, em geral, desculpados. Na escola deve haver a hipótese de o aluno aprender com os erros e ter hipótese de recuperar parte ou totalmente o prejuízo, mas sem exageros. Isto é feito se o processo de feedback for aplicado e houver hipótese de recuperar o que correu menos bem, o que está a ser aplicado através do Maia. Assim, não se compreende a retirada da pior nota no momento final, uma vez que ao longo do processo já houve informação sobre os erros cometidos e possibilidade de os corrigir. Ao exagerar-se na desrenponsabilização do aluno não o estamos a preparar para a vida em sociedade.

Concluindo,  estar a favor da retirada da norma de excluir a pior nota da média não é estar contra a filosofia avaliativa discente do projeto Maia na sua essência, mas simplesmente não cair em exageros, não inflacionar notas fora de um processo de melhoria das aprendizagens, haver responsabilização dos alunos e evitar situações propiciadoras de indisciplina.

Regresso à escrita

vai-teaosprofessores, 01.09.22

Estive cerca de um ano sem escrever neste blog porque precisava de um ano sabático, para me distanciar do que fui fazendo e porque estava frustado com a evolução degradante da profissão docente e porque senti que os colegas só se preocupam em sobreviver e cada vez mais se tornam insensíveis à degradação da nossa profissão.

Neste ano a degradação continuou e a prova disso são as alterações recentes ao recrutamento de profissionais que regrediu quatro décadas, ao início dos anos 80, quando comecei a dar aulas ainda sem licenciatura, bastando-me provar que tinha tido algumas cadeiras no ensino superior da área a lecionar. 

Ao nível da avaliação dos alunos entrou em vigor a filosofia Maia que, na minha escola, implica retirar no final do ano a pior avaliação de um aluno, podendo o aluno subir a classificação até 3 valores se o aluno tiver tido uma avaliação negativa baixa. Além disso tive alunos que entraram de férias no final do segundo período, pois concluiram que a nota desse período seria a retirar e como o período é mais curto, em geral só se faz uma avaliação. Nesta nova avaliação discente nem tudo é mau, considero positivo a diversificação dos tipos de avaliação, explicando os testes deixaram de ser a avaliação dominante, passando a haver trabalhos, projetos, orais, etc. Este aspeto positivo é submergido pelo aspetos negativos.

Concluindo, a profissão docente continua a degradar-se e o facilitismo na avaliação discente está institucionalizado, afastando a escola dos critérios de funcionamento da sociedade e do mundo do trabalho.

 

As vicissitudes da ADD

vai-teaosprofessores, 14.10.21

Depois de 4 anos numa SADD é tempo de fazer o balanço desta função.

Era prática corrente atribuir a nota máxima de 8,9 aos avaliados do quadro, para atingirem o Muito Bom, qualquer que fosse o escalão. Esta prática prejudicava os avaliados dos 4º e 6º escalões, que iam para as listas competir com colegas de outras escolas onde se atribuíam notas de 9 ou superiores. Julgo que a razão de ser desta prática resultava, por um lado, de se procurar ser criterioso com os excelentes e, por outro lado, de «harmonizar» as notas atribuídas. De qualquer maneira estávamos a atribuir classificações qualitativas e não quantitativas, à partida, quando a notação qualitativa devia surgir somente no final aplicando as quotas. Esta metodologia prejudicou vários colegas. Consegui que esta prática deixasse de existir, começando a haver Bons com notas quantitativas superiores ou iguais a nove.

Outra vicissitude que havia era a intromissão do diretor/a na avaliação dos avaliadores internos, sem ser nos dos escalões 8 e 9 de sua competência exclusiva, através de uma reunião convocada, mas sem ata (!), onde o diretor/a se inteirava das propostas de avaliações de Muito Bom e Excelente, com vista a sufragar as escolhas feitas. Qualquer avaliador interno que discuta a ADD com o diretor/a está a ceder a sua competência atribuída por lei, reforçando um poder já muito concentrado e desequilibrado. Não podemos dizer que queremos alterar o poder excessivo atual dos diretores e na prática reforçá-lo, abdicando das nossas competências.

