Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Novembro 29, 2017

As passagens administrativas

vai-teaosprofessores

Vou chamar de passagem administrativa quando um aluno transita de ano com mais de 4 notas votadas (notas subidas por votação do conselho de turma). Estas situações acontecem porque há uma pressão do ministério (às vezes das próprias direções das escolas) para que não haja insucesso e porque na opinião pública há quem defenda que reter os alunos é desmotivante e pontenciador, por isso, de mais insucesso. 

Todos sabemos da existência destas situações, além de que a impresa fez eco de algumas destas situações. Mas, hoje estou a refletir sobre elas porque me chegou aos ouvidos a seguinte história: numa reunião de um conselho de turma de uma turma do terceiro ciclo, com a presença de um representante dos encarregados de educação, os professores analisaram o comportamento dessa turma tendo realçado que este comportamento era inadequado por parte de alguns alunos, perturbando o funcionamento das aulas e também eram pouco ou nada empenhados no trabalho exigido na sala de aula. Depois de ouvir os professores e chegada a sua vez de falar, o encarregado de educação presente, disse mais ou menos o seguinte: esta situação era previsível, pois no ano anterior o conselho de turma tinha passado tais alunos com notas votadas, pelo que era natural estes alunos não terem necessidade de se esforçarem, nem de se portarem adequadamente, porque no ano anterior já eram assim e foram premiados com a transição de ano. Assim, não havia motivo para não continuarem com o comportamento já demonstrado no ano anterir e que foi premiado. Mais, como encarregada de educação responsabilizava os professores pelo que estava a acontecer e entendia os alunos mal comportados e pouco trabalhadores, pois, mesmo sendo assim tinham sido premiados, além de que esta situação prejudicava o seu educando e todos os outros que eram trabalhadores e bem comportados.

Este lado da questão posta pelo encarregado de educação contrasta com as pressões do ministério e da opinião pública e no meio fica o professor. Eu optaria pelo rigor, justiça relativa e pela salvaguarda futura de um ambiente de trabalho adequado, não cedendo ao facilitismo, que se vira contra o profissionalismo docente. Nesta altura de ataque feroz contra a nossa classe profissional a cedência ao facilitismo vira-se contra nós e só podemos queixarmo-nos de nós próprios, os que cedem às pressões e ajudam a descredibilizar a nossa classe. Nunca é o ministério responsabilizado pelas suas orientações para que haja sucesso a qualquer preço, pelo menos na imprensa.

Novembro 22, 2017

O regresso dos ataques ferozes aos professores

vai-teaosprofessores

Os professores fizeram greve a semana passada, uma greve com impacto significativo, que levou o governo à mesa das negociações e das quais saiu um compromisso para se negociar o descongelamento, a recuperação dos anos congelados e as questões do tempo semanal de serviço, que desde o ministro Crato ultrapassa as 35 horas. Para o próximo ano, só entra em vigor o descongelamento, com o reposicionamento dos que entraram recentemente para os quadros, num esforço de 112 milhões de euros, segundo o ministro das finanças.

Depois destes acontecimentos, (re)começou o feroz ataque aos professores, pelos opinadores de serviço. O seu velho ódio contra os professores regressou, com base nos seguintes argumentos:

* progridem com base no tempo de serviço, falso porque há avaliação e exige-se o mínimo de Bom, formação profissional e quotas no acesso aos 5º (50%) e 7º escalões (33%);

* os resultados na educação são medíocres, desmentido pela evolução muito positiva nos testes internacionais -  esta evolução é conseguida muitas vezes contra as instruções do ministério que forçam resultados positivos, a que os professores resistem;

* lançam números descontextualiazados, como os 650 milhões de custo da recuperação do tempo congelado, sem que o acordo de recuperação do tempo congelado esteja definido, para alarmar a opinião pública. Se estes valores forem os corretos, fazer esta recuperação em 5 anos seria um acréscimo de esforço financeiro de 110 milhões, equivalente ao esforço previsto para 2018, se fossem mais anos, ainda seria menos o esforço financeiro.

O ódio pessoal de alguns comentadores aos professores pode ter uma explicação psicológica a exigir divã. A luta política pode ser outra explicação, mas alguns destes opinadores são da área do PS, talvez com um cordão umbilical à MLR. A este propósito é interessante os argumentos do Guinote sobre este regresso do ataque aos professores, um deles relacionado com a sua descrição da apresentação do livro de MLR em 2010, onde políticos e comentadores apareceram ao beija-mão, demonstrando um bloco central de interesses contra a classe de professores, que parece ainda estar muito presente na sociedade portuguesa. O outro argumento deste colega é que a área do jornalismo não pode dar lições de avaliação a ninguém, com as audiências em queda.

