Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Julho 22, 2019

As propostas do Arlindo: comentários e contrapropostas

vai-teaosprofessores

Estive à espera do conjunto de propostas para as poder comentar e ter uma visão holística. Antes de mais, obrigado por proporcionares este debate, Arlindo. Relembro que desempenho funções de coordenador de departamento, para justificar as minhas propostas alternativas em face da minha experiência.

Começo pela última, sobre a gestão, em que os professores elegem os coordenadores de departamento e estes o diretor, que acho uma via possível. Outra via é os professores elegerem os coordenadores de departamento e o diretor ser eleito no Conselho Geral, mas com legitimidades próprias e independentes. Eu prefiro a eleição direta quer de coordenadores quer do diretivo (colegial). O importante é haver eleições e concordo com a independência entre direção e coordenadores de departamento. Também acho que o presidente do CP deve ser eleito entre os coordenadores de departamento.

Depois a carreira docente teria segundo a proposta 5 escalões entre os índices 200 e 300, portanto havendo uma redução entre o início e topo da carreira de 2,2 para 1,5. Esta proposta é favorável aos professores em início de carreira e desfavorável aos do fim da carreira. A valorização das funções de direção com índices à parte não me parece feliz porque desvaloriza a função essencial do professor que é ensinar, além de valorizar a gestão. Rejeito-a pois não me escandaliza haver um diretor a ganhar o mesmo que um excelente professor na sua relação com os alunos. Além disso, ignora que muitos professores passam uma dezena de anos na pré-carreira. Depois a carreira seria de 40 anos quando por volta dos 30 se deveria atingir o topo. Portanto, os escalões deveriam ser de 5 anos no máximo. Haveria um índice de 180 para a pré carreira, em que o docente faria o período probatório. Depois os escalões seriam de 5 anos, entre os 200 e os 370 para todos. Contudo, aceito que os coordenadores de departamento e elementos da direção, receberiam pelos 340 enquanto estivessem em funções, se não tivessem atingido esse nível, com o presidente do diretivo nos 370.

Quanto à avaliação, a ideia principal é não se centrar no relatório de autoavaliação, pelo que a elaboração de um trabalho defendido perante um júri parece-me aceitável.

Concluindo, corrijo algumas das propostas do Arlindo, realçando a necessidade de democracia direta nas escolas, extensível aos alunos do secundário, que é uma forma de se combatera abstenção nas eleições que se realizam no país. A segunda ideia forte é discordar que a gestão é mais importante do que ser bom professor, que indiretamente está implícita na proposta do Arlindo.

Julho 15, 2019

Os magistrados, os médicos e os professores

vai-teaosprofessores

Recentemente a Assembleia da República aprovou a possibilidade de o vencimento dos juízes ultrapassarem o vencimento do Primeiro Ministro. A explicação para esta medida é os juízes serem titulares de órgãos de soberania.

Em primeiro lugar acho que os detentores de cargos políticos deviam ter os salários mais altos. Mas o que mais me preocupa é aparentemente não haver aqui uma política de quadros do Estado e tomarem-se medidas avulsas. Antes havia o conceito de corpos especiais que teriam uma remuneração condigna e estes corpos, entre outros, englobavam os magistrados, os médicos / enfermeiros e os professores. Depois com os problemas financeiros os vencimentos sofreram cortes diretos e indiretos devido ao aumento da tributação.

Na fase de reposição de direitos em que continua a haver rateio da disponibilidade financeira, que o crescimento e a diminuição dos juros da dívida vão disponibilizando, os corpos especiais mais numerosos têm mais dificuldade em repor o que já tiveram. Lembrando que neste rateio o acudir ao sistema financeiro é uma primeira prioridade absoluta, aparece agora como outra prioridade os magistrados judiciais (juízes e procuradores). No caso destes últimos serão beneficiados os do topo da carreira mas também os mais novos que vêm encurtados de 10 para 2 anos o acesso a um vencimento bastante acima de médicos e professores.

