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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Junho 20, 2011

Crónica de uma acção de formação: correcção de exames nacionais.

vai-teaosprofessores

1. O objectivo desta formação foi formatar os professores, à boa maneira tayloriana, com vista a seguirem as instruções do Gave.

2. O modelo de prova não se discutiu, mas é aí que está o problema principal, quando as perguntas já contêm as respostas. Não faço perguntas deste tipo nos meus testes. Já agora não existem nos exames desta minha disciplina uma pergunta de desenvolvimento de grau de dificuldade elevado e devia haver, para que o exame distinguisse correctamente os alunos de elevadas notas. Com este tipo de exame um aluno médio pode tirar uma boa nota.

3. Verificaram-se discrepâncias entre os professores presentes entre 14 e 18, ou seja, o aluno pode ver a sua nota variar em 4 valores conforme o corrector que lhe calhe (dados para a formação em que estive presente e para correcções de perguntas da parte sem escolha múltipla).

4. As discrepâncias maiores têm a ver em como classifica a resposta de um aluno que copie o texto, em que os professores dos centros urbanos não deram cotação e os da periferia deram o máximo. Este foi o grande debate, de facto está nos critérios gerais que o aluno deve «produzir» um texto, mas tem sido prática aceitar as cópias integrais. Estou de acordo que o aluno deve produzir um texto próprio com introdução, desenvolvimento e conclusões, mas tenho consciência que esta exigência favorece os alunos com capital cultural acumulado no seio da família. Por outro lado, penso que só com exigência a escola serve de instrumento de ascensão social.

5. Outra discrepância detectada tem a ver como os diferentes classificadores avaliam os erros, havendo quem os valorize e desconte e quem não os valorize e nada desconte. O Gave pretende que os erros sejam desvalorizados quando o aluno respondeu certo à questão, mesmo que se contradiga a seguir. Não concordo, os erros são para descontar porque mostram que o aluno por exemplo aplica uma fórmula, mas a seguir não consegue comentar o resultado, mesmo que este comentário / interpretação não seja pedido.

6. O Gave foi muito «eduquês» no ponto 5 e o contrário no ponto 4. Esta contradição será fruto da viragem que se adivinhava com o fim do consolado facilitista (MLR e Sócrates) na educação?

7. A acção foi útil pela discussão que promoveu entre pares e é essa que retenho, ao mesmo tempo que relativizo as intrusões do Gave.

8. Já agora como se escolheram os monitores desta formação (?), o meu era muito pouco experiente e daí talvez ser mais fácil a sua formatação e ter a certeza de que vai replicar sem questionar as instruções. Estamos a desvalorizar a  experiência com este tipo de monitores. Os monitores têm de ser respeitados pela sua formação académica adequada ou pela sua experiência, senão cheira a favores pessoais...

 

Junho 06, 2011

A derrota de Sócrates espero que seja o princípio do fim do facilitismo.

vai-teaosprofessores

A derrota de Sócrates julgo ser uma derrota do facilitismo, pois Sócrates era pelo seu percurso educativo e pelas políticas aplicadas viradas para resultados estatísticos, um símbolo do facilitismo.

O seu exemplo mostrava que se podia fazer disciplinas por fax e ao fim de semana. Um pouco como o que se passa nas Novas Oportunidades, que sendo uma ideia interessante, é aplicada de forma facilitista, com trabalhos feitos sabe-se lá por quem.

A preocupação das políticas educativas eram viradas para as melhorias estatísticas e não para mudanças estruturais, ainda que a escola a tempo inteiro seja uma boa ideia, mas só gastando recursos como o fez no básico se conseguiu concretizá-la efectivamente. Nos outros níveis de ensino procurou concretizá-la sem gastar recursos e não há resultados, além de maior sobrecarga dos professores. Na parte final do seu governo recuou acabando com algumas disciplinas que só têm lógica na escola como ocupação formativa dos tempos livres, isto é, não são muito importantes para o conhecimento, mas teriam lugar para manter os alunos ocupados de maneira não muito exigente e para ajudar os alunos com dificuldades: estudo acompanhado, área de projecto, etc.

Os professores foram diabolizados e nada se faz de melhor sem eles, cometendo aqui um erro estratégico.

A actual avaliação de professores continua a ser burocrática e para inglês ver: basta preparar bem duas aulas e já está, podendo o resto continuar na mesma. Alguns avaliadores não são exemplo para ninguém, aumentando a conflitualidade dentro do corpo docente.

A reforma do parque escolar é bem vinda mas desarticulada da política educativa, pois ao mesmo tempo que se aumenta a capacidade de algumas escolas secundárias, deixa-se algumas escolas com 3º ciclo passar a ter secundário. A contradição está que se era para ser assim as escolas remodeladas poderiam ser mais pequenas (tenho em mente o que se passa no Conselho de Felgueiras, em que se aumenta a capacidade da secundária, ao mesmo tempo que 2 escolas de 3º ciclo passam a ter secundário). Pessoalmente a maior crítica a fazer às novas escolas contruídas é ter-se perdido a oportunidade de redimencionar o tamanho das escolas e reduzi-las para escolas com menos de 1000 alunos, como acontece na Filândia. Na educação «small is beautiful».

Espero que se comece a desmanteler daqui para a frente a filosofia facilitista, mas não tenho ilusões de que se o símbolo desta caiu, ainda falta combater as mentalidades que a ela aderiram e aqui há um longo caminho a percorre, justificando-se a continuação deste blog, na denúncia das mentalidades facilitistas que vão continuar por inércia ou mesmo convição.