Mas enquanto o ferroz ataque aos professores vem ciclicamente ao de cima, aparece cada vez mais ignorado na comunicação social, os apoios à banca pelo Estado, que já vai em quase 10 mil milhões. Falamos de um número 100 vezes maior, mas com menos atenção mediática. Aliás, o discurso da direita continua a pôr o acento tónico na travagem da recuperação de direitos laborais, mas continua por fazer a regulamentação do sistema financeiro, que muito contribuiu para a crise de 2007/8. 

Concluindo, este ataque aos professores é o bloco central (que inclui o PR) a reagir à recuperação total de direitos, dizendo que a perda de direitos foi uma necessidade porque esteve na origem da crise, ignorando propositadamente que o sistema financeiro é que esteve no epicentro da crise. A crise serviu para acomodar na opinião pública a visão da direita para atacar os direitos e numa altura em que há recuperação destes, acenam com o fantasma do regresso da crise para abrandar o regresso dos direitos, num raciocíneo circular, sem ser sério, ao ignorar as verdadeiras causas da crise: a desregulamentação e ambição do sistema financeiro.

Novembro 14, 2017

Vários assuntos relevantes da semana

vai-teaosprofessores

Em primeiro lugar quero falar do fim dos cursos vocacionais. Fui um ano coadjuvante dum curso destes e a melhor discrição para esta experiência é: dar aulas num gueto. A guetização de alunos sem aproveitamento ou problemáticos é o mesmo que a criação de bairros (sociais) por etnia. Só cria problemas.O estarmos dois professores na sala de aula, foi ineficaz em comparação com a criação de um grupo de alunos com apoio. Aqui concordo plenamente com o Guinote «o pior preconceito é aquele que, para pretensamente ajudar quem é “discriminado” por razões sócio-económicas, pretende desenhar soluções curriculares “funcionais” que garantam o “sucesso para todos”, sabendo nós que isso irá esbarrar, fora da escola, com a triste realidade da falta de oportunidades». Concluindo, quem criou os cursos vocacionais guetizou alguns alunos com base no preconceito e na falsa eficiência, que é varrer os problemas para debaixo do tapete, ou seja, para as estatisticas melhorarem.

Em segundo lugar temos um ministro da educação desaparecido, não dá a cara face ao tratamento injusto e discriminatório dos docentes que tutela, face a outros funcionários públicos,  ao não receber os sindicatos, mas aparece nos jogos de futebol. O comandante que abandona os comandados não merece respeito.

Em terceiro lugar parece-me que a classe docente acordou para a luta, contra o apagar os anos congelados da carreira, contra a discriminação de um tipo de funcionários públicos e contra o agravamento das condições de trabalho, com os tempos não letivos, que vem desde a tróica. De facto na minha escola estão inscritos 2 dezenas de professores para a manifestação em Lisboa. Não os acompanho por motivos de saúde, mas farei greve amanhã. Acho que a mobilização está em crescendo, mas ainda não tão forte como em 2008. Mas já há quem tenha receio de uma mobilização séria de professores, que pode levar a maus resultados eleitorais, como já aconteceu no passado.

Outro assunto importante é o crescente desinteresse dos jovens da profissão docente. Este desinteresse constata-se na diminuição acentuada da procura de cursos de educação e mesmo no fecho de alguns cursos, resultado do agravamento do estatuto social do docentes e da discriminação a que os governos têm sujeito esta classe profissional.

Por último, referir que o atual sistema de gestão das escolas está a afastar a democracia das escolas, tendo acontecido esta semana, mais um caso destes, com a aluna que filmou a lagarta, a ser objeto de um processo disciplinar, num assunto em que a liberdade de opinião se deveria sobrepor a uma regra regulamentar que está lá para proteger pessoas - como filmar uma aula -, mas não animais. A Srª diretora desta escola escolheu a repressão de uma situação de interesse público, a assumir o interesse para a comunidade, talvez não para a sua gestão, da situação.

 

 

Novembro 08, 2017

O é que os alunos dos profissionais gostam?

vai-teaosprofessores

Tenho dado aulas aos cursos profissionais e dou-lhes disciplinas mais teóricas, como economia, a disciplinas mais práticas, como OGE (contabilidade) e Comercializar e Vender. Um dia deste comparei mentalmente estas duas experiências.

Constatei que na economia os resultados eram piores e tinha mais problemas de indisciplina. Por sua vez, em contabilidade, dada no 12º de Organizar e Gerir a Empresa (OGE), tinha menos problemas de indisciplina, os alunos empenhavam-se na resolução de exercícios e os resultados foram francamente melhores.