Acredito que poderá estar na base desta decisão o número pequeno de magistrados que beneficiam desta reposição e reforma da carreira, portanto tem subjacente uma lógica financeira. Mas, altera-se a política anterior de haver uma preocupação em ter remunerações condignas também para médicos e professores, na medida em que se reconhecia o seu estatuto de corpos especiais. Este estatuto estava ligado ao reconhecimento da saúde e educação como variáveis estratégicas da nossa sociedade. Logo com o descolar dos magistrados, a saúde e a educação aparecem secundarizadas.

Concluindo, paulatinamente as restrições financeiras estão a pôr em causa um consenso da sociedade, em que os tribunais, o sistema de saúde público e as escolas eram considerados fatores chave para a existência de desenvolvimento económico e não mero crescimento. Falta saber se é um dano colateral das restrições financeiras ou se é uma política deliberada. Os profissionais de saúde e educação ao serem deixados para trás significa que as prioridades da sociedade estão a mudar. Com a desculpa dos problemas financeiros o Estado liberal – assente na trilogia polícia, exército e tribunais – vai-se impondo e o Estado social, em que a educação e a saúde são essenciais, vai perdendo gás e os seus profissionais vão sendo desvalorizados na hierarquia das remunerações.

Julho 09, 2019

Estudos provam que o elevador social funciona com deficiências na escola pública.

vai-teaosprofessores

Um estudo analisa os resultados obtidos a partir de dados relativos aos alunos que no ano letivo de 2011/2012 frequentavam o 6.º e 9.º anos em escolas públicas, como explica ao EDULOG um dos seus autores, Luís Nunes, investigador da Nova School of Business and Economics, Universidade Nova de Lisboa.

 Olhando para a dimensão da turma, mas também para a sua composição – através de indicadores relacionados com os alunos, como a idade, o sexo, o escalão de apoios sociais escolares, o acesso a Internet em casa - “o efeito do tamanho da turma não é significativo, enquanto os outros fatores que têm a ver com a própria composição da turma acabam por ter mais influência relativamente ao seu tamanho”.

Nos últimos dias, foi-nos também apresentado pelo Jornal Público um estudo feito pela Edulog, Fundação Belmiro de Azevedo,  que vem reiterar que a escola como elevador social apresenta deficiências.

Segundo o estudo, o nosso sistema de ensino reproduz desigualdades económicas e sociais, ou seja, quem é pobre terá menos oportunidades com o atual sistema de ensino, quem rico é, terá mais hipótese de acesso aos cursos superiores mais procurados e com maiores médias. Por exemplo 70% dos estudantes de medicina são filhos de pais com formação universitária e somente 8% têm bolsa de estudo.

Estes estudos mostram-nos que a igualdade de oportunidades começa na formação de turmas e quanto mais homogéneas forem em termos de realidade social melhores podem ser os resultados, mas mais se reproduz a sociedade ficando os pobres sem hipótese de ascensão social. Esta é a estratégia dos privados (também de algumas públicas nos centros urbanos), fazem turmas homogêneas, selecionando alunos.

Estes resultados sobressaem depois no ensino superior em que os melhores alunos vão para os cursos como medicina, algumas engenharias e arquitetura. Os alunos das classes mais pobres tem tendência a ir para os politécnicos, segundo o estudo divulgado pelo jornal Público.

Concluindo, estamos pois a reproduzir a sociedade e não a alterar a estrutura social através da educação.

Julho 02, 2019

As reformas necessárias do ensino básico e secundário em Portugal

vai-teaosprofessores

A principal reforma a fazer em Portugal seria mudar a gestão das escolas, deixar o modelo gerencialista (gerir a escola como uma empresa) e voltar à gestão democrática, com eleição direta de uma direção (não diretores) com base em listas, com eleição de alunos para certos órgãos, como garantir a presença no Pedagógico de 2 alunos do secundário quando se discutir a forma de avaliação e a aprovação das atividades extracurriculares a desenvolver, o atual PAA. A existência de uma Assembleia de Escola, com participação da comunidade, seria um órgão que definiria as opções estratégicas e fiscalizador, com poderes para convocar novas eleições. É na escola que se combate o absentismo eleitoral criando hábitos de participação cívica.

