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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Maio 21, 2019

Ser professor em Portugal: estudo de casos

vai-teaosprofessores

Face ao ataque despudorado do governo contra os professores decidi contrabalançar o que foi passado para a opinião pública com situações reais.

Hoje em dia a maior parte dos professores sai com a profissionalização feita, em geral como contratados, muitas vezes com horário incompleto e outras vezes concorrendo para longe de casa.

As situações são diferentes nos diversos grupos de recrutamento, isto é inglês, economia, matemática, físico-química, em função das vagas. Vou trazer exemplos do meu grupo, economia, onde tenho duas colegas contratadas com horário completo, uma vivendo a 100 Km e outra a 50 Km, e dois colegas com horários incompletos de 14 horas, um apanhou um horário residual e outro substitui uma colega em situação de doença. Estes últimos têm a residência a cerca de 20 Km. Logo neste caso, verifica-se que há quem concorra a horários completos longe de casa para ingressar nos quadros e quem opte por concorrer para mais perto sacrificando uma parte do rendimento e da reforma. Estes quatro colegas andam na faixa etária dos 40 anos com filhos. Portanto, na faixa dos 40 anos há professores sem emprego fixo impondo de uma maneira ou de outra sacrifícios às suas famílias. Também tenho uma familiar de físico-química com cerca de 40 anos e horário incompleto. De seguida apresento a tabela de vencimentos dos professores, para perceberem quanto ganham estes colegas. Como não estão na carreira ganham pelo índice 151, ou seja, 1373,13€, o que líquido dá 1127,97€ se forem casados só um titular. Concluindo, até entrarem para os quadros os professores, ganham cerca de 1100€ líquidos e podem passar vários anos nesta situação. Os colegas com horário incompleto recebem em proporção das horas de trabalho.

 

 

Escalão

Índice

Vencimento base

ordenado líquido

 

151

1 373,13 €

1 127,97 €

167

1 518,63 €

1 221,37 €

188

1 709,60 €

1 336,64 €

205

1 864,19 €

1 411,82 €

218

1 982,40 €

1 494,90 €

235

2 137,00 €

1 582,07 €

245

2 227,93 €

1 622,82 €

272

2 473,46 €

1 767,75 €

299

2 718,99 €

1 902,68 €

340

3 091,82 €

2 068,45 €

10º

370

3 364,63 €

2 208,70 €

 

Entrando na carreira, até ao quarto escalão precisam de 16 anos para progredirem – antes o tempo de serviço como contratados contava para a progressão, mas agora não conta -, além de aulas assistidas em 2 momentos e formação de cerca de 25 horas por ano, ou seja mais 3 dias de trabalho anuais não contabilizado no horário. Quem tiver conseguido entrar para os quadros estará na casa dos 50 e poucos anos e atingirá um vencimento bruto de cerca de 2000 €, levando para casa 1500€. No final do quarto escalão têm outro obstáculo na carreira, a progressão para o 5 º escalão está sujeito a vagas a nível nacional, podendo ficar retido anos, por efeito de este mecanismo.

Um mecanismo idêntico acontecerá na passagem do 6º para o 7º. Portanto nos casos que temos acompanhado, quando estes professores atingirem os sessenta anos, se tudo lhes correr bem, terão atingido o 7º escalão com cerca de 2500€ brutos e cerca de 1750€ líquidos. Reformando-se aos 66 estarão no 8º escalão com 2719€ brutos e levando para casa cerca de 1900€.

Concluindo, ser hoje professor em Portugal exige uma vida de muito sacrifício, como andar com a casa às costas e estar longe da família até se atingir um lugar no quadro numa primeira fase. O tempo desta fase é variável, mas a partir de casos verifiquei que há professores que aos 40 anos andam com a casa às costas ou a fazer viagens desgastantes. Depois de mais cerca de 15 anos (sem contar com o congelamento) enfrentará um número clausus nacional para progredir ao 5º escalão segundo obstáculo não dependente do professor. O mesmo acontecerá no 7º escalão. Assim, se tudo lhe correr bem reformar-se-á no 8º escalão, descontando os seis anos e meio de congelamento ficar-se-á pelo 7º escalão.

Com estas dificuldades começa a haver falta de professores porque esta carreira não é motivadora.

