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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Janeiro 15, 2020

A questão das aulas do século XX no século XXI.

vai-teaosprofessores

Num artigo recente o Alexandre Henriques aborda este tema. Quero aqui dar testemunho do meu caso pessoal.

Antes da interrupção letiva mandei um email à direção da minha escola a solicitar uma sala de informática para os alunos poderem realizar um trabalho, que contaria para avaliação, durante duas semanas. É uma turma dos profissionais, para quem o Conselho Pedagógico aprovou que se deveria ter no mínimo 40% da avaliação modular no âmbito do saber fazer. Além disso, a prática de execução de trabalhos pelos alunos é essencial para prepararem a sua PAP (prova de aptidão profissional no 12º ano).

Quando, no segundo período, regressámos ao trabalho passei pela direção para saber como estava a marcação. Foi-me dito que estavam a estudar o assunto e que havia um dia em que havia dificuldades de marcação, pois havia 3 candidatos à única sala livre. Estamos perante recursos escassos que inibem as aulas tipo século XXI por falta de investimento do ministério da educação.

Na primeira semana de aulas tive de alterar a programação feita por não ter sala de informática. Para a segunda semana foi-me atribuída a sala, por terem considerado que a matéria a lecionar era a que mais exigia uma aula com computadores.

Relacionando com a descentralização em curso, como o meu concelho aderiu à descentralização em educação, acho que é à câmara municipal que caberá garantir o apetrechamento de condições tecnológicas do século XXI para as escolas daqui para a frente, nomeadamente o apetrechamento de mais salas de informática que permitam assegurar um ensino diferente. A propósito deste tema o JN tem uma notícia na página 8 do dia 14/1/2020, em que explicita que a descentralização na educação deu prejuízo de 48 milhões ao norte. No corpo da notícia é dito que «todos os municípios da região apresentam um total de despesa elegível…superior a 100% da atribuída pelo OGE 2018».

Concluindo, no meu local de trabalho há rateio de salas de informática para se assegurar um ensino do século XXI. Para o futuro a responsabilidade de resolver o problema caberá ao executivo municipal e não ao ministério da educação, que faz leis para alterar o ensino, mas não deu condições para serem executadas e agora «passa culpas» para os municípios. Veremos se esta proximidade resolve o nosso atraso tecnológico, mas para já os municípios estão a financiar a educação acima do envelope financeiro cedido pelo governo que acompanha a descentralização.

Janeiro 09, 2020

Comparação entre professores e médicos na atitude do governo

vai-teaosprofessores

Começo por desejar Bom Ano a todos os leitores.

O meu tema de hoje é fazer um cotejo entre o tratamento das agressões a professores e das agressões aos médicos.

No que se refere às agressões a professores a opinião pública e a imprensa já começa a apropriar-se deste fenómeno. Contudo, continua a faltar os poderes políticos intervirem. Houve uma intervenção do ministro que prometeu falar com a justiça para analisar o problema do ponto de vista de ser considerado crime público.

No caso dos médicos houve logo reação da ministra da saúde, que reuniu com a ministra da justiça e com o ministro da administração interna para abordar a situação. Não sei se na prática haverá mais do que estas reuniões, tanto mais que a medida de criar um gabinete de segurança, foi considerada pelos médicos e enfermeiros uma medida paliativa, mas pelo menos houve uma mensagem de preocupação do governo com os médicos. No caso dos professores ficou-se por uma promessa de analisar o assunto sem consequências ou reunião.

Esta diferença reflete o quê? Diferença de peso dos ministros, o facto de a saúde ser prioritária para este novo governo? Não sei responder e escolher uma hipótese, mas já nos habituámos (os professores) a ser insignificantes para o atual ministro, que nem soube aproveitar as reuniões das suas colegas da justiça e da saúde para se colar ao processo. Mais uma vez desperdiçou uma oportunidade de defender os professores.

Também podemos analisar as causas das agressões. Se descontarmos os comportamentos agressivos patológicos, na saúde as agressões são também um grito de desespero pelas horas de espera nas urgências ou da dificuldade em se ter consulta a tempo e horas. Talvez descarregando a frustração pela ineficiência dos serviços em quem dá a cara. Portanto, há aqui uma revolta contra as opções das escolhas governativas.

