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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Setembro 16, 2020

O que é uma escola democrática?

vai-teaosprofessores

Vou voltar a este assunto porque numa ação de formação curta dada pelo Prof. Eusébio, sobre avaliação, aparece o conceito de avaliação democrática.

Para este autor avaliação democrática é uma avaliação essencialmente formativa que se carateriza por colocar o acento tónico na deteção das insuficientes dos alunos, quer no domínio do conhecimento, quer de competências, com vista a tentar superá-las, quer pela ação pedagógica do professor, procurando que a avaliação se adeque às caraterísticas do aluno, no sentido de este ter uma pedagogia diferenciada e uma avaliação em sintonia com as suas caraterísticas, quer que o aluno tenha feedback do que precisa de melhorar. Esta visão implica que se analise o mérito do aluno em relação ao seu ponto de partida, pelo que o melhor aluno de uma turma pode não ser o que tem 18, mas o que teve 11 e partiu de um patamar negativo e com muito esforço chegou à positiva. Nesta perspetiva, os quadros de mérito e excelência dão sinais errados, logo não devem existir, ao irem para lá os alunos que entraram na escola com vantagens económicas, culturais e mesmo educativas, pelo apoio dos pais ou explicadores, em vez dos alunos que superaram as suas limitações de partida no âmbito do processo pedagógico normal. As reuniões de início de ano onde se carateriza socilogicamente os alunos não fazem sentido, pois pode-se estar a passar a mensagem de quem devem ser bons alunos e os outros, o que vai condicionar a avaliação dos professores. Esta visão da avaliação a que chama de democrática está em contradição com o papel dos exames e articulada com o perfil do aluno.

Mas será que uma escola democrática passa somente por esta nova visão da avaliação ou esta alteração, mesmo que importante, será parcelar, porque uma escola democrática passa pela prática da democracia, com um modelo de gestão que incentive a participação, dos alunos e professores. Hoje existe um sistema centralizado, em que o ministério controla as escolas e os diretores são órgão uninominais, que reduziu a participação dos alunos na vida escolar e os professores são cada vez mais tratados como correias de transmissão, em vez de seres pensantes autónomos.

Não sejamos tentados a pensar que ao aplicar esta ‘avaliação democrática’ estamos a criar uma escola democrática em contraponto ao modelo de gestão gerencialista (termo usado pela sociologia da educação na UMinho) atual, pois se o fizermos estamos a ignorar que o essencial da escola democrática é praticar a participação democrática universalmente, com mais autonomia e não restringi-la à avaliação. O processo democrático é acima de tudo de baixo para cima, respeitando os seus intervenientes como seres reflexivos e o modelo de gestão atual é de cima para baixo (somente neste contexto o conceito de liderança faz sentido) e esta proposta de avaliação, colocando problemas pertinentes, está a ser imposta de cima para baixo, como consequência do 54 e 55, como o prof. Eusébio fez questão de realçar. A liberdade de se procurar formação em vez de se impor formação é outra vertente que me faz urticária na utilização do termo «democrática», em certos contextos.

Preferiria que se usasse o termo avaliação universal em vez de democrática, para caraterizar a proposta do prof. Eusébio, em contraponto à avaliação meritocrática.

Setembro 09, 2020

Lançamento do ano letivo: muita burocracia, muitas reuniões e a velha tática de virar a opinião contra os professores quando desalinhados.

vai-teaosprofessores

Estamos na segunda semana de setembro, a meio das reuniões para o lançamento do ano letivo, a primeira ideia é que a burocracia continua a imperar: plano presencial, plano misto, plano não presencial, plano de recuperação de conteúdos, planificação dos conteúdos e seu relacionamento com os 3 primeiros planos, articulação horizontal e vertical com outras disciplinas, plano anual de atividades, plano de utilização dos espaços físicos e lotação dos coletivos. Ufa! Acho que ficaram as mais importantes.

