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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Do confinar aos desconfinar: uma questão de fiducia.

vai-teaosprofessores, 03.03.21

O fecho das escolas foi uma luta tremenda dos professores e de elementos da sociedade civil para contrariar a visão obstinada do governo que o fecho das escolas ia acentuar a desigualdade entre alunos, pelo que não foi equacionada com seriedade, pelo lado do factor pandemia. Assistimos ao aumento de casos na sociedade e nas escolas, ao tratamento diferenciado dos contactos dos casos positivos (umas vezes ia toda a turma, outras vezes só os colegas que circundavam, outras ainda ninguém), o que provocou insegurança para todos os que estavam na escola e cereja em cima do bolo, a uma política de esconder o número de casos. Esta visão do governo «otimista» (ou negligente) não aconteceu só na educação, mas também no Natal, na elaboração de planos de contingência em que não foram acautelados  cenários mais pessimistas. Mas na educação a esta visão otimista juntou-se a vontade de ter as escolas abertas a qualquer preço, pelo que os planos de contingências não previram a aquisição de meios de trabalho (computadores e net) a tempo e horas e nem sequer houve preocupação em fornecer as condições de teletrabalho aos professores. Se há ensino à distância é com os equipamentos dos professores, pelo que estes já pagam um imposto escondido, através do aumento da despesa (equipamentos extra, reforço da internet, acréscimo nas despesas de luz), portanto não são os professores que são os ‘aristocratas’ do teletrabalho, nem os beneficiados pela crise (telecomunicações, indústria dos computadores, etc).

Agora a escola está outra vez na berlinda, por pretenderem ser a primeira a desconfinar, provavelmente até aos 12 anos, isto é, até ao 2º ciclo. Não me oponho, mas com testes antes da reabertura, a todos, repetidos com regularidade, com uma política de transparência de casos positivos covid em ambiente escolar e protocolo de quem faz quarentena igual para todas as situações, escolares ou societais. Os professores não se importam de dar aos alunos as condições ideais, que passam pelo ensino presencial, mas querem sentir-se seguros, não a 100% que é impossível, mas dentro de medidas razoáveis e que já foram anunciadas, como o testar cada vez mais e ser transparente na divulgação dos casos e  quarentenas necessárias. A vacinação também seria importante, mas com a escassez de vacinas, aceito esperar pela minha vez - havendo vacinas disponíveis acho que devia haver uma prioridade intermédia para as escolas. Contudo, tenhamos consciência que a abertura das escolas dá um sinal à sociedade de melhoria substancial das condições pandémicas (Guinote à SIC), criando condições subjetivas para comportamentos que ignoram a situação pandémica.

A grande questão que se levanta é saber se podemos confiar (fiducia - confiança) num governo e num ministro da educação que tem falhado sistematicamente aos professores?  

Manual de como lidar com a contestação.

vai-teaosprofessores, 24.02.21

Quando o poder ou seus boys está perante críticas ou propostas de alteração do «status quo» de que não gosta, em alguns blogs sobre educação, usa formas de contra informação para as rebater, como comentários anónimos, tipo “não percebes nada disto”, como forma de desvalorizar a opinião formulada pelo respetivo autor. Contudo, este tipo de comentários evitam um debate frontal e aberto, ficando-se pela crítica sem justificação. Sempre que comento a ADD, particularmente chamando a atenção para a circunstância de não haver colaboradores da direção sem muito bons ou excelentes, lá aparece este tipo de comentário.

Outra forma de responder aos blogs é sob a forma das chamadas «araras», comentários que dão razão ao autor, mas que desvalorizam a ideia ou crítica, por ser inoportuna, tipo não fazer sentido durante a pandemia haver questionamentos, quaisquer que sejam, no sentido de em tempo de crise é preciso cerrar fileiras e apoiar o governo. O problema desta forma de desvalorizar a opinião é que no limite criticar o governo e seus boys é sempre inoportuno! Que saiba o estado de emergência não limita os direitos de opinar e mesmo sindicais. Constato também que a pandemia não suspendeu as transferências de milhões para o Novo Banco …

Por fim temos uma última reação do poder, a de ignorar ou fugir às questões, como está a acontecer com os equipamentos para os professores, em que vemos sistematicamente a questão a não ser respondida pelos governantes. Esta tática é usada quando se sabe que se está a contornar a lei, neste caso do teletrabalho e a obrigação da entidade empregadora fornecer os instrumentos de trabalho.