Já na educação o que está em causa é a super proteção dada aos filhos, a par de uma desvalorização social da classe docente, resultante de uma política deliberada e de uma educação facilitista, sem pôr recursos na resolução das dificuldades. O caso do anúncio de novos 2000 professores que na maioria vieram substituir colegas é paradigmática de uma demagogia por parte do poder político no setor da educação, que não quer resolver problemas mas varre-los para baixo do tapete por via administrativa.

Concluindo, na comparação entre o tratamento das agressões a professores e a médicos, ressalta que mais uma vez o ministro não está ao lado dos professores. Quanto às causas, se na saúde a falta de investimento afeta todos, na educação estamos perante uma opção política que retira estatuto aos professores pela via monetária – o caso do tempo de serviço por contar - e pela via educativa, tornando-os em executores (não seres pensantes) de uma política que desvaloriza o professor e o conhecimento, na medida em que procura soluções administrativas e não encara os problemas de frente disponibilizando mais recursos para se alcançar o conhecimento, embora procure passar essa mensagem com recurso à demagogia.

Dezembro 04, 2019

A indisciplina é um fator a ter em conta na melhoria da escola portuguesa.

vai-teaosprofessores

A segunda página do JN de 3 de dezembro tem o título: indisciplina nas aulas penaliza resultados dos alunos portugueses. Na notícia é explicitado que «mais de metade dos alunos portugueses (53.5%) assumem não ouvir o que os professores lhes dizem em algumas aulas e cerca de 1/5 em muitas aulas». «Cerca de um terço (30%) queixa-se que os professores, em muitas (19.6%) ou em todas as aulas (8.7%) demoram muito tempo a conseguirem acalmar a turma». «Na avaliação da leitura, os alunos que se queixam de ter sempre barulho e indisciplina nas aulas tiveram menos 17 pontos dos que garantem não ter indisciplina a perturbar as aulas».

Um dos meus temas principais em educação é precisamente as escolas serem muito permissivas com a indisciplina, quer a de baixa intensidade que fazem diminuir a produtividade das aulas e distraem os alunos, quer a de alta intensidade, que entra no registo disciplinar e obriga os professores a tomarem medidas disciplinares, que tem um contador no ComRegras para os casos mais graves.

Tenho alertado que em geral as direções dão pouca atenção aos problemas de indisciplina, a lógica é evitarem serem falados. No que toca à legislação, nomeadamente o estatuto do aluno, precisa de ser melhorado para agilizar as formas de castigo relacionadas com serviço comunitário.

Ainda recentemente num conselho de turma intercalar, um encarregado de educação não percebia porque o seu educando tinha piorado e tentámos explicar-lhe que o comportamento da turma se tinha degradado e que o seu educando era vítima do contexto, primeiro porque a eficácia das aulas estava mais comprometida pela indisciplina, segundo porque agora o educando se deixava mais ir pelo ambiente envolvente, prejudicando o seu empenho, ou seja, estava mais vezes distraído com as ações dos colegas. Por fim percebeu e recomendou aos professores mais rigor, mas muitos encarregados não entendem que a ação dos outros alunos podem prejudicar os seus educandos, em especial numa idade em pautam comportamentos pelos grupos de pertença. Também em post anterior fiz uma descrição de uma aula, perturbada por atrasos dos alunos e por problemas disciplinares e sua consequência na matéria lecionada e como lecionada, https://contraofacilitismo.blogs.sapo.pt/uma-aula-com-alunos-indisciplinados-66341, de 16 de outubro de 2019.

Concluindo, estar atento à indisciplina pode melhorar os resultados escolares, para isso é preciso empenho dos professores e principalmente apoio das direções no combate a este flagelo, enfrentando o problema e não o metendo para baixo do tapete. Também é preciso agilizar o estatuto do aluno.