A segunda reforma a fazer seria diminuir a carga burocrática que recai sobre os professores, através de um simplex administrativo e com recurso a plataformas informáticas. A definição clara de serviço letivo e não letivo também se impõe.

Aceito a visão do perfil do aluno com as diversas competências elencadas, mas resolvendo a contradição com o acesso ao ensino superior, isto é, passando o acesso ao ensino superior para as universidades. Sem este passo, a lógica de avaliar competências diversificadas é subalternizada pela avaliação de conhecimentos nos exames, que são limitados a certas áreas.

No ensino profissional preconizo mais formação em contexto de trabalho e menos conteúdos de formação geral. Garantir a abertura de cursos só quando há instalações adequadas ao curso ministrado e recursos informáticos mínimos.

Caminhar para um ensino personalizado, não é reduzir o grau de exigência, mas criar condições para que o aluno tenha sucesso com mais tempo de ensino e mais oportunidades de recuperação com base no esforço do aluno, quando necessário. Menos alunos por professor é uma medida a acelerar, quer reduzindo os alunos por turma, quer implementando mais coadjuvações, que hoje se reduzem a uma média de uma em cada 15 dias. Estas deviam ser semanais para metade das horas letivas. A possibilidade de haver recuperações de conteúdos / grupos depois dos testes é também um caminho, para se evitar o desinteresse do aluno por conteúdos específicos em que teve fraco desempenho. Assim, o teste funcionaria também como avaliação formativa, além da sumativa, permitindo identificar e recuperar conteúdos apreendidos de forma insuficiente pelo aluno, através da substituição da nota do grupo pela da questão de aula a realizar à posteriori. O essencial é não haver medidas que baixem a exigência, mas que permitam novas oportunidades de recuperar conhecimentos aos alunos.

Há reformas que exigem recursos financeiros, mas outras há que dependem somente da vontade política. Quanto aos recursos financeiros, a tendência para a redução de alunos, via redução da natalidade, abre portas a uma libertação de recursos que podem ir sendo canalizados para algumas das reformas aqui preconizadas.

Há também uma reforma de mentalidades dos governantes, não verem o ensino como despesa, antes como investimento e valorizarem os professores como elementos centrais desse investimento conseguir os resultados esperados. Há também a necessidade de acabar com a promoção de reformas sem serem devidamente avaliadas, isto é, cada governante chega com as suas ideias e implementa-as sem avaliar se o que estava funcionava. O querer «deixar marca» leva à instabilidade sistémica e pode acabar com o que estava a dar resultados.

Junho 25, 2019

Uma reforma do Ensino Profissional

vai-teaosprofessores

Para se pensar numa reforma do ensino profissional é preciso em primeiro lugar identificar o que está menos bem.

Em primeiro lugar há no ensino profissional mais indisciplina na sala de aula e muito mais absentismo, que se agrava quando os alunos constatam que não há consequências de muitos dos seus comportamentos. Na indisciplina conheço situações em que os alunos rejubilam com os dias de suspensão. O absentismo não é devidamente tratado, com muitos professores a não mandarem repor as faltas não justificadas na escola. Soluções para a indisciplina: tornar efetiva a possibilidade de realização de serviço cívico na escola. As direções têm dificuldade em castigar alunos mal comportados com trabalho cívico como limpar jardins. Se os alunos com 16 anos já são criminalmente imputáveis, não percebo a resistência social para se aplicar estas penas para a indisciplina, em vez das suspensões. Para o absentismo: falta injustificada é equivalente a igual período na escola, ou seja, o preço sombra de uma falta injustificada é uma hora obrigatória na escola, a passar a matéria dada. O regulamento interno permite-me que o faça e tenho notado a diminuição do absentismo depois da aplicação desta forma de recuperação de faltas. As soluções passam por alterações no estatuto do aluno no sentido do que foi proposto, bem como em regulamentos internos.