Outra prática consiste em desvalorizar a avaliação externa para que a escola possa ter maior controlo sobre as classificações atribuídas. Pessoalmente inscrevi na dimensão científica e pedagógica, nos itens 4, 5 e 6, a classificação que o avaliador externo atribuíra com base nas aulas assistidas, onde o avaliador interno não esteve presente. Reconheço que para estes itens o avaliador externo tem mais informação que o avaliador interno. Contudo, não posso deixar de achar estranho a proliferação de notas máximas (10), o que sociologicamente pode indicar um ato de resistência dos avaliadores externos a esta ADD.

Com o surgir das reclamações houve um «movimento» para se acabarem com delegações de competência por parte dos coordenadores de departamento. Esta delegação de competências permite que o avaliador interno seja da mesma área científica ou grupo disciplinar, o que me parece fundamental. Não aderi a estas práticas, exceto quando não tinha hipóteses de delegar porque, em quem podia delegar, eram também avaliados, nesse ano. Entendo que o avaliador interno deve ser da mesma área, além de que na minha escola há mais reuniões de grupo do que departamento, com o reforço argumentativo que a dimensão dos grupos é muito mais reduzida e permite um melhor acompanhamento dos avaliados. Este movimento pareceu-me ter a intenção de reduzir os participantes no processo avaliativo, ou seja, fechar o mais possível este processo a «gente de confiança». Esta suspeita foi confirmada com a redução dos coordenadores de departamento de 8 para 6, com a entrada num novo ciclo diretivo com a recondução do diretor/a. Pessoalmente pugno pelo oposto, tornar o processo avaliativo mais transparente.

Concluindo, a ADD sendo uma má solução legislativa, está também a ser aplicada, no âmbito de um caso específico, com algumas práticas de que me demarquei. O resultado destas captura local da ADD é todos os elementos ligados à direção terem tido classificação qualitativa de Muito Bom ou Excelente e nunca se ter procedido à seriação dos avaliados prevista na lei para os casos de empate, o que prova um controlo sobre o processo.

A propósito de um caso de indisciplina que constitui crime.

vai-teaosprofessores, 24.06.21

Sou professor de alunos com mais de 16 anos que me brindaram com ameaças de morte e insultos pessoais e familiares através de correio eletrónico anónimo. Passou-se no  primeiro período, tendo-lhes dado um prazo até ao natal para assumirem as suas responsabilidades.

A escola iniciou um processo de averiguações, mas como o prazo para assumirem responsabilidades acabou, sem ninguém se acusar, resolvi também fazer queixa na GNR. A minha decisão de levar o caso para fora da escola resultou de não terem assumido a sua responsabilidade e por de início ter sido muito difícil provar quem foram os autores, pois usaram uma conta de mail que encontraram aberta num computador e não havia registo de quem usou o computador, apesar de se ter identificado o computador utilizado. A colaboração da Google só seria possível através de um órgão de polícia, para identificar os autores.

Entretanto em sede de inquérito na escola houve um aluno que resolveu assumir as suas responsabilidades e denunciar os outros, tendo identificado os 4 autores. O castigo da escola foi aplicar suspensões diferenciadas aos alunos, com menos tempo para o que se assumiu.

Depois fui contactado pelo Ministério Público para prestar declarações sobre o assunto. Falei em desistir da queixa, o que não se podia fazer por ser crime público, uma vez que tinha o receio de ficarem com registo criminal e não cria estragar a vida aos alunos. O processo lá seguiu e recentemente comecei a receber pedidos formais de desculpa e soube que foram condenados a trabalho comunitário.

Quiz trazer este caso pessoal, para incentivar os professores a apresentarem queixa quando alvo de crimes, tanto mais que no meu caso, houve muito bom senso na decisão proposta pelo MP e homolgada por um juiz, sem que ficassem com cadastro, o que me preocupava. Acho que o castigo da escola deveria ter sido também trabalho comunitário em vez das suspensões, não consigo perceber porque há diretores que não o aplicam, mesmo estando previsto no estatuto do aluno. 

Comemoração da revolução de abril de 1974.

vai-teaosprofessores, 27.04.21

Passaram 47 anos desde que uma ditadura foi deitada a baixo e uma democracia foi instalada. Antes tínhamos pensamento único, partido único, censura, polícia política, tribunais especiais, ou seja tudo o que fazia com que a palavra democracia fosse letra morta. Depois foi instalada uma democracia, de início tutelada pelos militares revoltosos, que se afastaram da vida política, num exemplo raro.