 

Novembro 27, 2019

Ainda a propósito do sucesso a 100% até ao 9º ano.

vai-teaosprofessores

O SE Costa brindou-nos, referindo-se a este tema, num artigo de opinião com o seguinte argumento:  «o propósito economicista não encontra respaldo no investimento continuado em medidas de apoio à diminuição da retenção: só na última legislatura, foram contratados mais de 300 psicólogos, alocadas dezenas de milhares de horas da componente letiva a tutorias, reforçadas as equipas docentes para os planos de ação do Programa Nacional para a Promoção do Sucesso Escolar em cerca de 800 professores, aumentado o crédito horário das escolas TEIP (…), mobilizados 100 milhões de euros dos fundos comunitários em projetos de combate ao insucesso.»

O problema é que o que nos diz é uma gota de água no oceano para as necessidades de uma política séria de combate ao insucesso escolar. A título de exemplo na escola onde leciono, os meios disponibilizados só permitem que haja coadjuvação, nas disciplinas com exames, uma vez de 15 em 15 dias. Isto significa, que nas disciplinas de 4 horas haverá dois professores na turma em 1/8 das aulas, nas disciplinas com 5 horas haverá 2 professores na turma em 1/10 das aulas e assim sucessivamente. Isto é a oferta pública, a oferta privada, aqui apresentada como contraponto à oferta pública, as ditas explicações, têm no mínimo 3 horas por semana, ou seja há um reforço educativo de pelo menos 75% (3/4) para as disciplinas de 4 horas semanais, baseadas na relação de um professor para seis alunos (exemplo que conheço). Quanto às tutorias, tenho-as pedido mas não têm sido atribuídas.

Assim, o que o SE Costa ofereceu à minha escola foi uma migalha comparando com a procura da solução privada, as explicações.

O que está errado é a partir desta migalha se exigir o sucesso a 100% até ao 9º ano. Direi mais estamos no campo da demagogia. Nem sequer se pode falar em copo meio cheio, nesta analogia deve-se falar em copo quase vazio ou numa migalha.

Além disso, quero dizer que tenho 2 horas semanais na sala de estudo, o que não é novo no sentido que não foi instituído por esta equipa ministerial, mas sem alunos. Aqui podia-se aproveitar melhor estas horas. Portanto, em termos de organização podemos melhorar para responder ao problema do insucesso.

Concluindo, o sucesso a 100% até ao nono ano com os atuais meios disponibilizados é pura demagogia e uma forma de pressão sobre os professores.

Novembro 13, 2019

O Estado social, a degradação da educação e a opinião pública.

vai-teaosprofessores

O estado social é um conceito que significa que o Estado promove medidas que garantam o acesso à educação, à saúde e segurança social, como forma de reduzir desigualdades e promover igualdade de oportunidades. É um elemento caraterístico do modelo europeu.

Quando o Estado não assegura a educação de forma eficiente são os mais desfavorecidos que saem a perder, na medida em que os que têm rendimentos podem sempre escolher os privados. Enfraquecer o estado social é promover os negócios privados na educação e saúde.

Desde a intervenção da troica que houve desinvestimento no estado social. Na saúde tem passado para a opinião pública esse desinvestimento, com os problemas nas urgências. Na educação, depois de uma fase em que houve intensificação do trabalho dos professores, mesmo sem alteração do horário, com a passagem de trabalho não letivo para trabalho com alunos, que devia ser letivo. Ou seja, com os outros funcionários públicos houve redução da jornada de trabalho para as 35 horas, mas com os professores não houve desagravamento da intensificação do trabalho. A preocupação com o défice está agora a criar constrangimentos ao nível dos funcionários e de turmas sem alguns professores.

O que interessa realçar é que os constrangimentos orçamentais impostos para se obter o saldo orçamental nulo começa a ter consequências na educação, ao nível da falta de funcionários e da falta de professores. Pela avalanche de casos não são problemas residuais. Começa também a opinião pública a tomar consciência das consequências desta política, que até agora estava camuflada pela intensificação do trabalho dos professores e por isso pelo agravamento do burnout entre os docentes, consequência com pouco impacto mediático por só afetar os professores.

Numa conjuntura de insuficiência de recursos para promover o estado social a meta de taxa de retenção nula no ensino básico só pode ser conseguida administrativamente. Claro que os professores desejam ter 100% de sucesso, mas sem baixar o nível de exigência, pelo que a taxa de retenção nula é desejada se apoiada em mais recursos, traduzidos em turmas mais pequenas, mais coadjuvação e mais apoio. Como não há dinheiro e já há falta de professores, só resta a via administrativa!