Outra forma de lidar com a contestação, esta mais despudorada, apareceu com a petição da redução de alunos por turma, em que o representante dos pais, na audição, esteve contra, ignorando todas as evidências científicas, a aplicação com resultados em determinados países, tornando claro que foi uma atitude de subserviência política, mesmo contra os interesses dos representados.

Concluindo, ou dizendo que uma certa opinião demonstra ignorância, sem a contestar nos seus fundamentos, ou aceitando o argumento mas preferindo esperar por melhores dias, ou seja adiando o debate, ou ignorando o assunto porque se sabe que não se cumpre regulamentos, ou mesmo indo contra os interesses representados, são as formas habituais do poder e seus boys de responder à contestação.

ACORDAI!

vai-teaosprofessores, 17.02.21

Os professores têm muitos motivos para se revoltarem com este ministério da educação, que leva seis anos, mas que não consegue resolver problemas na educação. Uns motivos serão mais graves do que outros, mas o que une os professores são motivos que interfiram com a remuneração dos professores ou que interfiram com a sua despesa para trabalharem.

Assim, não me espanta que na cabeça da mobilização dos professores esteja a carreira e os estrangulamentos no 4º e 6º escalões. Consigo compreender que a petição em curso esteja a ser um sucesso e em muito poucos dias, pois, interfere com a remuneração futura dos professores e com a atual ADD estamos a criar injustiças, porque o sistema de avaliação prevalecente é político e não meritocrático. Político, porque se escolhe em função de um modelo político de afinidades e não da capacidade comprovada de saber dar aulas, como, até agora, nenhum professor ligado à direção da minha escola não deixou de ter um Muito Bom ou Excelente - reflexo de um modelo de gestão com o poder concentrado no diretor que protege os seus colaboradores -, depois os bons pedagogos são muitas vezes preteridos para se contornar as quotas. A própria ADD cria um simulacro de avaliação das aulas, pois o número reduzido de aulas avaliadas permite que haja uma adaptação de quem está a ser avaliado ao momento. Com a recuperação parcial do tempo de serviço congelado muitos professores têm sido avaliados e sentido na pele estas injustiças daí que a petição esteja a ser um sucesso.

Depois, surgiu um outro movimento o do apagão do ensino à distância por 15 minutos e em crescendo semanal com mais períodos de apagão. Aqui estamos perante um aumento da despesa com o teletrabalho e uso de equipamentos pessoais, quando a lei prevê a cedência de equipamentos pelos empregadores e o ressarcir de despesas adicionais de eletricidade. Mais uma vez a classe docente fica à margem da lei, que não se lhes aplica.

Há ainda outros fatores que podem a provocar descontentamento aos professores, também fomos a exceção à regra no combate à pandemia, não cumprindo a distância de segurança nas salas de aula. Outros há, mais estruturais, como a necessidade de um modelo de gestão mais democrático e com mais equilíbrio de poderes, a desvalorização da profissão que está a provocar falta de profissionais e alunos sem aulas , a revisão dos horários a concurso para terem um mínimo de horas, a vinculação, para só falar dos mais importantes.

Concluindo, começam a aparecer movimentações reivindicativas na classe docente, apesar das araras continuarem a ouvir-se - com o argumento de que agora não é o momento -, mas a maioria da classe começou a sentir na pele as discriminações e incongruências do poder excessivo dos diretores, de um modelo ADD absurdo e político, da ausência do ministro, etc. Por fim, tenhamos presentes o caso inglês, em que sindicatos e diretores, falam da necessidade se rever o acordo coletivo de trabalho se houver prolongamento do horário ou menos férias de verão - diretores do lado dos professores e não a meio da ponte...

Balanço dos primeiros dias de E&D II.

vai-teaosprofessores, 10.02.21

Nos primeiros dias do ensino à distância, de emergência, o meu rácio de alunos sem ligação às aulas é de 2 em 22, um ainda sem explicação conhecida, outro por avaria do equipamento, a que não tem direito pela escola, por não ter escalão. Este rácio melhorou em relação a março/abril de 2020, mas continuamos a ter desigualdades. As melhorias resultaram de alunos terem recebido os portáteis do ministério. Também constatei que o recurso aos telemóveis é bastante menor.

