Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Junho 07, 2016

Supervisão mais um meio para controlar os professores?

vai-teaosprofessores

A motivação da minha participação nesta ação de formação visou responder às perguntas: para que serve a supervisão educativa? Qual o papel das aulas assistidas na supervisão?

No que vem de fora para dentro da escola realço uma característica de forte centralização existente nas organizações educativas, em que do centro emanam diretrizes que se espera sejam replicadas pelo sistema[1]. Dentro da própria escola, aplicando uma perspectiva sociológica (interpretativa) do seu significado para os atores, há várias soluções organizativas, mas o modelo centralizado tende a reproduzir-se, com a transformação dos coordenadores de departamentos em liking-pins[2], exemplo paradigmático deste centralismo também dentro da escola. Estamos perante uma tendência que visa transformar os professores de seres reflexivos em seres obedientes, que visa transformar a diversidade em unicidade, através de práticas mais ou menos impositivas, em prejuízo da democracia e da participação, conforme a Constituição e a LBSE[3] prescrevem. A supervisão pedagógica, centrada nas aulas assistidas é mais um instrumento desta mudança de paradigma, de uma escola democrática, participativa e centrada na autonomia do professor para uma escola mercantilizada, gerida por teorias da gestão empresarial, em que o professor tende a ser formatado, em contraponto ao professor como agente livre[4], autónomo e crítico.

Do ponto de vista normativo é de realçar que as novas orientações não tenham cobertura em documentos legais, mas num parecer do CNE[5] e apareçam implementadas pela IGEC[6], principalmente através dos planos de melhoria, onde se impõe a generalização de aulas assistidas. Ou seja, a orientação ideológica da mercantilização da educação, a par da gestão unipessoal como nova centralidade educativa, com vista ao controlo e regulação dos professores, está a entrar nas escolas sem debate e sem suporte normativo.

Como nos foi apresentado nesta formação[7] estamos, perante o crescimento dos instrumentos de controlo e normativização pedagógica travestidos de instrumentos de coordenação e regulação, como a perda de autonomia profissional à boleia de certa ideia de supervisão; a supervisão como sucedâneo da avaliação normativa, prescritiva e estimativa; a supervisão como mecanismos de despolitização da profissão e da escola.

Também como explorei na minha tese de mestrado (nota 1) há resistências a esta mudança que nos tem sido imposta sub-repticiamente. Esta resistência será tanto mais bem-sucedida quanto mais os professores estiverem informados sobre o tema e desse ponto de vista esta formação é importante e pertinente.

A solução é procurar na vida interna das escolas evitar uma supervisão que tende: «a instituir-se como mecanismos de conformidade e reprodução, mais do que como estratégias de transgressão e transformação». (Flávia & Moreira, 2011, 10). Estas mesmas autoras dão-nos as estratégias de transgressão e regulação baseada na concepção do professor como ator social, incidindo na indagação e intervenção crítica, na democraticidade, na dialogicidade, participação e emancipação entre pares. Mas, no texto destas autoras aparecem cedências à linguagem da cultura gestionária das empresas, levando-me a perguntar, secundando Afonso, se é possível conciliar as ideias de prestação de contas e democracia[8]?

A minha resposta, em jeito de conclusão, será que estas visões são irreconciliáveis e este é o desafio: aceitar a supervisão democrática e combater a supervisão controladora, directiva e avaliadora. A supervisão deve: ser concretizada em formas de colaboração entre colegas; estar isenta de avaliação; basear-se em dados (qualitativos ou descritivos); portanto, inserida na classificação não diretiva[9]. O que interessa investigar é se o processo pedagógico faz sentido num certo contexto (respeito pela autonomia profissional) e não levar-se o professor avaliador a impor valores e pedagogias ao avaliado (com base na hierarquia, experiência, ideologia, etc).

 

[1] Tese já defendida no mestrado: Ação, participação e resistência nas culturas de escola, julho 205, UM.

[2] Veja-se..Likert & Likert, 1976, citado na minha tese pag 103, referida na nota 1.

[3] Veja-se os artigos 46º e 48º.

[4] Veja-se Crozier & Friedberg, 1977, bibliografia da minha tese.

[5] Recomendação nº1/2011, de 7 de janeiro do CNE

[6] Veja-se a resposta da IGEC a perguntas colocadas pela Fenprof, materiais da formação.

[7] Veja-se slide 2 da sessão I, dos materiais fornecidos.

[8] Afonso (2010:168), citado no slide 2 da sessão III.

[9] Flávia Vieira & Maria Moreira, supervisão e avaliação do desempenho docente, 2011. Pag 16.