Passados 47 anos o expresso (de dia 23) fez uma sondagem em que só 10% dos portugueses diz viver uma democracia plena. Este resultado deve fazer-nos pensar que a democracia plena tem vindo a ser capturada por grupos de interesses.

Não posso deixar de assinalar que nas escolas há cada vez mais captura pelos diretores do funcionamento das escolas em nome de uma eficiência neoliberal. Os alunos estão acantonados a processos democráticos de escolha da comissão de finalistas, pois as associações de estudantes preocupam-se basicamente com esta questão, ou com os orçamentos participativos em que escolhem entre projetos para gastar até 1000€, projetos esses previamente aprovados pelo diretor. Os professores elegem representantes no Conselho Geral, que escolhe o diretor e os coordenadores de departamentos, entre 3 nomes propostos pelo diretor. Os coordenadores são importantes na avaliação docente, mas há diretores que em vez de lhes dar autonomia, promovem reuniões de coordenação de acesso às quotas disponível, contornando o espírito da lei que diz que a SADD deveria limitar-se a seriar as propostas de classificação. Neste processo a própria avaliação externa, com aulas assistidas, é desvalorizada em nome de um controlo absoluto pelo diretor/a diretora.

O que se passa nas escolas em termos de prática democrática é importante para a defesa da própria democracia, pois com práticas democráticas os futuros adultos estarão mais atentos à sua defesa, mas a escola parece ensinar que quem manda tem poder absoluto e deve tudo controlar. Não há autonomia dentro da escola. O conceito de cidadão como ator social interveniente é abandonado.

Esta é a reflexão que quis trazer a propósito da escola na comemoração de mais um aniversário do 25 de abril. Estamos a contribuir para uma democracia limitada em especial na escola conforme a sondagem do expresso?

A necessidade de testagem nas escolas ficou provada.  

vai-teaosprofessores, 23.04.21

O recomeço das aulas foi acompanhado por vacinação e testes, interessa-me particularmente estes últimos na medida em que têm surgido casos. No meu concelho há 3 agrupamentos de escolas e houve deteção de casos em cada um deles, agora com turmas inteiras mandadas para casa, quando antes iam só os alunos que estavam à volta do aluno infetado, o que sempre me pareceu um facilitismo.

Temos assim provado o engano do governo e em particular do ministro da educação que acreditava (baseado na fé!) que as escolas não eram locais de transmissão do vírus. Os dados provam o contrário, os casos são da ordem dos 1 ou 2 por mil, poucos, mas que podem gerar surtos. Ficou assim provada a necessidade de haver rastreios e o seu efeito benéfico na restrição da propagação do vírus.

Já agora não posso deixar de referir o comportamento de uma aluna que ao receber o mail em que lhe comunicavam que tinha um teste positivo, tirou a máscara e abraçou-se aos amigos/as e colegas, com um comportamento emocional e pouco racional. Este episódio pode explicar a crença de quem está nos gabinetes, ao imaginar um ambiente escolar que não existe, a que eu chamo síndroma do «castelo de marfim».

Concluindo, a testagem, ficou provado, é um elemento essencial para tornar as escolas mais seguras para evitar o surgir de surtos concelhios ou escolares. Deveria ter sido aplicada mais cedo.

O Ministério da educação mudou de política?

vai-teaosprofessores, 14.04.21

Tenho a minha vacinação agendada para domingo e recebi um computador com ligação à internet, que me permitiu deixar de ter interrupções durante as aulas síncronas, apesar de só ter acontecido na última semana de E&D. Com tantas benesses de um ministério que tem sido penalizador dos professores, o que pode explicar esta mudança de comportamento?