Também melhorou a postura dos alunos, que agora têm a câmara ligada e apresentam-se vestidos. Aos pais que defendem que os alunos podem ir de pijama quero dizer que estão a retirar a dignidade à escola, pois que eu saiba um código de apresentação tem a ver com a dignidade do acontecimento e ir à escola, pela sua importância para a vida do seu educando e pela necessidade de socialização, mostrando ao jovem que certos eventos exigem um código de apresentação.

Do lado dos professores, eu não dou mais de 20 minutos de apresentação de matéria para alunos do 12º, apostando na leitura de um texto pelos alunos e resposta a questões com ele relacionado, aqui com a duração máxima de 30 minutos, pois a capacidade de concentração não é a mesma que numa sala de aula. A internet falhou-me uma vez. As respostas às questões semanais contam para avaliação e são enviadas por fotografia de manuscritos, como forma de assegurar que não há «copy e paste». Também espreitei para as aulas da minha filha e constatei que um colega utilizou os 40 minutos para expor matéria, o que me parece contraproducente neste ensino de emergência. Já a professora de matemática apostou na resolução de exercícios, durante as sessões síncronas. Na aula de coadjuvação a matemática as duas professoras trabalharam com alunos diferentes, não me tendo apercebido do critério para a divisão de alunos, que não foi dividir os alunos em duas metades.

Do exposto, concluiu que este novo ensino de emergência tem por um lado melhorias resultantes dos equipamentos que chegaram às escolas, mas ainda alunos sem ligação às aulas e portanto, continua o acentuar das desigualdades. Há professores que se adaptaram à lógica deste ensino de emergência, mas ainda há quem não se liberte do tradicional. As falhas são acima de tudo imputadas ao ministro (a minúscula é deliberada) e fica-lhe mal acusar os diretores de terem dito que 100.000 eram os equipamentos necessários. Culpa de diretores também há, pois nalguns é recorrente a falta de bom senso, como algumas adaptação de horários ao ensino à distância mostram (além dos blogs este tema aparece na capa do público de hoje).

 

A pandemia não é motivo para ser complacente.

vai-teaosprofessores, 03.02.21

Em primeiro lugar quero esclarecer que defendo o ensino à distância numa lógica de «second best», isto é na impossibilidade, por motivos de saúde, de haver o presencial, o ensino à distância «desenrasca», mesmo sem a totalidade dos computadores entregues - falha do governo que só encomendou alguns no final de dezembro -, no sentido que permite manter os alunos ligados à escola para todos, enquanto nestas férias só os que puderam pagar explicações online é que se mantiveram ligados.

Dito isto, há ainda problemas para resolver, como a ausência da imagem dos alunos durante as aulas síncronas, as condições e instrumentos de trabalho dos professores em teletrabalho, que têm de dar o seu consentimento para o uso do seu material pessoal, a capacidade da internet nas famílias adequada a um único utilizador, mas inoperante com 3 ou 4 utilizadores em simultâneo. A melhoria das condições do ensino à distância não é um problema que se protele por causa da pandemia, como alguns colegas defendem, pois o deixa andar, se algo não funcionar bem, prejudica, na última rácio, os alunos. Veja-se o meu caso, tenho teletrabalho e uma adolescente em aulas, dou-lhe prioridade no uso do equipamento mais fidedigno, ficando com um equipamento que falha em certas horas do dia, logo estarei a prejudicar os meus alunos, pelo que se este cenário acontecer solicitarei que me deixem trabalhar a partir de uma sala de aula com computador e câmara. Mas tudo isto era evitável se o ministério fosse competente e antecipasse os piores cenários. É inopinado e contraditório ver um cientista com uma atitude baseada na fé...