Quanto a reuniões, reunião geral 1, de departamento 1, de grupo 3, de diretores de turma 1, de conselho de turma, tantas quanto as turmas, ou seja uma média de 3/4, formação nas plataformas digitais 3 horas, um dia para formação em avaliação e formações específicas, reunião de coordenação da disciplina de cidadania. Não sei se fui exaustivo, mas a reunião(nite) mantém-se, ainda que as com mais de 20 pessoas tenham sido à distância, cumprindo-se as normas sofre o covid.

Para quem não tem conhecimento há cada vez mais burocracia nas escolas e o consequente aumento de reuniões para preencher os documentos exigidos que impliquem coordenação. Se o digital foi insuficiente na transmissão de conhecimentos podia aliviar esta carga burocrática, mas tal ainda não acontece.

Está em cima da mesa um pré aviso de greve do STOP, sindicato de professores, visando mostrar a indignação da classe com as regras diferentes da DGS para o regresso às aulas em relação ao exigido noutras situações. Louvo esta atitude deste sindicato, mas não sei se foi por acaso, não acreditando em coincidências, surgiu na comunicação social uma análise da educação por parte da OCDE (https://www.comregras.com/professores-em-portugal-ganham-mais-40-do-que-a-media-dos-licenciados/), que volta a referir que os professores são dos licenciados mais bem pagos, assumindo uma série de pressupostos na progressão na carreira muito longe da realidade. Este tema já é velho e foi oportunamente contestado, também é recorrente o aparecimento deste tipo de notícias quando paira no horizonte uma contestação de professores.

Concluindo, nestes dias estivais continuam os professores a nadar em burocracia e assoberbados de reuniões e mesmo perante uma ameaça de greve de um sindicato pouco representativo, mas acutilante, voltam as velhas insinuações de que somos dos mais bem pagos entre os licenciados.

Setembro 02, 2020

Um começo de ano letivo pouco esclarecido.

vai-teaosprofessores

Neste arranque do ano letivo 2020/21 há muitas zonas cinzentas por falta de definição da tutela ou definição tardia: como lidar com o covid, o reforço de professores e a preparação para um possível regresso ao ensino à distância em melhores condições.

Quanto ao covid as incertezas são tantas que pela primeira vez houve uma conferência de imprensa de encarregados de educação, um sindicato e uma representação de diretores a alertar o ministério para o que falta fazer para criar confiança. A Fenprof que já foi acusada de alarmista apresentou um discurso duro. A primeira questão é se vai haver medição da temperatura à entrada porque só saiu legislação para o privado, a segunda é se vai haver rastreios preventivos e em que circunstâncias e como ligar com a eclosão de casos, como vai funcionar a educação física e o desporto escolar (saíram ontem as orientações, já com este texto escrito). Tudo isto porque os critérios exigidos para outros setores são transformados num se possível, sem desdobramento de turmas e reforço de professores proporcional. Até o PR Marcelo já veio pedir, esta semana, maior clarificação das condições de funcionamento das escolas.

Quanto aos professores, o que se vai passar com os de risco, ficam na escola, em casa em teletrabalho ou têm de meter atestado, sofrendo cortes salariais. Só esta questão pode desorganizar as escolas com o corpo docente mais envelhecido e destruir todo o trabalho de planeamento já feito. Falar de reforço de professores em 2500 poderá ser um malabarismo, porque se espera que 1500 vão para a reforma (dados do Arlindo), pelo que só poderá haver um reforço de 1000, que deverá dar 1 por escola com boa vontade. Este reforço só será efetivo se os professores reformados forem substituídos, como nada ficou claro estamos perante mais uma zona cinzenta por falta de clareza. É nestas ambiguidades que se joga para mostrar serviço. Não quero deixar de assinalar que a colocação de professores a meio de agosto foi uma atitude positiva e veio provar a sua exequibilidade, como vinha sendo reivindicado.