Maio 14, 2019

O estranho caso do ex-diretor da escola do Curral das Freiras: um exemplo contra a autonomia das escolas.

vai-teaosprofessores

 

Um docente construiu uma imagem pública como diretor da escola do Curral das Freiras, umas das zonas mais isoladas da Madeira. Em 2015, surpreendeu o país ao colocar a escola entre as melhores nos rankings, sendo apontada como exemplo de inclusão e aprendizagem. Será que este docente foi louvado ou condecorado?

Não, foi alvo de um processo disciplinar de que resultou uma pena de seis meses de suspensão. Em primeiro lugar foi afastado da direção da escola - antes do início deste ano letivo já tinha sido afastado da direção da “escola-modelo”.Depois da Secretaria Regional da Educação ter decido avançar com a fusão daquele estabelecimento do concelho de Câmara de Lobos com a EB 2,3 de Santo António, no Funchal, foi considerado culpado de 11 das 12 infrações que constavam do processo disciplinar.  

Em primeiro lugar temos aqui uma fusão de escolas em dois concelhos o que é de facto um atentado à gestão autónoma das escolas e até contra a lógica da municipalização em implementação. Portanto, nem autonomia pedagógica, nem autonomia administrativa e financeira ao nível municipal. Este despudor anti autonómico promovido por um governo regional com autonomia terá sido para facilitar a nomeação de instrutor do processo que garantisse uma condenação?

Em causa, no processo disciplinar, estão questões burocráticas relacionadas com o funcionamento da escola, como o controlo da assiduidade de professores (foram substituídas horas extraordinárias por descanso,que garantiam a existência de apoios pedagógicos), a abertura de uma sala de pré-escolar ou a promoção do abandono escolar (aceitou a anulação da matrícula de um aluno de 17 anos que se transferiu para um curso profissional antes de chegar o comprovativo).

Este processo disciplinar visava garantir a prevalência dos normativos sobre iniciativas criativas que asseguraram um maior sucesso escolar.Ou seja, garantir que o sistema de educação continua a ser centralizado e de acordo com os normativos. Quem tem de pensar a educação é o senhor secretário regional e não o senhor diretor (ou os professores nos seus órgãos próprios), mesmo que os resultados provem o acerto das decisões tomadas.

Concluindo, para quem se deixa iludir, o sistema de ensino em Portugal é fortemente centralizado (regionalmente ou no ME) e sem autonomia. Penso que este governos das esquerdas falhou na alteração deste estado de coisas, a pretensa autonomia municipalizada é antes de tudo uma desresponsabilização financeira do Estado central. Falhou também na alteração da gestão das escolas, também ela centralizada no diretor, criando-se órgãos coletivos de gestão e maior autonomia pedagógica (que este diretor tentou concretizar) colegial.

Fonte: https://www.publico.pt/2019/03/26/sociedade/noticia/director-escola-modelo-suspenso-durante-seis-meses-salario-1866782

Maio 07, 2019

A propósito do reforço da internet nas escola

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Hoje é notícia que o Ministério da Educção vai reforçar a internet nas escolas. Esta notícia é boa, pois permite o uso pedagógico de ferramentas, como o Kahoout, que possibilita fazer questões de aula e corrigi-las de forma simplificada. Refiro este programa a título exemplificativo, mas há mais.

É verdade que todos os alunos têm telemóveis e portanto com uma boa internet se pode fazer uso deles para fins pedagógicos. É um avanço, mas não chega, porque é necessário utilizar outras aplicações informáticas, como programas de contabilidade e de faturação, para só falar os necessários na minha área e previstos em programas de algumas disciplinas.

Ora a utilização de tais programas e acima de tudo ter a possibilidade de fazer uma avaliação diferente, com base em trabalhos, por exemplo, exige computadores. A minha escola tem 6 salas equipadas para 40 turmas, pelo que muitas vezes esta possibilidade de acesso a uma sala de informática para dar um módulo com avaliação por trabalho torna-se difícil ou mesmo impossível, porque as seis salas são prioritárias para os cursos de informática e os outros ficam com as sobras. Exemplificando um módulo da disciplina de economia refere-se ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que se pode dar explicando a construção do índice e como interpretá-lo, com avaliação por teste,  ou colocar os alunos a fazer um trabalho individual relativo a países diferentes sobre o IDH do país selecionado. Esta segunda opção exige sala com computadores.