Ainda sobre manter uma atitude complacente por causa da pandemia, aceitaria se no passado os direitos dos professores não tenham sido atropelados sistematicamente: não contagem do tempo de serviço na totalidade, avaliação de desempenho docente que protege os colaboradores e amigos das direções, com prejuízo dos professores que só ensinam - que eu saiba a principal função do professor é centrada no processo ensino / aprendizagem -, as reuniões à distância muitas vezes prolongam-se até ás 9:30/10 horas com prejuízo da família, professores contratados com poucas horas e ordenados muito baixos. Não fui exaustivo, mas com e sem pandemia devemos dizer basta à degradação da profissão que tem afastado os estudantes do secundário dos cursos de professores com a consequente dificuldade em alguns grupos em recrutar professores, salvo se racionarmos de forma individual, se estamos menos mal nada mais me interessa...

Concluindo, não serei compreensivo com quem degradou a minha profissão, que adoro, mesmo em plena pandemia. Não serei compreensivo com quem falhou na antecipação dos cenários mais negativos e mostrou incompetência. Não serei compreensivo com quem nos engana. Não serei compreensivo com uma ADD que transforma a escola num feudo do diretor. Continuarei a defender os meus alunos e por eles acho crucial haver solução para um teletrabalho que respeite a lei.

Férias ou ensino à distância?

vai-teaosprofessores, 27.01.21

Em plenas férias antecipadas, como forma de o ministério ganhar tempo, para se relançar o ano letivo, a preocupação principal é como se vai relançar?, ensino à distância ou misto?, porque o presencial parece-me pouco provável.

O ensino à distância será possível com a falta de instrumentos como computadores e internet? Possível será, já o fizemos na primeira onda, mas reconhecendo que as desigualdades se agravaram. Agora com alguns dos computadores distribuídos esta situação será mitigada. Continua sem se resolver a cedência de material para os professores (situação exigida pela lei em teletrabalho ou continuamos a ser exceção?) ou em alternativa deixá-los usar os computadores das escolas, o que implica permitir que estes se desloquem para o seu posto de trabalho, o que significa uma quebra no confinamento, que julgo que a partir de certa altura será possível.

A partir de 8 de fevereiro, o mais provável é a situação pandémica ainda não permitir o ensino misto, pelo que me parece que a única alternativa é a do ensino à distância. O ensino misto pode ser a primeira fase do regresso dos alunos às escolas, mas quando a situação pandémica o permitir.

Para terminar dizer que preferia que agora não estivéssemos de férias, apesar de defender pausas letivas ao fim de 2 meses de trabalho, primeiro porque tivemos férias ao fim de 3 semanas de aulas, depois porque o ensino à distância, mesmo que acentue desigualdades, permite manter uma ligação às matérias lecionadas, que as férias interrompem. Ora agora também há desigualdades e agravadas em relação ao ensino à distância, porque há famílias que pagam explicações à distância, logo há alunos a consolidar matérias e outros que não o fazem porque não podem, quer porque ajudam os pais ou não podem pagar explicações.

Entretanto até ao final do mês a avaliação do desempenho dos docentes do quadro deve ser comunicada aos interessados. Prevejo que muitas das vagas para as menções de Muito Bom e Excelente vá para as equipas das direções, sobrando muito poucas para os restantes professores, pelo que defendo, na falta de uma reformulação da ADD, a criação de um universo específico para os colaboradores da direção, para que a principal função de ser professor, ensinar, não seja penalizada, num ano em que mais de 1/3 dos professores têm de ser avaliados, como resultado da possibilidade dada de se contar parte do tempo de serviço em que a progressão na carreira foi congelada.

Concluindo, colocar a tónica nas desigualdades para se interromper o ensino é lançar poeira para os olhos, porque quem tem posses vai consolidar as matérias dadas com explicações e quem não tem afasta-se do ensino/aprendizagem porque não as pode pagar. Com o ensino à distância todos manteriam a ligação aos conteúdos, ainda que alguns tivessem dificuldade em acompanhar o ensino e aprofundar a sua aprendizagem por falta de meios técnicos, mas acho que o mal seria menor. Por outro lado, a disponibilização dos meios técnicos não vai acontecer para todos a partir de 8 de fevereiro. Logo estas férias só servem para salvar a face dos governantes por não terem acautelado as condições para um ensino à distância.