Depois, os alunos dos cursos profissionais têm aulas de manhã e de tarde todos os dias. Têm horários bastante preenchidos com aulas. Preconizo uma reforma dos currículos em que se diminuiria os tempos letivos a favor de mais formação em contexto de trabalho, FCT, (têm 140 horas de FCT no 10º e 11º anos e deviam passar pelo menos para o dobro).

A maior parte das aulas são dadas em salas de aulas normais, sem recursos tecnológicos, nomeadamente computadores, que possibilitasse um ensino diferente da aula expositiva com a avaliação por testes. Devia ser obrigatório os cursos profissionais só serem abertos se a escola tivesse condições tecnológicas para ministrar os cursos, nomeadamente terem pelo menos uma sala com computadores, com um computadores para cada 2 alunos, pelo menos, por turma. Em cursos mais especializados deviam também ter salas que permitissem ao aluno a prática simulada de certas atividades, como uma oficina para os de mecânica, uma sala com uma cama de hospital e um boneco para os de auxiliares de saúde, etc.

Estes elementos interligam-se, pois menos tempo em sala de aula e com aulas mais práticas, bem como ensino com tecnologia adequada, deverá diminuir o absentismo e a indisciplina.

Concluindo, o ensino profissional precisa de ser reformado: na abertura de cursos dever-se-ia exigir certas condições, como uma sala informatizada e salas apetrechadas com materiais onde pudessem praticar a profissão em que se estão a formar. O rigor com a indisciplina e com o absentismo deveria ser um desiderato de toda a sociedade a começar pela escola. A prática em estágio devia ser contemplada com mais horas.

Junho 17, 2019

A escola e o elevador social

vai-teaosprofessores

O SE Costa veio recentemente falar da escola como «elevador social», referindo a este propósito o papel do 54/18, como elemento integrador e que garante oportunidades aos mais desfavorecidos, ao garantir o sucesso a todos os alunos, através das chamadas medidas universais.

Por outro lado, um jornal explicava que «a indisciplina nas salas de aulas está a prejudicar o ensino e é um dos motivos pelos quais cada vez mais pais procuram explicadores para os filhos mais cedo, logo no 1.º Ciclo. A ansiedade e a pressão pelas boas notas justificam que já não se vendam apenas aulas particulares de Matemática, mas também para as línguas, as Ciências e, até, o Português».

Estas duas lógicas são contraditórias, ou o elevador social só funciona com as medidas universais, isto é, adapta a avaliação ao aluno, se o aluno não teve sucesso com o nível normal de exigência, reduz-se o mesmo; ou funciona com mais esforço, com mais repetições, nas explicações.

O SE Costa acredita na solução da escola se adaptar ao aluno, enquanto os pais, conhecendo a vida, optam pela segunda, o aluno é que tem de estar preparado para o nível normal de exigência.

Por outo lado sabemos que quando se diminui o grau de exigência, o que acontece é a desvalorização social do ensino. Por exemplo, hoje, muitas licenciaturas são desvalorizadas socialmente, porque os alunos saem das faculdades impreparados, pelo que de seguida se passa a exigir o mestrado. Quando o ensino facilita, exige-se o grau seguinte. Mais uma vez a lógica social, resolve o problema dos facilitismos, desqualificando-os.

Concluindo, estamos perante dois modelos para se ter sucesso, ou se baixa o nível de exigência, as chamadas medidas universais, no modelo do governo, ou suprime-se a falta de exigência da escola, com as explicações, a escolha dos pais da classe média. Os pais ainda acreditam na escola pública, mas cada vez mais complementam-na com as explicações.