Outro problema que aparece agora na opinião pública é a da agressão a professores e funcionários. Aqui estão em causa vários fenómenos. Um deles é a atitude parental de super proteção aos filhos únicos. Outra é a degradação social da condição de professor que o torna um alvo mais fácil, consequência dos ataques à classe desde a MLR/Sócrates, que se traduziu na degradação do exercício da profissão com mais burnout e degradação salarial, o que leva a menor respeito social. A diminuição das taxas de retenção também se traduziu em mais indisciplina por estramos a premiar com pseudo sucesso alunos indisciplinados e, portanto, a reforçar tais comportamentos. Alguns pais não compreendem as passagens administrativas se os seus filhos não estão comtemplados. Alguns pais não entendem a necessidade de regras sociais quando aplicadas aos seus filhos. Daí as agressões. Fala-se em endurecer as penas a polícias e bombeiros agredidos, mas ninguém fez uma proposta sobre professores.

Concluindo, o ministro cientista começa a sentir na pele o que aceitou fazer, gerir a educação sem meios, mas teimando em prosseguir uma política para diminuir a retenção, a degradação da condição de trabalho e de vida dos professores, traduzida nas medidas universais e numa forte pressão para se implementar as passagem administrativas, argumentando que mesmo sem recursos «haverá oportunidade de recuperar as aprendizagens mais à frente no percurso do aluno». Mas o que se passa é estarmos a premiar a indisciplina, o absentismo e o desinteresse, tudo em nome da escolaridade obrigatória (será necessária?) e da flexibilidade (igualdade de oportunidades não é facilitismo). Temos estado a adiar a resolução dos problemas e eles começam a emergir e a passar para a opinião pública. A responsabilidade é sua Sr. Ministro e não a passe para outros: professores e diretores (como ontem fez na questão dos funcionários).

Novembro 06, 2019

Ainda a questão da gestão escolar a propósito da influência dos diretores na motivação dos professores.

vai-teaosprofessores

O Alexandre Henriques fez aqui no Com Regras uma referência ao artigo do Público  de segunda feira 4/11 sobre a influência decisiva na motivação de professores em https://www.comregras.com/a-relacao-diretor-professor-e-tao-importante-como-a-relacao-professor-aluno/.

Quem me segue sabe que esta tem sido uma das bandeiras das minhas opiniões: a gestão escolar é um fator decisivo para a existência de práticas democráticas nas escolas. Tenho posto o acento tónico na necessidade da escola ter práticas democráticas como exemplo e como preparação para a vida adulta e também como forma de combater o absentismo eleitoral que tem vindo a crescer.

O estudo da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto aborda o estilo de liderança e sua influência na motivação dos professores e encontrou uma «correlação positiva entre a forma como são geridos os estabelecimentos de ensino e a relação que os docentes têm com a profissão, no sentido de os professores vestem mais a camisola se a liderança da escola for ética».

É dito também que «a liderança despótica está negativamente correlacionada com o compromisso dos docentes».

A diferença de abordagem deste estudo da minha análise centrada na necessidade de práticas democráticas leva a conclusões diferentes, os autores do estudo propõe condições de acesso ao cargo de diretor, enquanto a minha solução é o regresso à democracia direta e a eleição de um órgão colegial.

Contudo, acho importante a divulgação do dito estudo que é mais um alerta para as práticas despóticas que se têm vindo a generalizar-se nas escolas.

Tenho evitado referir-me a experiências pessoais, mas é oportuno neste contexto referir que há alguns anos atrás escrevi uma carta aberta e na sequência da mesma tive um processo disciplinar, o que demonstra o clima antidemocrático de intimidação e tentativa de calar pensamentos alternativos e diversos. Este exemplo é demonstrativo de que nem sequer a alternativa é tolerada por certos diretores.

Depois temos aqueles casos mais comuns como castigar um professor ou professores com maus horários e com sobrecarga de trabalho em virtude de ousarem pensar de forma diferente. Para não falar em vaidades ou soberbas como o único carro a entrar no recinto escolar ser do diretor!