No caso das vacinas a explicação mais simples pode ter a ver com a existência de vacinas, mas se nos lembrarmos que este ministério já teve uma atitude negacionista do impacto da Covid nas escolas e só as fechou depois de muita pressão dos professores e da opinião pública, teremos de colocar pelo menos outras hipóteses. O que fez o ministério da educação promover testes de despistagem e tornar os professores prioritários na vacinação, no âmbito das funções essenciais do estado, como já foram os médicos, enfermeiros, assistentes da saúde, outros técnicos de saúde, bombeiros, polícias, etc? Ou há informação oculta sobre o Covid nas escolas ou está na hora do governo ser simpático porque se aproximam eleições municipais, importantes para um governo minoritário? Quando a esmola é muita o pobre desconfia...

Outro facto positivo foi o programa de apetrechamento dos professores em teletrabalho com computadores e internet, uma obrigação legal da entidade patronal para com os subordinados em teletrabalho. Podemos pois interpretar esta distribuição de computadores como o governo estando a cumprir a lei, ainda que tardiamente, depois de alguns professores terem promovido o apagão de protesto contra esta situação. Mas, como o ministério optou por nada dizer durante os protestos, aqui também temos de colocar outras hipóteses. Porquê a opção por ceder em regime de comodato computadores aos professores quando as escolas estão ainda mal equipadas? (Ainda agora mandei um mail à direção da minha escola a pedir para me garantirem uma sala de informática numa disciplina em que estou a dar um programa informático quando dia 19 regressarmos ao ensino presencial e não a terei em todos os tempos como já aconteceu no passado, colocando-me problemas do que fazer nas salas de aulas sem computadores que me permitam cumprir o programa?). Havia dinheiro para gastar dos fundos europeus e comprar computadores portáteis foi a solução mais exequível? Porquê gastar este dinheiro em computadores quando se podia acabar com as restrições administrativas nas subidas de escalão aos 5º e 7º, como pede uma petição? Outra hipótese, já colocada acima, é não podermos ignorar que se aproximam eleições municipais...

Concluindo, há aqui uma mudança de política, de aproximação a algumas reivindicações dos professores, como a vacinação destes, que aumenta a segurança nas escolas contra o Covid e o cumprimento de condições legais  quanto ao teletrabalho. Esta mudança terá a ver com o calendário eleitoral, em que cede alguma coisa, sem resolver problemas de fundo, como escolas mal equipadas no parque informático ou tornar a carreira de professores atrativa?

Escola de verão versus redução de alunos por turma.

vai-teaosprofessores, 01.04.21

A partir de um estudo diagnóstico das aprendizagens foi constatada a necessidade de recompensar a fraca qualidade das aprendizagens devido ao E&D. Vamos admitir como razoáveis as conclusões desse estudo apesar de não haver comparações que permitam separar os efeitos conjunturais da pandemia dos efeitos estruturais, uma vez que não temos dados para anos sem pandemia, apesar da conclusão «de que as dificuldades demonstradas pelos alunos nos níveis mais elevados não é diferente da registada em outros instrumentos de avaliação, nomeadamente em testes internacionais como o Programme for International Student Assessment –  PISA».

A Peralta, economista com acesso a órgãos de informação, apareceu a defender como recompensa a criação de uma escola de verão, isto é criar nas férias de verão um sistema para recuperar as aprendizagens. Mais propõe, que os monitores ou tutores fossem recrutados fora da escola. Ou seja, para esta senhora qualquer um pode prestar serviços educativos, o que posso concordar se o objetivo é fazer qualquer coisa para ocupar os estudantes... Pela qualidade da proposta está tudo dito quando se parte do princípio que qualquer um pode ensinar. Quanto à exequibilidade, foi tão lesta a apresentar contas do prejuízo da paragem das escolas duas semanas, mas agora não apresenta contas. Esta proposta só é realista ao não contar com os professores, porque talvez reconheça o cansaço dos docentes e o facto de que os professores têm muitas tarefas para desempenhar, como garantir os exames ou realização das PAPs, além de que não passa pela cabeça de ninguém os professores ficarem sem férias.

A solução, será na minha opinião, o que se debate na Assembleia da República, a redução de alunos por turma e um sistema de coadjuvações que permita recuperar ao longo do próximo ano letivo as aprendizagens falhadas. Assim, teríamos um prazo alargado para proceder às recuperações necessárias. Esta solução seria aplicada com verdadeiros profissionais da educação. Além disso, se o problema for essencialmente estrutural, com a redução de alunos e reforço de apoios, como coadjuvações, tutorias, salas de estudo, estamos a pensar no futuro e não num remendo. Só um esclarecimento, os apoios seriam substanciais e não paliativos, ainda que limitados a certas disciplinas, como acontece já com aulas de coadjuvação de 15 em 15 dias, ou seja, a haver coadjuvação seria em 50% da carga letiva.