Concluindo a escola portuguesa ainda está longe das condições facultadas pelos países mais desenvolvidos para a prática do ensino.

Olhando agora para os fatores realçados por Guinote no Educare que explicam a falácia da comparação com a Finlândia, temos de acrescentar este. Será que podemos comparar o ensino em Portugal, ainda com recursos informáticos limitados com países em que as salas de aulas já estão todas equipadas com material informático? Claro que não, este é mais um constrangimento do ensino em Portugal que condiciona um ensino com a tecnologia disponível no século XXI e motivadora para os alunos que já usam essa tecnologia no dia a dia.

Abril 29, 2019

Colaboração com o comregras

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Iniciei no passado dia 24/4/2019 uma colaboração com o comregras, pelo que semanalmente passo a ter um artigo de opinião nesse blog. No dia 24 foi publicado o post «a propósito da internet nas escolas».

A minha colaboração com o Alexandre Henriques será semanal, sendo publicado o meu artigo de opinião às quartas-feiras, ao fim do dia. 

Passados 15 dias republicarei neste blog os artigos enviados para o blog comregras.

Aceitei o convite do Alexandre porque já tinha necessidade de participar num blog que tivesse uma presença mais assídua junto dos internautas, o que parece verificar-se com o novo blog que tem vários colaboradores. Os meus artigos continuaram a centrarem-se numa visão micro da educação, não deixando, quando necessário, de fazer extrapolações para o nível macro.

Continuem a seguir-me. Obrigado

 

 

Abril 03, 2019

Pequenas frases irónicas.

vai-teaosprofessores

Não há dinheiro para computadores, para contagem do tempo integral, para assistentes operacionais mais vai haver bicicletas e capacetes nas escolas.

A escola do século XXI literal é uma sala sem wi-fi, sem computadores e sem projetores.

A sala de estudo (apoios educativos) onde os alunos pouco comparecem é uma das trincheiras na luta contra o insucesso escolar.

As trincheiras na luta contra o insucesso escolar deixaram de ser as salas de aula onde se devia ensinar e avaliar e passaram a ser as táticas para que os alunos passem.

A diferenciação pedagógica é o fato à medida que alguns não querem vestir porque não querem é ir à escola e cumprir regras.

Março 27, 2019

Os profissionais sem exames no acesso à universidade

vai-teaosprofessores

A contradição entre o perfil do aluno e a existência de exames começa a ser resolvida, ainda que sem coragem política de assumir o fim integral dos exames, ao ser dado um pequeno passo com o fim dos exames nos profissionais. Em época eleitoral não houve coragem para mais.

Mas este anúncio não deixa de ser um anúncio do fim dos exames possivelmente no início da próxima legislatura.

Para mim faz sentido ser o ensino superior a escolher os seus alunos. Contudo este modelo tem perigos. Um deles é o predomínio do sucesso escolar a qualquer custo, o que vai fazer baixar a exigência das escolas que sucumbirem a esta política. Com os novos decretos 54 e 55 já estamos neste caminho, com a obrigação de se baixar a exigência aplicando as chamadas medidas universais a todos os alunos com insucesso, o que significa na prática baixar o nível de exigência para os alunos com dificuldades. Assim, garantimos o sucesso. Mas há situações em que o aluno não quer esforçar-se e aqui o professor nada pode fazer, mesmo baixando o nível de exigência, nas provas de recuperação que tiver de fazer, pois sem qualquer estudo não há resultados.

Outro perigo é este tipo de medida ser um balão de oxigénio para o ensino privado que terá de preparar os alunos para as universidades com provas de acesso mais exigentes. Estamos indiretamente a desvalorizar o ensino público e a promover o ensino privado.

Com a diminuição de alunos resultado da situação demográfica há outros vencedores o ensino superior de segunda linha, porque passa a ter mais candidatos, ainda que pior preparados, mas talvez se inverta a diminuição do número de alunos em certos cursos do superior, principalmente nos politécnicos.

Concluindo, concordando que o ensino secundário deve ter uma lógica própria e o perfil do aluno abre caminho a diversas formações, não deixa de haver o perigo de haver o predomínio do sucesso a qualquer custo, transferindo a verificação da qualidade dos alunos para o superior, situando-se a luta da ascenção social ou manutenção do estatus social para as provas de acesso de certas universidades as de elite, dividindo-se o superior em duas categorias: as de elite e os outros.