O elevador social é para os pais o sucesso com exigência e quando a escola não o garante procuram-no no privado, a tempo inteiro, nos colégios, ou parcialmente nas explicações. Mas este modelo não está ao alcance dos mais pobres por não ser gratuito. O que a escola pode fazer é reduzir as turmas, aumentar a coadjuvância, reforçar as horas nos anos de exame recorrendo ao crédito horário, etc. (tem-no feito timidamente devido às restrições financeiras), nunca reduzir a exigência.

Fazendo-o, será que caminhamos para uma escola pública das medidas universais e para os mais pobres, havendo ao lado uma escola privada para os mais ricos, mesmo que por enquanto esta escola privada seja só a das explicações?

As duas velocidades no ensino, ou seja níveis diferentes de exigência na avaliação (conceito usado na europa para níveis diferentes de integração económica), significam descriminação e limitação da escola, em termos de elevador social, para quem usufrui das medidas universais. Os pais da classe média têm claramente esta perceção e recorrem às explicações para a contornar.

Junho 13, 2019

A gestão das escolas e a abstenção eleitoral

vai-teaosprofessores

Quando se fala em acidentes rodoviários alguém vem dizer que a escola é o lugar ideal para se construir condutores com respeito pelos outros.

Quando se fala da obesidade alguém vem a correr dizer que a alimentação racional e o desporto devem ser implementados nas escolas.

Podia continuar a falar de temas onde se constata que na sociedade há pessoas com comportamentos incorretos social ou cientificamente, que alguém remete para a escola como um processo de longo prazo para resolver tais comportamentos.

Mas houve um tema que não foi remetido para a escola: a elevadíssima abstenção eleitoral. Dois estudantes universitários entrevistados na TVI na segunda-feira pós eleitoral, foram questionados sobre este tema e referiram que a escola não os preparou para o dever cívico de votarem, mesmo quando falaram de educação cívica. Mas para mim o mais estranho foi os entrevistadores (Pedro Pinto e MST) não lhes terem perguntado se era habitual no percurso escolar participarem na vida da escola! Particularmente MST que tem opiniões sobre a educação não questionou se a escola os fazia participar na condução dos destinos da organização.

Esta falta de acutilância profissional deriva a meu ver de uma «cegueira» ideológica: não quererem admitir que o gerencialismo (gerir a escola na lógica empresarial) na gestão das escolas em vigor, que se contrapôs a uma gestão democrática em que todos participavam na mesma, afastou muitos stochholders da gestão, aos professores foi limitado o poder e os alunos foram totalmente afastados da gestão, até nos órgãos consultivos.

O que podia ser uma prática que incentivasse os alunos a participarem na gestão dos problemas escolares e portanto, lhes criasse hábitos de participação na vida escolar, que depois seriam uma mais-valia para participarem na vida cívica, foi arredada da escola pelo centro e pela direita com o tipo de gestão em vigor.

 Nem os jornalistas fizeram a pergunta que se impunha, nem o ministro da educação (ele gosta mais do desporto e foge quando há problemas na educação como a recuperação do tempo de serviço dos professores) que apareceu a comentar a situação não teve coragem de se referir à necessidade de se questionar a atual lei da gestão das escolas.

Concluindo a escola serve para resolver todos os problemas, quando surgem situações anormais, rapidamente alguém vem referir que a escola resolve, permitindo dizer que se atuou, mas os resultados virão só muito depois. Estranhamente, ou não, na questão da abstenção eleitoral, que é dramática, e que a escola poderá ajudar a resolver, alterando-se a lei da gestão, com participação mais efetiva dos alunos, parece que ninguém quer pôr a escola a contribuir para a resolução deste problema (!), pois, não lhes convém que se discuta se a escolha pela gestão empresarial das escolas foi a opção mais correta.