Concluindo, o artigo do Público levanta um tema pertinente, mas é tímido na solução, pois não basta impor condições de acesso ao cargo de diretor é preciso introduzir uma verdadeira democracia como forma de preparar os discentes para a prática democrática e de promover uma escola aberta ao debate que impeça práticas despóticas, como perseguir a opinião diversa. A democracia pode não impedir totalmente práticas despóticas mas cria sistemas de contrabalanço às mesmas que  as tornam a exceção e não a regra como tende a acontecer com o atual modelo. É aqui que acho insuficiente a conclusão do estudo, pois criar «condições de acesso ao cargo» parece-me muito pouco.

Outubro 28, 2019

O programa do governo e a educação.

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior a questão do modelo de gestão foi por mim considerada a principal questão para haver uma escola onde se praticasse a democracia e onde se estimulasse a participação como preparação para a vida adulta. Ora, no dito programa, aparece uma referência a esta questão no sentido de adequar o modelo de gestão «ao novo quadro que resultou do processo de descentralização e aos progressos feitos em matéria de autonomia e flexibilização curricular». Portanto, subordinação ao poder autárquico sem nenhuma preocupação em fomentar a democracia direta. Ao mesmo tempo promete-se a valorização das funções de direção, incluindo as chefias intermédias - lembram-se das propostas do Arlindo, que foram por mim comentadas na altura, de reservar os últimos escalões para a direção, incluindo coordenadores de departamento? Pareceu-me um ensaio de revisão da carreira docente e agora esta frase genérica revive o assunto, será coincidência?

Ainda relacionado com isto temos o debate sobre «em torno das carreiras da Administração Pública é inevitável. As progressões na Administração Pública custam todos os anos 200 milhões de euros. Deste valor, quase 2/3 é gasto em carreiras especiais em que o tempo conta no processo de progressão, e que cobre cerca de 1/3 dos trabalhadores do Estado. Este desequilíbrio deve ser revisitado. O aumento desta despesa não pode continuar a limitar a política salarial na próxima década e a impedir uma política de incentivos na Administração Pública que premeie a excelência e o cumprimento de objetivos predefinidos.» Esta parte do programa do governo remete para uma alteração profunda no modo de progressão da carreira dos professores, a ser negociada pela nossa ex-secretária de Estado, agora ministra, precisamente com a responsabilidade das carreiras da administração pública e profunda conhecedora da carreira dos professores, o que não me parece uma simples coincidência.

Depois realçaria a continuidade da procura do sucesso administrativo, agora assumido explicitamente: «Criar um plano de não retenção no ensino básico». Esta visão da escola encontra-se nos antípodas das necessidades de acabar com a indisciplina e promover a responsabilidade, a minha segunda prioridade na educação. Lembro-me de num conselho de turma intercalar uma mãe ter dito que os problemas de indisciplina eram previsíveis uma vez que no ano anterior os alunos indisciplinados e com aproveitamento negativo tinham sido premiados com notas votadas, pelo que não tiveram qualquer motivação para mudarem, antes pelo contrário, pelo que não entendia a queixa dos professores sobre o seu comportamento já que este era expectável.

 Depois a referência ao que pode ser um doce, inserido numa lógica de valorização dos professores em início de carreira (também prometido na carreira de técnicos superiores), a promessa de uma revisão do modelo de concurso para professores e dos QZP.

Concluindo, leio que no programa de governo para a educação uma revisão profunda da carreira docente com o objetivo de reduzir os escalões de acesso a todos os docentes, mantendo os escalões de topo só para alguns, talvez para a direção e chefias intermédias. Leio também a manutenção da indisciplina e a não responsabilização do aluno. O caminho é garantir aos alunos com dificuldade de aprendizagem essa aprendizagem, sem diminuir o nível de exigência, caminho este que parece não ser o do governo que quer resolver o problema do insucesso sem gastar recursos e apela via administrativa.

 

 

Outubro 23, 2019

A falta de professores e a agressão a um aluno por um «professor».

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior chamava a atenção para a falta de professores como um problema da educação, com impacto residual, mas que se pode tornar um problema estrutural a prazo. Dizia também que para quem navega (governa) à vista o mais provável é ignorar os problemas que não são prementes.