Por fim, referir o plano digital para as escolas, que deixou de estar em primeiro plano, mas que pode tornar-se relevante se houver necessidade de um ensino à distância. Os problemas detetados foram dois, a falta de acesso por parte de algumas famílias, que o plano de digital para as escolas pode ajudar a resolver, mas de que de concreto nada se sabe e a necessidade de resolver os problemas relacionados com o direito à imagem, para que os alunos tenham a sua imagem disponível durante as aulas, nomeadamente prevenindo que não estejam a ter aulas em cafés e a mostrar a aula a não estudantes, ou a responder à chamada e abandonar a sessão síncrona, o que pode tornar o ensino à distância numa palhaçada.

Concluindo, a duas semanas da abertura do ano letivo há muitas zonas cinzentas que o podem comprometer, o que mostra falta de planeamento desta equipa na educação.

Julho 15, 2020

Os percursos diretos: uma nova pressão sobre os professores.

vai-teaosprofessores

Percursos diretos realizam-se quando um aluno faz o número de anos de um ciclo sem repetir qualquer ano. Ainda recentemente numa inspeção tive conhecimento de que os inspetores se centraram muito mais neste indicador, do que nos resultados dos exames e nas diferenças entre notas dos exames e a classificação interna. Logo este indicador tende a tornar-se central para muitas direções.

Mas, este novo indicador é mais uma fonte de pressão sobre os professores e conselhos de turma, quer nos percursos de prosseguimento de estudos, quer nos percursos mais profissionalizantes.

Nos cursos de prosseguimentos de estudo evita-se reprovar alunos, deixando para os exames a resolução de algumas situações, optando-se por votar notas. Nos cursos profissionais tem-se vindo a ser menos exigente nas Provas de Aptidão Pedagógicas (PAP), que é um trabalho final de curso. Verifico aqui um aumento do facilitismo, porque as PAP deveriam ser um processo acompanhado pelo professor, mas há cada vez mais alunos a apresentarem somente o produto final sem qualquer controlo anterior pelo professor, o que dá origem a fenómenos de copy e paste, e depois, mesmo que o aluno não tenha capacidade de explicar o que escreveu, tem a nota mínima para ter o percurso direto e a escola ficar bem na fotografia.

Nas inscrições para exames os períodos de inscrição são flexíveis (!), aparecendo em cima da hora novas inscrições, com os professores a fazerem as matrizes e as provas à pressa. Estes exames tendem a ser cada vez mais um trabalho, (de copy e paste?) que os alunos têm de defender perante um júri, quando os colegas fizeram testes ou trabalhos acompanhados pelos professores. Os alunos têm cada vez mais a expetativa de que se não fizerem um módulo no período de aulas, o farão por exame, sem grande esforço. A pressão dos percursos diretos está a abrir caminho a facilitismo nos exames de recuperação de módulos.

Concluindo, os percursos diretos, uma nova forma de acompanhar o desempenho das escolas, sendo uma alternativa aos rankings baseados em notas dos exames, é mais um fator que tem vindo a alterar o rigor que era apanágio do ensino público. Agora há menos controlo sobre o processo de construção das PAP, abrindo-se as portas à fraude, os exames de recuperação de módulos passam a ser facilitados e com grau de dificuldade menor que na avaliação durante o período de lecionação, criando-se a expetativa de que se um aluno não conseguir durante as aulas fazer um módulo deixa para exame que é mais fácil. Nos cursos de prosseguimento de estudos a lógica dos percursos diretos também aumentou as notas votadas.

Cada vez que se cria um instrumento para avaliar as escolas os atores subvertem-no e usam-no a seu favor, pouco preocupados se há incentivo ao facilitismo desde que fiquem bem na fotografia.