O covid, os políticos e as escolas.

vai-teaosprofessores, 20.01.21

Comecemos pelo Sr. Presidente: «fechar as escolas era liquidar o ano letivo», ora como todos sabemos o fecho das escolas seria temporário - 2 semanas a um mês - e não teria de ser para todos, logo o nosso excelentíssimo Presidente não tem a mesma preocupação (afetos seletivos!) com os alunos que temporariamente, ou seja o equivalente, 2 semanas a um mês, ficaram ou ficarão sem aulas por motivo de falta de professores contratados e/ou por doença dos professores. Nestes casos não há drama, logo está a fazer política dando chancela presidencial a uma medida do governo. Objetivamente tanto é grave uma situação como outra, isto é, estar sem aulas por falta de professores ou por causa do covid.

Além do mais surgiu uma nova evidência nos dados estatísticos recentes sobre covid, o aumento preocupante de casos covid entre os 13 e os 17 anos e entre os 18 e os 24 anos, parece cada vez mais aconselhar o fecho das escolas a partir do 3º ciclo. Assim, os arautos de que as escolas não devem fechar, Confap, representantes dos diretores, porque não há transmissão nas escolas ou é residual, preferem agradar ao poder, porque nada sustenta esta afirmação, quando se sabe que uma grande percentagem dos infetados têm origem desconhecida. Mais uma vez estamos no reino da política em nome dos desfavorecidos, apregoam, de que se esquecem a maior parte do tempo.

O nosso 1º ministro, tem o dilema de escolher entre economia e saúde, leia-se evitar que o orçamento derrape e dá-lhe jeito agarrar-se às discrepâncias dos técnicos sobre a transmissão nas escolas para as manter abertas e evitar gastar mais euros com a economia, salvo se for a estirpe inglesa ou a brasileira. Um outro fator objetivo é o facto de ter domesticado os professores com a recuperação do tempo de serviço, domesticação essa confirmada com o pouco ou nenhum impacto da última greve de pessoal docente (o STOP marcou agora outra greve), pelo que não o preocupa mais esta total falta de respeito por uma classe mesmo que envolva pôr em causa a saúde dos professores, alunos e funcionários. Já agora não deixaria de notar a falta de assertividade para colocar os hospitais privados a apoiar a saúde em comparação com a firmeza com que trata a educação, mesmo com dúvidas técnicas, ou seja, mais uma vez fraco com os fortes.

O ministro da tutela, esse está em hibernação, por isso não vou gastar palavras com quem não está presente. Nem sequer a necessidade de rastreio o faz sair do conforto do seu gabinete, que finalmente avança a partir de hoje por pressão da opinião pública.

Há candidatos à presidência e partidos políticos, os de esquerda, que aparecem a defender as escolas qualquer que seja a vertente, professores, auxiliares, rastreio, confinamento parcelar, mas na hora da verdade das votações ou de iniciativas parlamentares, têm colocado outros interesses à frente da educação ou sujeitando-se à agenda do PS neste tema. Só assim se explica que a questão da gestão das escolas defendida por toda a esquerda não PS, não tenha aparecido na agenda política.

Concluindo, a tática política tem feito passar os assuntos de educação para segundo plano, além de estar claramente patente um bloco central predominante neste setor colocando a economia como central, com a esquerda a colocar a educação depois dos direitos laborais e do SNS, quando devia também ser prioritária e desígnio nacional.

Resultados do 1º período e a pandemia.

vai-teaosprofessores, 13.01.21

O tema dominante nestes dias é sem dúvida a questão do fecho de parte das escolas a partir do 3º ciclo, onde parece haver divisão no governo, entre a equipa económica e da educação e a saúde do que fazer a partir da faixa etária dos 12 anos. Sou a favor de um regime misto a partir do 3º ciclo, depois de ler uma série de artigos científicos em que conclui que não se pode descartar a transmissão através da escola, mas com rastreio do vírus periodicamente. O ministro da educação como não criou condições para o ensino não presencial, que exige disponibilidade de meios informáticos - estão ainda em distribuição para os alunos e nada foi feito para o trabalho dos professores -, defende o ensino presencial e desculpa-se com a DGS, para as suas falhas passarem despercebidas.

Gostaria de salientar e centrar-me agora em algumas das conclusões da análise dos resultados do 1º período, na perspetiva de estudo de caso. Nota-se este ano no ensino básico um aumento de avaliações ao comportamento das turmas de satisfaz pouco, o que parece traduzir uma reação dos alunos à redução dos intervalos e à sua duração. Os mais novos têm dificuldades de adaptação ao novo normal.