Por outro lado, foi notícia esta semana a agressão de um professor a um aluno por causa de um telemóvel. Uma agressão é sempre uma agressão que devemos repudiar e que envergonha a classe.

Mas depois soube-se que este «professor» foi contratação de escola e não tem profissionalização. É, portanto, um professor de recurso e não de carreira que encontrou trabalho no ensino sem estar preparado para este trabalho – nos Estados Unidos distingue-se o professor preparado do professor inexperiente chamando a este de professor substituto. Mais, isto aconteceu numa das áreas carenciadas do ensino em certas regiões: a informática. A conexão entre falta de professores e «professores» agressores está feita.

Confesso que não previ que o problema da falta de professores pudesse causar um problema destes, isto é, o recurso a profissionais pouco preparados pudesse levar a uma situação mais grave que é o uso da agressão por parte de um «professor». Mais uma vez me enganei, o que previa ser um problema residual, acabou por se transformar, por falta de preparação de uma pessoa ou temperamento, num problema grave e inadmissível, como o recurso à violência, que vai ser usado conta a classe.

Neste artigo refiro-me ao colega agressão como professor com aspas e identifico esta situação como uma falha do sistema que está a levar a haver contratação de professores sem que estes estejam preparados para o serem. Mas esta não é a visão de todos, uns dirão que isto é um mau exemplo da profissão, mas esquecem-se que este não era um profissional, pois não tinha a parte da profissionalização. Quando comecei a dar aulas havia também o recurso a pessoas só com formação superior mas sem preparação para serem professores, mas em geral estes ficavam com o ensino noturno para adultos, que hoje já não existe. Isto é, não tinham logo que enfrentar adolescentes, alguns revoltados por terem de andar na escola, o que exige o desenvolvimento de técnicas e estratégias para os trazer para dentro da escola.

Concluindo, há um recuo do recrutamento residual para o ensino ao que se passava nos anos oitenta: o recrutamento de pessoas com formação técnica, mas sem a componente psicológica, sociológica e pedagógica, que todos os professores necessitam. A eliminação deste tipo de recrutamento a partir dos anos noventa traduziu o maior acesso dos jovens ao ensino superior e o desenvolvimento das escolas de educação no ensino superior. Recuar no tempo é um sinal de alarme.

Em contraponto, continuam os casos de agressões a professores e funcionários, mas como este tipo de notícias já caiu na rotina, estes casos passam para segundo plano. A violência deve ser condenada em qualquer circunstância e neste caso o que está por detrás da notícia também deve preocupar os decisores públicos: a perda de autoridade do professor. Como mostrei em artigo anterior a indisciplina mina o funcionamento das escolas e prejudica também os alunos empenhados e esta deriva também da perda de autoridade do professor.

Por último, constatar que o «professor» agressor foi logo preso – o que me parece correto – enquanto os agressores de professores e auxiliares educativos aguardam por queixa e por inquérito judicial – aqui é que acho que devia haver o mesmo tratamento por parte das autoridades.

Outubro 16, 2019

Uma aula com alunos indisciplinados

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Aqui vai o resumo de uma aula pouco produtiva. O professor chega 3 minutos depois do toque, só 1/3 dos alunos está já à espera do professor. Os outros vão chegando a conta-gotas, os últimos apareceram já passava 15 minutos depois do toque. A partir dos 5 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que será marcada uma falta de atraso (a cada 3 destas faltas corresponde uma falta de presença). A partir dos 10 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que terão falta de presença. A aula arrancou aos solavancos e sempre a ser interrompida, o que não permite que haja ambiente de trabalho e concentração.

Depois há vários incidentes disciplinares, há alunos apanhados ao telemóvel, há alunos a conversar, tudo isto obriga o professor a interromper o assunto da aula e a tratar destes incidentes. Um dos alunos é apanhado uma segunda vez ao telemóvel e o professor manda o aluno para a biblioteca, seguindo o regulamento interno, pelo que sai da sala para chamar a auxiliar educativa para acompanhar o aluno e escrever num papel o motivo da ordem de saída da sala de aula e que trabalho deve o aluno fazer na biblioteca, onde um professor, de serviço na biblioteca, vai fazê-lo cumprir a atividade.