Julho 08, 2020

Desnorte no ME e desaparecimento dos sindicatos.

vai-teaosprofessores

Neste final de ano letivo assistimos a um desnorte no ME substanciado nos seguintes fatores:

  1. As normas da DGS não se aplicam nas salas de aula, os alunos podem ficar a um metro no próximo ano letivo – comentário: a educação é um mundo diferente com interpretação livre das regras. Passa-se o sinal que os jovens são especiais e depois admiramo-nos das suas concentrações e festas;
  2. As matrículas foram uma tremenda confusão, mostrando o não investimento na digitalização – comentário: o ensino à distância só foi possível com os meios privados dos professores, ao arrepio das normas sobre o teletrabalho, como nos lembra o Luís Braga;
  3. O desnorte com os manuais, com esperança que o grupo parlamentar do PS resolvesse o assunto, criou problemas às escolas para a devolução dos mesmos – comentário: não há antecipação de problemas;

Em simultâneo com o desnorte do ME temos os sindicatos anestesiados sem capacidade de aparecerem e muito menos de mobilização, mesmo os que foram nos últimos tempos uma pedrada no charco, como o STOP. Ainda estamos na ressaca da derrota da recuperação do tempo de serviço dos professores!

Salva-se neste contexto a proposta de requerimento do Luís Braga, em https://www.comregras.com/requerimento-para-o-cumprimento-da-lei-do-teletrabalho-e-o-pagamento-das-despesas-inerentes/.  Esta iniciativa vem mostrar que se os sindicatos quiserem fazer uma intervenção em defesa dos professores há várias iniciativas possíveis e matérias abundantes, se não o fazem é por falta de vontade política.

Concluindo, o ME está desnorteado e os sindicatos ausentes, deixando os professores à sua sorte.

Julho 01, 2020

Ainda sobre os rankings.

vai-teaosprofessores

Saíram no fim de semana passado os rankings das escolas referentes ao ano de 2018/19. E sobre eles concluo o seguinte:

* As escolas privadas lideram;

* As escolas privadas recebem maioritariamente os alunos com capital cultural, o que não acontece nas escolas públicas, que recebem todos os alunos, apesar de algumas também terem estratégias para selecionar alunos, principalmente nas grandes cidades. Contudo, não há divulgação dos dados sociológicos das famílias, instrumento decisivo para se compreender qual o capital cultural das famílias dos alunos e seu impacto nas classificações;

* As escolas privadas também têm discrepâncias entre as notas internas e os exames, como acontece nas escolas públicas e esta discrepância traduz o peso de outros critérios na avaliação, incluindo estratégias para amortecer os resultados menos bons nos exames;

*Um ranking mais recente que mede a evolução do aluno, realçando os alunos com percursos diretos, isto é, alunos sem retenções, vem destacar o esforço das escolas na melhoria do ensino / aprendizagem, na medida em que mede o acompanhamento dos alunos pela escola ao longo de um ciclo. Este parâmetro traduz um apoio individualizado extra para alguns casos e a evolução dos alunos face aos resultados no ciclo anterior e verifica se o aluno manteve, progrediu ou regrediu. A canalização de recursos humanos para atividades de apoio educativas eficazes é aqui medida e neste ranking contatamos que há escolas do interior a obter bons resultados e escolas que melhoraram o seu ranking da ordem dos 400 para os 170. Contudo, este ranking continua a não ser valorizado pelos órgãos de comunicação social.

O blog Dear Lindo tem uma evolução das médias das diversas disciplinas em exames, em Evolução das médias dos exames nacionais (2008 / 2019), publicada no dia 27 de junho, https://youtu.be/Cv4RRCwO00k, que deveria preocupar mais os senhores jornalistas, com grandes oscilações de médias em algumas disciplinas. O que explica estas grandes oscilações? Sabemos que em educação há muitas variáveis a considerar, os alunos, os professores, as famílias, a organização educativa e a política educativa. Esta oscilação, na minha opinião, parece ter a ver com o modo como são feitos os exames, ou seja, com a conceção dos exames, que traduzem mais as opções do IAVE e da política educativa, do que as outras variáveis.