Junho 03, 2019

Formas subtis, sem escrutínio, de tirar poder aos professores.

vai-teaosprofessores

Depois de acalmar a questão do tempo de serviço com a derrota dos 942, importa debater a questão do poder dos professores na sala de aula. Este poder é crucial em termos de autonomia do professor na sala de aula. Como com todo o poder é preciso haver mecanismos de controlo desse poder, que existe com as reclamações relativas a notas ou denúncias de outros abusos. Mas haver mecanismos de controlo do poder não é a mesma coisa que retirar poder / autonomia ao professor. Como alguém disse: o poder tem sido retirado aos professores e alguns de nós professores temos aceitado que este poder nos seja retirado. Vejamos alguns desses mecanismos.

Ora o DL 54/18 é um veículo de limitação do poder dos professores. Consultem neste o blog o artigo https://www.comregras.com/author/alberto-veronesi/ intitulado «medidas universais de suporte à aprendizagem ou medidas universais de sucesso automático?» em que é mostrado uma pirâmide de medidas de suporte à aprendizagem. A aplicação destas medidas visa tornar o sucesso generalizado. Ora o sucesso generalizado é uma forma de retirar poder aos professores, que passam a ser uma espécie de máquina na sala de aula, que se limita a criar caminhos facilitistas para certos alunos para garantir o sucesso a 100%. Eu estou de acordo em dar outras oportunidades aos alunos, mas sem cair no facilitismo. Pessoalmente o que faço é dar até mais 2 testes de recuperação, mas sem repetir as perguntas (para o aluno saber antecipadamente o que sai no teste e preparar-se) e nas aulas de preparação levo-os a preparar toda a matéria dada. Não aceito ser uma correia de transmissão de um ministério que quer sucesso total. O aluno se tem capacidades não deve ser tratado diferente dos outros. A escola pode dar mais oportunidades, mas sem cair na injustiça e no artificial. Quando há handicaps que o professor deteta, aqui há lugar a uma adaptação do teste a essas situações, no âmbito das medidas universais, como evitar perguntas de desenvolvimento. Mas quando o aluno não quer, tem de haver consequências, tal como na vida real, da sua atitude.

Também estou de acordo com o Alberto Veronesi, no artigo citado, de que se passa uma mensagem aos demais alunos de que o esforço não compensa, pois uns têm sucesso sem fazer nada e outros fazendo muito. Como o professor não é uma máquina, ou correia de transmissão dos políticos, não alinho num ambiente em que não se transmita estímulos negativos para quem os mereça. Quando se desmotiva os alunos, indicando-lhes ser indiferente trabalharem ou não, começam os problemas de indisciplina. Numa turma indisciplinada todos perdem, o professor esgota-se mais, os outros alunos que querem trabalhar passam a ter pouca motivação para trabalhar e podem cair também na indisciplina, pelo efeito da adesão acrítica ao grupo de pertença. Aqui o não querer é faltar às aulas, é estar sempre distraído, é recusar o trabalho proposto à turma, tudo isto diferente de dificuldades na realização das tarefas propostas. Impedem-nos de detetar estas situações diferenciadas ao propor que as tratemos como iguais para se alcançar o sucesso generalizado. Isto é tirar poder aos professores tirando-lhes autonomia para separar as causas do insucesso e de agir em conformidade.

Tudo isto se passa sem se assumir claramente o objetivo sucesso total, por parte do ministério, tal como quando saiu o perfil do aluno, este veio sem o corolário óbvio de se acabar com os exames, transferindo o acesso ao superior para as universidades ou politécnicos. Falta-lhes coragem política para isso. O caminho é mais subtil, pressionam os professores, através do poder centralizado, a seguirem um dado caminho, incluindo nas formações obrigatórias. Muitos de nós sucumbimos a esta pressão ou simplesmente se o objetivo é passar todos, estão mais vale fazê-lo logo, pensam alguns, sem mais chatices, como enfrentar burocracias administrativas para justificar o insucesso ou mesmo a critica velada de alguns colegas nos conselhos de turma. Estamos no âmbito do teatro chinês, não numa assunção clara de objetivos educativos para que a sociedade os possa escrutinar. Acho que é deste escrutínio que fogem, porque a opinião pública não aceitaria premiar os procrastinadores, os absentistas e os que se recusam a cumprir regras. São valores cívicos que estão em causa que devem ser discutidos por todos e que tornam o professor central no ato educativo quando pugna por estes.