Aqui duas coisas podem acontecer, ou o aluno vai para a biblioteca ou recusa-se a ir, como algumas vezes acontece e a funcionária regressa à sala de aula para comunicar que o aluno se recusou a cumprir a tarefa, o que deverá dar origem a uma participação disciplinar grave, que vai originar um conselho de turma para propor à direção uma medida disciplinar. As ordens de saída da sala de aula só ao fim de 3 dão origem a processo disciplinar.

Com isto já passaram 2/3 do tempo de aula (50 minutos), o professor queria dar um dado tema e não conseguiu, o planeamento ficou comprometido. Para o último terço estava previsto a resolução de exercícios. O professor decide avançar para o exercício e explicar como resolvê-lo, quando devia ter dado oportunidade aos alunos de tentarem a sua resolução, num processo construtivista, mas não teve tempo.

Concluindo, a indisciplina mina o processo de ensino / aprendizagem, prejudicando o decorrer da aula e acima de tudo os alunos que querem aprender. Depois existe uma imensa burocracia de papelada a preencher, alguma durante a aula e outra depois se a situação for grave, neste último caso vai ser convocado um CT e vai-se discutir medidas disciplinares, sabendo nós que enviar alguém para casa com suspensão de dias é um prémio para o aluno, que se vai vangloriar de não ir à escola, havendo inúmeras dificuldades em implementar outro tipo de medida, como trabalho comunitário, que deve ter a concordância dos pais e da direção, que alega não ter funcionários para acompanhar os alunos castigados.

Outubro 09, 2019

Aproxima-se uma crise no ensino devido à falta de professores?

vai-teaosprofessores

A resposta a esta pergunta passa por equacionarmos várias situações:

Em primeiro lugar o ataque feroz à profissão que vem do tempo da Maria de Lurdes Rodrigues e com a crise a desvalorização da carreira quer socialmente quer monetariamente pode estar a afastar candidatos a professores da profissão, como nos mostram a diminuição de candidatos aos cursos de formação de professores.

Depois quem entra na profissão sofre para entrar na carreira, ou seja, sofre para entrar no quadro. Do ponto de vista do professor: tem um salário mais baixo correspondente à pré-carreira, é afastado da família ou tem um desgaste (pessoal e custos acrescidos) com os quilómetros que tem de fazer. Esta precariedade prolonga-se pelo menos durante uma década na maioria dos casos. Ma s o ensino também fica pior com o arrastar da precariedade como nos bem descreve Guinote  em https://www.comregras.com/descontinuidade-pedagogica-paulo-guinote/, num artigo com um título sugestivo, «descontinuidade pedagógica».

Por outro lado, esta precariedade é agravada com o que se passa na sociedade na perspetiva do imobiliário, onde com o preço proibitivo da habitação, em especial no arrendamento, que é a solução para os professores deslocados da sua habitação familiar, tem afastado os professores de certas zonas como o Algarve e Lisboa, aparecendo cada vez mais situações de horários que não são preenchidos. Já agora a este propósito salienta-se que entre os médicos, juízes e professores, estes últimos são os únicos que não têm apoios para ter habitação quando deslocados, quer do governo central quer do local, o que é mais um indicador da perda de estatuto social.

Outro aspeto desta questão é a intensificação da intensidade do trabalho devido à implementação de estratégias de combate ao insucesso escolar, à custa de trabalho com alunos em tempo não letivo e à intensificação de reuniões de coordenação, tudo isto aumentando o trabalho burocrático. Este aspeto tem levado ao burnout, o que faz com que os atuais professores não incentivem o ingresso na profissão.

Concluindo, contrariamente ao que o PM Costa disse num debate, que só é necessário mexer na carreira / aposentação dos monodocentes, há muito trabalho a fazer na área da educação para garantir que a profissão docente não entre em crise aguda. Mas como possivelmente uma crise aguda não estará no horizonte de uma legislatura, o mais provável é nada ser feito. A ser assim, corre-se o risco de a médio prazo surgir a tal crise, ainda que ano após ano, os sinais que já existem se vão agravando. Por tudo isto, um governo com apoios pontuais no parlamento será uma solução que pode adiar medidas de fundo necessárias para o ensino incentivando a tática da avestruz que é ignorar os problemas quando não são permentes.