Refleti sobre esta diferença, que os próprios alunos verbalizavam, quando me diziam que o professor de contabilidade era melhor que o professor de economia, mesmo sendo a mesma pessoa. De facto, economia é uma disciplina mais árida, em que os alunos não fazem nenhuma ligação às suas necessidades, mesmo que a haja e o professor se esforce por explicitá-la. É uma disciplina que implica conhecer o significado de conceitos e aplicá-los, através da resolução de questões e por isso recorre às questões de aula para forçar o estudo à medida quea matéria é dada e não só para os testes. Há módulos em que aposto na pesquisa e na realização de trabalhos, como o módulo sobre crescimento e desenvolvimento, em que cada aluno estuda um país. Mas em geral os módulos são mais teóricos e implicam estudo.

A contabilidade, é uma disciplina em que dou exercícios e onde só explicito a teoria quando esta é precisa para resolver questões. A partir da prática explicito a teoria. A verdade é que os alunos se esforçam por fazer os exercícios e quando não sabem pedem-me ajuda. Como estão sempre a trabalhar, não há tanta oportunidade para a indisciplina. Será que é o caráter prático, resolução de exercícios, que lhes permite interiorizar a técnica, que explica tais resultados? 

Claro que as turmas não são todas iguais, há turmas mais difíceis do que outras, mas noto que há mais adesão dos alunos à contabilidade, mesmo sendo uma matéria que poucos vão aplicar e não tão útil à vida dos alunos enquanto cidadãos como a economia. Claro que há alunos que não aderem quer a economia quer a contabilidade, são os que não aderem à escola.

Há também uma diferença entre estas duas disciplinas, a economia não desdobra e temos mais alunos nas aulas, enquanto em contabilidade há desdobramento da turna em turnos e temos sempre menos alunos na sala o que permite um acompanhamento mais personalizado. Nas turmas grandes o professor não tem tanto espaço para apoio individual.

Conclusão, é-me mais fácil ser professor de disciplinas técnicas e motivar os alunos com exercícios do que em disciplinas em que há conceitos que depois têm de ser aplicados e demonstrar que foram apropriados. A dimensão das turmas também ajuda e muito.

Novembro 02, 2017

A desmotivação chegou aos professores?

vai-teaosprofessores

Com o ataque que os professores sofreram na última década sinto hoje que o brio profissional de alguns colegas esmoreceu. Com o aumento da precaridade, que se traduz em mais anos como contratados e muitas vezes com horários incompletos, a volatilidade das regras concursais, que os afastam da residência e da família, a não recuperação do tempo de serviço como contratados para efeitos de remuneração, a congelação das carreiras e seu efeito nas pensões, etc, está a provocar um sentimento de deixa andar em alguns professores.

Cada vez mais tenho colegas que dizem que não se estão para "chatear", com a indisciplina e com o aproveitamento, ou seja, começa a haver condescendência com a indisciplina, e o rigor da avaliação começa a diminuir, principalmente nos cursos profissionais, onde há pressão das direções e estruturas centrais para não haver insucesso.

Para documentar isto, alguns exemplos: tenho alunos que me dizem que só estão na escola até fazerem 18 anos e eu deixo-os estar deitados ou a ouvir música, desde que não perturbem o meu trabalho; o aluno fez isto ou aquilo, mas eu finjo que não vejo; não estou para meter os alunos na rua e preencher a papelada subsequente. No campo do aproveitamento: cada vez mais o teste é uma ficha que resolvi nas aulas anteriores; vou diminuindo o grau de dificuldade dos testes até passarem todos; fecho os olhos aos copianços; só dou testes com consulta.

Na minha opinião tudo isto representa a degradação da profissão docente e os docentes demitirem-se das suas funções de socialização e de aferição dos conhecimentos transmitidos, logo constato a falta de brio profissional que anda a par de um profissional que é cada vez mais penalizado pelo sistema. Acredito que ainda é uma minoria a ter esta atitude, mas esta «doença» vai-se alastrando com as desilusões em crescendo.

Só que estas atitudes não ajudam a reconquistar o prestígio para a classe docente, ou seja, entrámos num circulo vicioso, quanto mais a classe é subalternizada socialmente, mais os professores se desmotivam e mais a sociedade pode apontar aos professores se as atitudes de desleixo se generalizam. Mas este não é o caminho. O caminho é lutar e aqui temos falhado, pois, não estamos unidos. Temos é de seguir o exemplo dos efermeiros, médicos e juízes, marcar a nossa posição e lutar.