Maio 29, 2019

Escola centrada no aluno versus centrada no professor?

vai-teaosprofessores

Para que serve a escola hoje? Para transmitir conhecimentos, transmitir valores e socializar o aluno. É possível haver escola sem professores? Não porque são os professores que conduzem o processo de ensino aprendizagem, mesmo com uso das tecnologias. São eles que transmitem conhecimentos ou orientam a aprendizagem com recurso a tecnologias, são eles que transmitem valores como solidariedade, retidão, etc, são eles que impedem a existência de bulling, são eles que em assembleia, a aula é uma assembleia, mostram a necessidade de regras, para que haja um bom funcionamento, logo socializam os alunos.

Mas também fazem parte da escola, que não existe sem eles, os alunos. São eles que são a motivação dos professores, são eles que são o objeto da ação pedagógica e de socialização dos professores. São eles que os professores precisam de motivar, mas também de corrigir, portanto são eles que recebem os estímulos positivos ou negativos dados pelos professores.

Portanto, para mim não existem escolas só centradas nos alunos ou só centrada nos professores. Deve existir uma dialética professor / aluno, que permita ao professor definir como ensinar, em função dos seus alunos e levando em conta as caraterísticas do aluno. Portanto, quem define o modo é o professor, quem define os currículos de valores e as formas de socialização a realçar é o professor, mas levando em conta as caraterísticas dos seus alunos e ajustando-se à reação dos alunos, na tal relação dialética. Aqui cabe a escola inclusiva.

Neste enquadramento, sim Joana (https://www.comregras.com/e-uma-medida-universal-e-umas-quantas-adicionais-se-faz-favor/) não faz sentido o professor não se relacionar com os seus alunos, mas também não faz sentido toda aquela parafernália do «eduquês» que quer retirar protagonismo aos professores, defendendo o ensino centrado no aluno, sem estímulos negativos, em que se retiram instrumentos de controlo dos alunos, como o facto de os alunos do profissional passarem a ter o controlo das faltas não módulo a módulo, como acontecia, mas só em relação ao total das faltas nas disciplinas, para evitar que um aluno absentista seja o mais cedo possível confrontado com o seu comportamento? O mais grave é a pressão para que não haja estímulos negativos como haver módulos por fazer, isto é, notas negativas. O argumento é que isto é considerado insucesso e logo podemos perder um curso se este não tiver 100% de sucesso, ou seja, haverá professores que ficarão com ‘horários zero’ se o curso for fechado. Se juntarmos a este discurso a ameaça velada de uma avaliação não Muito Boa ou Excelente, para quem está precisado de passar para os 5º e 7º escalão, percebemos que haja quem tenha sempre 100% de sucesso, mesmo com alguns alunos quase sem vir às aulas. Mas isto é abdicar do professor ser o condutor do processo de ensino, ou seja, do amago de ser professor. Por outro lado, quando não se dão estímulos negativos aparecem os problemas de indisciplina, pois os alunos não têm motivo para se adaptar à escola e suas regras, prejudicando-se a maioria dos alunos que quer aprender e seguir estudos, agora dispensados de exames de acesso ao superior.

Concluindo, nesta relação dialética professor / aluno tanto é negativo um professor que não se adapta aos alunos, como um sistema que se centra somente no aluno desprestigiando o papel do professor, ao retirar mecanismos de poder ao professor para mostrar aos alunos que certos caminhos / comportamentos não são socialmente aceitáveis e dar-lhe estímulos negativos.

 

Maio 21, 2019

Ser professor em Portugal: estudo de casos

vai-teaosprofessores

Face ao ataque despudorado do governo contra os professores decidi contrabalançar o que foi passado para a opinião pública com situações reais.