Pelo contrário, no ensino secundário, nota-se uma maior compreensão da nova normalidade e o reconhecimento do gosto de voltar à escola, mesmo com as atuais limitações. Mas a atitude face ao estudar com empenho aparece mais esbatida com base numa expetativa de maior facilitismo, quer pelas condições adversas do funcionamento das aulas com alunos presenciais e alunos não presenciais, quer pela expetativa de só se fazer exame nas disciplinas necessárias ao prosseguimento de estudos, ainda não confirmada, e pelo que aconteceu o ano passado em que as notas nos exames aumentaram com as opções criadas a nível das questões de resposta múltipla, esquecendo-se que o aumento das notas de exame também aumentou as notas de acesso às universidades.

Por entre os professores há quem defenda a predominância do perfil do aluno sobre a avaliação externa, defendendo que a avaliação interna se deve desligar da avaliação externa e portanto os testes devem perder a estrutura mimética em relação aos exames, ou seja, a discrepância nota interna versus nota externa não deve ter um papel central na avaliação do desempenho das escolas. Temos de reconhecer que este é o modelo admitido de forma ambígua pela atual equipa da educação, sem coragem de separar as águas com clareza, com a predominância do perfil do aluno na avaliação interna, deixando o acesso ao ensino superior fora do ensino secundário, o que ainda não acontece. Mas esta ambiguidade só cria incerteza e pressão para o facilitismo, que arrasta alguns professores e muitos alunos, com prejuízo para os últimos. Há urgência em haver clarificação para bem dos alunos.

Concluindo, sobre o covid, faz sentido passar o ensino a partir do 3º ciclo a regime misto e com rastreio da população escolar periódico. Nota-se uma maior dificuldade de adaptação dos mais novos com comportamentos menos satisfatórios em muitas turmas e os mais velhos dos discentes a reconhecer o papel central da escola. O lado negativo nestes alunos mais velhos está num menor empenho no esforço de estudar incentivada por alguns professores que apoiando-se na ambiguidade do governo procuram dar predominância à avaliação interna em prejuízo da avaliação externa.

Professores resilientes em vez de diretores resilientes

vai-teaosprofessores, 06.01.21

No dia 28 de dezembro o diretor Filinto Lima brindou-nos com um artigo intitulado «diretores resilientes». Não conheço o distinto diretor, vou tratá-lo assim para não se melindrar, em vez do tradicional colega, porque nesse artigo assumiu o espírito de corpo de uma classe à parte dos professores, a dos diretores. A maior prova disto é a crítica do modelo de avaliação dos diretores: «os 812 diretores existentes no sistema educativo nacional dispõem de um modelo de avaliação injusto e que reclama uma alteração urgente, pedido que será concretizado no próximo ano civil, sejam os políticos sensíveis a tal desígnio». Além disso, não deixo de realçar o auto elogio deste novo grupo na educação, que partilha com as «suas equipas diretivas, dos coordenadores de professores e do pessoal não docente», deixando de lado os professores (zecos, no seu pensamento, no sentido de classe distinta e executante, sem capacidade de reflexão própria).

Ao reivindicar uma avaliação específica dos diretores assumiu claramente que fazia parte de uma classe distinta da dos professores, nem sequer, equacionando que se o modelo de avaliação dos diretores está mal e como tem os mesmos vícios dos zecos, considerou propor uma alteração da avaliação de todos, diretores e professores, optando assim por defender uma situação de privilégio para os diretores.

O seu artigo entra em contradição com a realidade ao realçar que «os dirigentes máximos das escolas revelam-se decisivos, para além do mais, na obtenção dos resultados positivos na Educação», pois, todos sabemos, a escola piorou os resultados na avaliação externa dos TIMM. Mais uma vez mostra que vive num mundo à parte, em que vem reivindicar sucessos que não existem, tipo: nós que seguimos as instruções do poder central, como a pressão para não haver reprovações, temos direito também a ficar com os louros.