Concluindo, não sou contra qualquer indicador estatístico, mas todos eles devem ser contextualizados e a análise dos rankings em particular, porque são a ponta do iceberg no que diz respeito à reprodução social e pouco nos diz do esforço feito na escola no âmbito do ensino / aprendizagem. Este último já tem dados estatísticos, os percursos diretos, que continuam a ser pouco divulgados na opinião pública. Por fim, na minha opinião a forma como se elaboram os exames tem impacto nos resultados, como a grande oscilação de médias nos exames por disciplina parece-nos indicar.

Junho 17, 2020

Um problema no E&D: o direito à imagem.

vai-teaosprofessores

Nas sessões síncronas uma maioria bastante significativa dos meus alunos não têm disponibilizado a sua imagem com base no direito à sua imagem. O professor tem à sua frente um ecrã com mosaicos escuros. Esta situação tem de ser resolvida para se poder utilizar o ensino à distância, pois como as coisas estão não sabemos se os alunos estão presentes nas aulas à distância. Para contornar este problema comecei por solicitar a sua participação com voz, o que só resultava marginalmente, depois em vez de fazer a chamada no início, comecei a fazê-la no meio ou mais perto do términos da sessão. Mas tudo isto é contornar o problema principal que a seguir se explana.

Os alunos têm de frequentar a escola obrigatoriamente até aos 18 anos, no ensino presencial há a recolha de faltas e também o controlo da postura do aluno na sala de aula. Não se percebe porque não haja também um controlo visual do aluno durante o E&D. Portanto, o normal seria o aluno disponibilizar a sua imagem e estar apresentável para participar na mesma, tal como se viesse para a escola, pois a aula à distância substitui a aula presencial, estão porque permitimos que o aluno ainda esteja na cama, como alguns me confessaram, para não mostrarem a imagem? Além de que não sabemos se o aluno está a prestar atenção ou se está ao telemóvel. Assim, para o ensino à distância continuar e eu espero que seja somente como supletivo do ensino presencial, tem que se legislar para que o aluno que esteja presente nas aulas síncronas, mostre a sua imagem e tenha postura adequada. Entre o direito à imagem e a obrigatoriedade de frequentar a escola, mesmo no E&D, com controlo dos alunos pelo professor, acho que deve prevalecer a segunda, já que a educação é um bem coletivo e o direito à imagem é individual.

Claro que este não é o único inconveniente do E&D, mas os outros, como a interação professor/aluno limitada, a discriminação dos alunos que não têm acesso à tecnologia, o que limita a escola pública como elevador social, já foram abundantemente referidos, tornam o E&D um remendo em alturas de crise. Deixo em aberto que possa suplementar o ensino presencial, mas o aluno deve ter deveres, como o de mostrar a sua imagem e apresentar durante a aula uma postura adequada, tal como tem deveres no ensino presencial. Além disso, tenho conhecimento de tentativas de boicote das aulas síncronas, como alunos que acedem mais cedo ao «classroom» para controlarem a sessão e tirarem o som ao professor, ou mesmo situações de indisciplina que levaram à exclusão de alunos destas sessões, pelo que é fundamental o professor ter controlo das aulas.

Concluindo, o E&D pode ser uma forma de complementar o ensino presencial, mas o direito à imagem não pode servir de pretexto para o aluno não ser controlado pelo professor, em termos de presença e postura durante as aulas, senão as aulas à distância deixam de ter dignidade.

Junho 03, 2020

A questão da inflação das classificações internas.

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A «inflação de notas» é um tema agora na ordem do dia, porque o ministério ameaçou a classe docente com ações da inspeção se houvesse subida das notas anormais (?), agora que os exames só contam para o acesso ao superior. Depois surgiram notícias que estavam em vias de se concluir inquéritos sobre o mesmo assunto que vinham de anos anteriores. Tudo isto tentando pressionar os professores. Por fim, os inspetores reagiram à ameaça do ministério alertando para a dificuldade de provar estas situações.