Hoje em dia a maior parte dos professores sai com a profissionalização feita, em geral como contratados, muitas vezes com horário incompleto e outras vezes concorrendo para longe de casa.

As situações são diferentes nos diversos grupos de recrutamento, isto é inglês, economia, matemática, físico-química, em função das vagas. Vou trazer exemplos do meu grupo, economia, onde tenho duas colegas contratadas com horário completo, uma vivendo a 100 Km e outra a 50 Km, e dois colegas com horários incompletos de 14 horas, um apanhou um horário residual e outro substitui uma colega em situação de doença. Estes últimos têm a residência a cerca de 20 Km. Logo neste caso, verifica-se que há quem concorra a horários completos longe de casa para ingressar nos quadros e quem opte por concorrer para mais perto sacrificando uma parte do rendimento e da reforma. Estes quatro colegas andam na faixa etária dos 40 anos com filhos. Portanto, na faixa dos 40 anos há professores sem emprego fixo impondo de uma maneira ou de outra sacrifícios às suas famílias. Também tenho uma familiar de físico-química com cerca de 40 anos e horário incompleto. De seguida apresento a tabela de vencimentos dos professores, para perceberem quanto ganham estes colegas. Como não estão na carreira ganham pelo índice 151, ou seja, 1373,13€, o que líquido dá 1127,97€ se forem casados só um titular. Concluindo, até entrarem para os quadros os professores, ganham cerca de 1100€ líquidos e podem passar vários anos nesta situação. Os colegas com horário incompleto recebem em proporção das horas de trabalho.

 

 

Escalão

Índice

Vencimento base

ordenado líquido

 

151

1 373,13 €

1 127,97 €

167

1 518,63 €

1 221,37 €

188

1 709,60 €

1 336,64 €

205

1 864,19 €

1 411,82 €

218

1 982,40 €

1 494,90 €

235

2 137,00 €

1 582,07 €

245

2 227,93 €

1 622,82 €

272

2 473,46 €

1 767,75 €

299

2 718,99 €

1 902,68 €

340

3 091,82 €

2 068,45 €

10º

370

3 364,63 €

2 208,70 €

 

Entrando na carreira, até ao quarto escalão precisam de 16 anos para progredirem – antes o tempo de serviço como contratados contava para a progressão, mas agora não conta -, além de aulas assistidas em 2 momentos e formação de cerca de 25 horas por ano, ou seja mais 3 dias de trabalho anuais não contabilizado no horário. Quem tiver conseguido entrar para os quadros estará na casa dos 50 e poucos anos e atingirá um vencimento bruto de cerca de 2000 €, levando para casa 1500€. No final do quarto escalão têm outro obstáculo na carreira, a progressão para o 5 º escalão está sujeito a vagas a nível nacional, podendo ficar retido anos, por efeito de este mecanismo.

Um mecanismo idêntico acontecerá na passagem do 6º para o 7º. Portanto nos casos que temos acompanhado, quando estes professores atingirem os sessenta anos, se tudo lhes correr bem, terão atingido o 7º escalão com cerca de 2500€ brutos e cerca de 1750€ líquidos. Reformando-se aos 66 estarão no 8º escalão com 2719€ brutos e levando para casa cerca de 1900€.

Concluindo, ser hoje professor em Portugal exige uma vida de muito sacrifício, como andar com a casa às costas e estar longe da família até se atingir um lugar no quadro numa primeira fase. O tempo desta fase é variável, mas a partir de casos verifiquei que há professores que aos 40 anos andam com a casa às costas ou a fazer viagens desgastantes. Depois de mais cerca de 15 anos (sem contar com o congelamento) enfrentará um número clausus nacional para progredir ao 5º escalão segundo obstáculo não dependente do professor. O mesmo acontecerá no 7º escalão. Assim, se tudo lhe correr bem reformar-se-á no 8º escalão, descontando os seis anos e meio de congelamento ficar-se-á pelo 7º escalão.

Com estas dificuldades começa a haver falta de professores porque esta carreira não é motivadora.