A educação, um ministro forte e o plano de recuperação e resiliência.

vai-teaosprofessores, 22.03.21

A educação encontra-se numa fase em que enfrenta várias encruzilhadas: entre exames e perfil do aluno, entre apoio suplementar aos alunos com fraco capital cultural no seio da família e nivelar a avaliação por baixo, a gestão escolar neoliberal (em vigor, com predomínio de um gestor forte e quase sem contrapoderes) e uma gestão democrática e participativa com vários poderes (que se equilibram), entre uma carreira docente motivadora e a cada vez maior escassez de docentes, entre alterações constantes aos normativos que desvirtuam os princípios basilares (concursos de professores em que a graduação dos docentes, princípio basilar, está cada vez mais desvirtuado), entre educação do século XXI com mais meios técnicos e reconhecimento do papel central do relacionamento humano na educação, entre uma carreira docente e um sistema de avaliação docente penalizante dos bons professores acima dos 25% de quota, entre mais autonomia (que de vez em quando aparece para o centro poder lavar as mãos se algo correr mal)  e um sistema cada vez mais centralizado (agora até a formação é cada vez mais formatada).

Face a estas encruzilhadas que exigiriam um ministro da educação forte, temos um ministro que se limita a gerir o dia a dia, sem tentar resolver problemas de fundo. Tirando a aposta em equipamentos informáticos e a opção de dar prioridade às escolas abertas, mesmo quando já houve colisão frontal com as questões de saúde (com a sonegação de informação sobre o covi-19), todos os outros problemas são escamoteados ou mesmo agravados. A aposta em equipamentos já vem tarde e acima de tudo é uma resposta conjuntural à pandemia e à necessidade do ensino à distância, pois todos nós professores conhecemos este problema como estrutural, devido a escassez de equipamentos informáticos, que tem décadas,  e à «luta» por obter salas informatizadas para se dar uma aula diferente da simples exposição de matéria seguida da resolução de exercícios (principalmente nos cursos profissionais).

O plano de recuperação e resiliência poderia ser uma oportunidade para se proceder a reformas de fundo. Reformas de fundo não é comprar material informático, mas colocar no centro da política educativa as pessoas. É elaborar um plano para reduzir os alunos por turma e dar apoio efetivo aos alunos que mostram dificuldades de aprendizagem, superando as lacunas na sua bagagem sócio-cultural (aulas coadjuvadas de 15 em 15 dias é um paliativo). É decidir que o perfil do aluno é orientador da formação secundária e remeter o acesso à universidade para fora das escolas secundárias.  É mudar o sistema de gestão para que haja equilíbrio de poderes. É criar uma carreira docente motivadora e uma avaliação docente mais estruturada (as reduções do artigo 79º podiam ser usadas numa avaliação docente formativa (em vez de horas na biblioteca ou em salas de estudo sem alunos) com mais aulas observadas. É acabar com a lógica absurda de excluir bons professores de conseguirem boas classificações por falta de quotas. É criar um concurso de professores em que a graduação seja o único fator de acesso aos quadros. Temo que com esta equipa governativa o plano de recuperação e resiliência seja só escolas novas e equipamentos informáticos. Se o atual ministro reconhece a importância da relação aluno / professor em educação e por isso quer as escolas abertas, não se compreende que haja um plano de recuperação e resiliência que só olhe para as infraestruturas materiais e não olhe para a melhoria das questões humanas ao nível de apoiar melhor os alunos com dificuldades, da gestão, da carreira docente e concurso de professores.

Para concluir estas reformas, centradas no ser humano, no apoio efetivo aos alunos, na forma como é gerida a escola, como motivamos os professores na sua carreira e como se entra nos quadros, exige um ministro da educação forte, que não se limite a gerir as crises e faça navegação à vista. O plano de recuperação e resiliência centrado só em equipamentos é uma oportunidade perdida, como foi a aposta no betão.