Em primeiro lugar, quero lembrar que a orientação do ministério, acompanhadas por muitos diretores, é não haver reprovações. Para que isto aconteça haverá subida de notas para se atingir os níveis de passagem de ano. Portanto, uma orientação que leve à subida de notas não é inflacionar notas, é governar, ou seja, depende de quem o sugere, se for por iniciativa dos professores é inflacionar notas, se for por orientação ministerial ou do/a diretor/a já não é inflacionar notas.

Outra situação que levou à subida de notas (não inflação!) foram as medidas universais, que permitem aos alunos recuperarem ou evitarem classificações negativas, por exemplo promover exercícios mais fáceis para os alunos com dificuldades de aprendizagens e permitir testes de recuperação parciais de grupos negativos nos testes. Mais uma vez estamos perante orientações de política educativa pelo que não há inflação de notas! Mas atenção, a orientação ministerial é só ao nível da passagem / retenção do aluno.

Depois, temos um outro nível, o do acesso ao ensino superior, onde falar de inflação de notas é também falar de colégios privados que para manter uma clientela têm notas de classificação interna elevadas para compensar eventuais azares nos exames, nomeadamente as notas têm uma amplitude somente entre 17 e 19 ou a existência de um número anormal de 18s, 19s e 20s. Nestes casos o ministério atuou em algumas situações, logo ao nível de acesso ao superior o ministério já considera a subida de classificações dos alunos um problema.

No ensino público a minha experiência também permitiu constatar que quando os professores têm filhos no secundário, mesmo não dando aulas às turmas dos seus filhos – o que é ilegal -, tornam-se mais sensíveis nas classificações atribuídas de forma a acautelar um eventual azar nos exames. Depois os professores que não tiveram esta sensibilidade, ao se aperceberem desta situação, acabam por alinhar neste clima, para não prejudicar os seus alunos. Portanto, o clima tende a ser subir as classificações internas.

Concluindo, temos assistido nos últimos anos a uma tendência de subida das classificações internas, umas vezes por influência direta das orientações ministeriais, outras por interesses dos privados em satisfazer as suas clientelas, outras por maior sensibilidade dos professores à situação que os filhos vivem, o que acabou por ir provocando subida das classificações internas. Claro que neste clima há exageros como pautas só com classificações elevadas. Há, portanto, motivos para a inspeção intervir em certos casos, mas nada justifica a ameaça feita pelo ministro, pois todos têm contribuído para a situação. O que tem de fazer é agir nos casos que o justifiquem, hoje é fácil, com o recurso à informática, tratar dados e obter a informação das situações mais aberrantes.

Maio 20, 2020

A maior contradição desta equipa na educação.

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A maior contradição desta equipa educativa é sem dúvida a publicação do perfil do aluno e a manutenção dos exames nacionais. O perfil do aluno traça uma série de competências que o aluno no final do secundário pode alcançar de acordo com o seu perfil, algumas delas não são compatíveis com exames nacionais normalizados para todos os alunos.

Quando o perfil do aluno foi publicado pensei que uma nova era se abria para o ensino não superior que se iria emancipar do ensino superior, nomeadamente aparecendo com metas próprias autonomizadas, que estavam no perfil do aluno. Mas rapidamente constatamos que os exames eram para manter, continuando o ensino secundário a ser muleta do ensino superior e desempenhando a tarefa de selecionar os alunos para as universidades. Portanto, o perfil do aluno não passou de uma quimera.

Com a pandemia e com a implementação do ensino à distância julguei ver mais uma oportunidade de os exames perderem o peso que têm no ensino secundário, em que nas disciplinas com exame final se orienta muito o ensino para a realização do mesmo, o mesmo é dizer que a filosofia consentânea com o perfil do aluno fica desvalorizada a favor de uma prova final. Apesar de nos tentarem fazer acreditar que este regresso às aulas tem outros objetivos, como ensaiar o funcionamento das escolas para setembro, a verdade é que na prática pretende-se preparar os alunos para os exames finais. Uma escola decidiu mesmo que numa das aulas presenciais se resolveriam exames de anos anteriores.