Sengunda conclusão: a política de facilitismo é uma política de direita na medida em que dificulta a ascensão social ao exigir investimento em educação (explicações, ensino privado) para se aceder aos melhores cursos, uma vez que o trajeto normal pode não garantir esse acesso.

Março 20, 2019

Mais um exemplo de facilitismo: testes de consulta

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Faz sentido fazer testes com consulta nos profissionais? Faz se incluído num processo de ensino/aprendizagem em que os alunos criam um caderno pessoal e depois é permitido o uso desse caderno para consulta no teste. Faz sentido num mundo em que o problema não é ter informação mas saber usá-la.

Não faz sentido fazer um teste muito exigente do ponto de vista da ligação da matéria e saber aplicar a matéria a outros contextos, sem treinar os alunos para isso. Aqui o teste de consulta torna-se numa armadilha porque pede-se o que não se ensinou (verificável no caderno do aluno por si construído) permitindo o recurso à internet. Isto foi feito comigo ainda no tempo das enciclopédias, isto é, o nível de exigência não era compatível com o ensinado, mas o professor dava ares de modernidade e vanguardismo.

Mas uma fraude total é permitir o uso do telemóvel e o aluno comunicar o teste para fora da aula e alguém o resolver e enviar as respostas por SMS ou outra forma de comunicação. Assisti a uma situação destas,  intervi e comuniquei ao colega e depois os alunos ainda gozaram comigo e chamaram-me bufo, porque o colega ignorou a minha comunicação.

Março 13, 2019

A discrepância entre a nota interna e a nota de exame.

vai-teaosprofessores

Uma das consequências da pedagogia diferência é diminuir o grau de exigência ou arranjar formas de recuperação do aluno, como repetir numa questão de aula o grupo onde teve menor nota, substituindo a nova cotação obtida com a questão de aula pela anterior. Esta estratégia, tem vantagens obriga o aluno a estudar a parte mais fraca do teste, mas também permite subir as notas. Face a estas novas pedagogias, mais centradas no aluno como indivíduo as notas internas tendem a subir.

Já antes destes novos processos pedagógicos a nota interna tinha um bónus de 20% para os alunos bem comportados, em termos de assiduidade, comportamento e empenho. Desta maneira as notas internas já refletiam outros fatores além da avaliação sumativa (as notas dos testes) fazendo com que as notas subissem.

Nos ratings temos como consequência que estas inovações aumentam a discrepância entre a nota interna e a nota externa, descendo as escolas que aderiram a esta pedagogia incentivada pelo atual ME nos ratings.

O mesmo ME propos uma nova forma de avaliação das escolas baseada no percurso do aluno e neste novo raking estas escolas apresentam uma boa prestação, sendo premiadas com mais um horário que deve ser usado exclusivamente para coadjuvações e apoios.

O problema da coexistência destas duas formas de avaliar as escolas é que o sistema de acesso ao superior não foi alterado e pode acontecer que as escolas que apostam no segundo rating esteja a prejudicar o acesso dos seus alunos ao ensino superior.

Concluindo quem governa tem de ter coragem política para escolher um modelo ou outro, o modelo hibrído pode ser uma armadilha no acesso ao ensino superior.

Fevereiro 27, 2019

O que mudou e o que não mudou nestes 4 anos de governo na educação?

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O que não mudou foi o número de alunos por turma, continuo a ter turmas de 29/30 alunos. Não mudou o acesso às tecnologias da informação, continuamos com 5 salas com computadores para 50 turmas, uma para cada 10, logo dar aulas em condições do século XXI é só a pedido e sujeito a lista de espera. O ensino profissional continua a não ter condições para se lecionar em boas condições as disciplinas técnicas, pois continua a usar-se uma sala normal, quando se deveria usar pelo menos salas com computadores ou salas especializadas. 

O que mudou, foi a pedagogia diferenciada, isto é adaptar o ensino às caraterísticas / capacidades do aluno, generalizaram-se as aulas de coadjuvanção, mas estando estas a acontecer uma vez por semana, no melhor dos casos, ou uma vez de 15 em 15 dias, ou seja aulas coadjuvadas em 1/6 ou em 1/10 a 1/12 do total das aulas, portanto com um impacto pouco significativo. Temos agora uma nova área curricular de cidadania e desenvolvimento que é um remake da área escola e que permite tratar temas de interesse para a sociedade.