Concluindo, os professores ao lidarem com tamanhos iluminados só podem ser professores resilientes. Acho, contudo, esclarecedor este assumir claro de posição, os diretores têm interesses diferentes com o atual modelo de gestão, em vez de uma no cravo outra na ferradura habitual.

PS: Este artigo era para ser mais pela positiva, mas o artigo de 4/01 do Luís Braga, no comregras, intitulado «o que mudar nas regras de gestão escolar para aumentar a cidadania» veio dizer o mesmo que eu diria, pelo que me restou esta resposta a um diretor que se sente de uma classe profissional distinta dos professores e que reivindica privilégios na avaliação e se auto elogia, mesmo com avaliações externas ao sistema educativo não muito favoráveis.

O porquê do fracasso de uma greve de professores.

vai-teaosprofessores, 16.12.20

Na passada sexta-feira devia ter acontecido uma greve de professores, mas esta foi um fiasco pela pouca aderência que teve.

Depois da luta pela recuperação do tempo de serviço, que tinha um profundo impacto nas remunerações e repunha justiça, esta greve teria mais a ver com as condições de trabalho, como as exceções para as escolas das regras gerais do covid, como a sobrecarga de trabalho com o ensino à distância e com o absurdo das reuniões intercalares entre as 7 e as 9 da noite. Consequentemente temos dois fatores a condicionar a greve, o fracasso da luta anterior, que criou anti corpos contra novas greves e esta greve ter mais a ver com fatores não salariais e portanto, menos apelativos.

A sobrecarga de trabalho não atinge tanto os professores mais velhos, por causa da redução de horário letivo e consequentemente terem poucas turmas. Ora são estes que experienciaram uma escola mais respeitadora dos professores e do seu horário de trabalho pelo que estariam subjetivamente mais recetivos a uma jornada de luta, mas objetivamente estão mais aliviados da sobrecarga de trabalho.

Por outro lado, são as direções das escolas que gerem o processo, pelo que algumas evitam esta sobrecarga de trabalho, enquadrado por normas pouco clarificadoras, criando reuniões semanais de ano ou disciplina e param mesmo as aulas para as reuniões intercalares ou ainda fazem-nas nas tardes livres e estendidas no tempo. Ou seja, nem todos os professores sentiram as condições de trabalho adversas com a mesma intensidade. Quanto às direções que são responsáveis pelos casos extremos, na equação entra a vertente de política local, como o apoio à direção pelo benefício em termos de horário ou o medo de se ter um horário bastante repartido para quem tem quilómetros a percorrer para ir trabalhar ou filhos para cuidar. Além do mais o principal problema das escolas, não terem um equilíbrio no poder e uma limitação de mandatos dos diretores, mas um poder totalmente concentrado numa pessoa e prolongável no tempo, não estava em cima da mesa nesta greve.

Outra questão tem a ver com o desgaste dos sindicatos junto dos professores e da opinião pública. Quando os sindicatos parecem ter agendas mais políticas do que sindicais criam-se desconfianças nos professores. Quando as caras mais conhecida dos sindicalistas começam a desgastar-se, pelo número de anos à frente dos sindicatos e por terem sido responsáveis por lutas fracassadas, também não ajuda à mobilização da classe e da opinião pública (deveria ter havido mudanças na Fenprof e na FNE e aplicar-se aos sindicatos a regra republicana de limitação de mandatos tal, como aos diretores). Por fim a não convergência dos sindicatos para as lutas é também um fator negativo.

Concluindo, a luta de professores está a travessar o deserto depois da questão do tempo de serviço. O motivo da convocação de nova greve tem de ser objetivamente sentida por toda a classe e não sentida de forma desigual, como foi o caso desta, de forma a evitarem-se o mais possível a existência de subjetivismos que criem forças centrífugas. Um tema pouco explorado nas reivindicações sindicais é a alteração do modelo de gestão que é a raiz de algumas das condições de trabalho extremas que apareceram nas reivindicações para esta greve - a divulgação das escolas com reuniões presenciais em concelhos de risco por insensibilidade dos diretores é um exemplo. O concentrar as reivindicações no diálogo com o ministério com vista à mudança dos normativos que implementem maior respeito pelas horas e trabalho individuais parece-me redutor, falhando a raiz de alguns problemas, a falta de equilíbrio do poder nas escolas.