Não se compreende, pois, o charme do ministro da educação que se tem desdobrado em entrevistas, por ter sido um herói que promoveu o regresso à «normalidade» de aulas presenciais, quando não lutou para proteger alunos, professores e funcionários com testes – veja o caso de Vila Real com um infetado numa escola, em testes promovidos pela autarquia ou o que se passou em França, com escolas com regresso às aulas e casos de covid. Não se compreende que pareça orgulhoso de promover o regresso à escola para que os exames se realizem, quando promoveu uma reforma educativa com o perfil do aluno que agora deixa cair.

Com tanta contradição só resta à equipa o estilo impositivo e paternalista «das orientações para o ensino à distância» mimetizando os manuais disto e daquilo para totós. Os professores continuam a ser «totós» para o ministério da educação que precisam de orientações ao estilo taylorista de tratar os trabalhadores como seres não pensantes.

Concluindo, o ministério da educação continua a não proteger os seus tutelados, claro que o risco zero não existe, mas é possível minimizar riscos, e continua a navegar no meio de propostas contraditórias, perfil do aluno versus exames, ao sabor das conveniências políticas, não numa lógica coerente mas de se manter no poder.

Maio 13, 2020

O Ministério da educação já desconfinou e normalizou.

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Antes do Covid vimos como o ministério tratou os professores: não contabilizou todo o tempo de serviço, procurava desvalorizar os professores como seres pensantes limitando-se a serem (na sua visão) meras correias de transmissão do pensamento dos governantes.

Depois veio a pandemia e os professores mostraram um profissionalismo que permitiu implementar alterações radicais no funcionamento das escolas para responder à pandemia. O ensino à distância funcionou e mostrou publicamente os problemas que se têm na sala de aula quando há (alguns) alunos com atitudes que dificultam o funcionamento das aulas e criam indisciplina. Houve empatia pelo papel dos professores e o ministério da educação passou a elogiar os professores, quando antes os combateu, usando argumentos demagógicos, como ignorar / desvalorizar a parte dos aumentos salariais que aumentam os impostos.

Mas agora esta fase foi ultrapassada com o desconfinamento, voltou-se à normalidade de os tratar como trabalhadores diferentes – no sentido de terem menos direitos -, quando se volta às escolas e não há testes ao covid, como acontece com outros setores e foi imposto às creches. Não estou a dizer que não queremos correr riscos, estou a dizer que não está a haver a mesma precaução que houve para outros profissionais, como os trabalhadores dos lares e creches. A política de «testar, testar» não se aplica à educação! Também é significativo que se volta a reunir com quem não discorda das suas opções, ou seja, não tem ouvido os sindicatos, mas recebeu a pró-ordem (quando a nível político, e bem, o governo tem ouvido os partidos, os parceiros sociais e até presidentes de bancos e de clubes de futebol). Este contraste com o facto dos professores e seus representantes serem ignorados, sendo a normalidade pré-covid, não deixa de refletir uma opção clara do governo.

Claro que os professores não se deixam limitar e logo surgem reações como a petição na Assembleia da República em que se mostra que o regresso às aulas no secundário e os exames não cumprem «o direito dos alunos portugueses ao ensino com garantia de igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar». Ou seja, mostra-se uma alternativa e capacidade de reflexão.

Concluindo, o desconfinamento é também o regresso ao antes do covid, com um governo pouco dialogante com os professores e seus representantes e a aplicar critérios menos exigentes do que foi aplicado noutros setores na salvaguarda da saúde da comunidade escolar ao não realizar testes ao covid, ou seja, voltou o desprezo pelos docentes.