A pedagogia diferenciada é uma forma de combater o insucesso escolar, mas alterando o nível de exigência, ou melhor permitindo haver diversos níveis de exigência. Aqui surge a maior indefinição das alterações feitas: baixa-se o nível de exigência mas não se acaba com as avaliações externas no 9º ano e secundário, ou seja, se o que interessa é o perfil do aluno e seu progresso, porque não ter coragem de acabar com as avaliações externas e transferir o acesso ao superior para este, corolário lógico do perfil do aluno e da educação inclusiva e suas medidas universais?

Concluindo, as condições em que se leciona (alunos por turma e salas equipadas com TICs) não foram melhoradas porque isso exigia investimento. Procura-se dar uma educação integral via perfil do aluno, mas faltou a coragem de alterar a avaliação externa e o acesso ao superior que mede somente os conhecimentos escolares (cada vez menos importantes com o acesso rápido à informação)  e não as competências adquiridas, pelo que fica somente uma baixa do nível de exigência para alguns alunos via pedagogia diferenciada, com vista a melhorar os resultados.

Já à muito se conhece esta tática social que é desvalorizar os graus de ensino e transferir para o nível seguinte a exigência, daqui resultando uma desvalorização social dos níveis de ensino mais baixos que prejudicam a ascensão social, uma vez que aumenta os gastos com a educação das famílias (exigindo um esforço suplementar aos mais pobres), sem a correspondente recompensa social e correspondente melhoria social dos seus filhos.

Fevereiro 20, 2019

Ainda a propósito da greve dos enfermeiros

vai-teaosprofessores

O que se está a passar com a greve dos enfermeiros deve-nos preocupar a todos. Não li o parecer da PGR, mas o que salta à vista é que o direito à greve está a ser posto em causa, por um governo do PS, com apoio da esquerda, que se tem calado e tem tomado posições sectárias sobre algumas situações.

Veja-se, no caso dos professores, o desprezo dos sindicatos com a ILC, foi flagrante, estando estampado que ou são os sindicatos (Fenprof) a fazer ou outras iniciativas são divisionistas. Ora eu acho o contrário, foi a Fenprof que foi divisionista (estou à vontade sou sindicalizado no SPN) e tentou bloquear uma iniciativa dos cidadãos.

Depois com a greve de enfermeiros, quem não se lembra daquelas declarações de que fazer greve é perder o salário dos dias de greve, senão estaremos perante «greves burguesas», com a hipótese de haver interesses privados que a estejam a financiar, através do crowdingfund, cuja lei foi aprovada por todos os partidos há pouco mais de 2 anos - traduzi em linguagem própria a situação para tornar a minha ideia mais assertiva. Aqui o que se passa é tirar-se partido das novas tecnologias, o que pode enfraquecer o poder dos sindicatos instalados e colocar o poder perante novos desafios, que respondem limitando o direito à greve? Estamos perante uma velha questão: há os que se adaptam aos novos tempos e os que ficam cristalizados, correndo o risco de serem ultrapassados. Mas nada disto justifica que se tente limitar o direito à greve quando esta tem forte impacto.

Outra questão é a defesa do serviço nacional de saúde. Mas esta defesa pouco tem a ver com greves, tem a ver com o facto de Portugal já ter 40% da saúde entregue a privados, contra 15% na Europa; tem a ver com políticas de promoção dos privados à custa do SNS; tem a ver com a intenção deliberada de enfraquecer certos serviços públicos para promover o recurso aos privados; tem a ver com o subaproveitamento da capacidade instalada para favorecer privados.

 Concluindo, estamos perante um ataque ao direito à greve, em que por taticismo embarca alguma esquerda, receosa de perder poder (o governo a desejada maioria absoluta, a outra esquerda a hegemonia sindical), e devemos evitar introduzir a questão da defesa do SNS neste contexto, pois o seu ataque é quotidiano e leva décadas e a questão da greve só serve para desviar as atenções deste ataque. Parece-me correta a nova lei de bases da saúde que vai abrir caminho para que alguns recursos financeiros regressem ao SNS e deixem de ser para promover os privados. É por aqui que passa a defesa do SNS, aplicar nele a maioria dos recursos financeiros.