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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Fevereiro 28, 2018

A Câmara de Fafe debateu os resultados nos exames

vai-teaosprofessores

Um orgão da Câmara Municipal debateu recentemente os resultados dos exames no concelho, depois dos dados referentes aos mesmos terem sido publicados também recentemente pelo ME.

As intervenções feitas (quer do partido que governa quer pela oposição) foram no sentido de criticarem os resultados, nomeadamente a inflação de notas em relação aos maus resultados nos exames.

Em primeiro lugar os resultados devem ser lidos tendo em conta as condições sócio económicas existentes no concelho, além do estratuto académico de muitas famílias serem o ensino básico ou inferior. Estas dificultades que na literatura se chama de capital cultural só é alterável em gerações.

Em segundo lugar é possível alterar um ensino de massas - com cerca de 30 alunos por turma e que só permite pedagogia diferenciada esporadicamente -, para um ensino personalizado em que se leve em conta no processo ensino/apredizagem o percurso de cada aluno. Há passos neste sentido, mas ter codjuvações de 90 minutos em cada 15 dias, só permite uma experiência diminuta de pedagogia diferenciada, mas ainda estamos longe do ensino personalizado em todos os tempos letivos, pelo menos nas disciplinas mais importantes, as que têm exame. Para termos ensino personalizado ideal era preciso dividir a turma em turnos e os professores só trabalhavam com metade da turma. Ora este ideal exige meios financeiros, que neste momento não estão disponíveis a nível nacional. Faria sentido serem as câmaras municipais a financiarem os desdobramentos de turmas? Seria uma via, mas as câmaras parecem mais interessadas em influenciar a gestão das escolas do que em apoiar a melhoria os processos de ensino/aprendizagem contratando professores que permitissem desdobrar em turnos algumas disciplinas.

Em terceiro lugar é possível alterar os critérios de avaliação para restringir os desfasamentos da nota interna em relação às notas dos exames. Isto as escolas podem fazer, mas aqui surge a contradição entre prepara os alunos para os exames e a flexibilidade curricular que este governo apregoa e está em fase de experimentação.

 As condições em que se dão aulas, podendo haver ou não, meios informáticos para os alunos trabalharem influenciam a motivação dos alunos, que os utilizam no seu dia a dia e depois têm um ensino que não os usa (porque não os tem). Aqui as Câmaras poderiam ajudar as escolas a equiparecem com meios informáticos adequados, ajudando a melhorar a situação atual de escassez destes meios nas escolas do concelho.

Concluindo há várias variáveis que influenciam os resultados dos alunos, uns relacionados com os alunos, outros com a organização escolar e outros com o próprio professor. Olhar só para este último fator é muito reducionista. O que espero da câmara é empenho em criar melhores condições de ensino/apredizagem e apresento dicas de como o podem fazer.

Fevereiro 21, 2018

Debates da educação: o fim dos exames?

vai-teaosprofessores

Há debates que andam no ar, ainda que não explícitos, a saber:

* se a nota de educação física entra para a média no secundário;

* fim ou alteração dos exames para acesso à universidade;

* flexibilixação currícular versus exames e metas curriculares.

Comecemos pela questão de educação física, como esta disciplina está orientada para a prática de atividades físicas, não deve contar para a nota, pois há limitações físicas de alguns alunos, que desta maneira seriam prejudicados. Mas se esta disciplina estivesse orientada para a compreensão das regras dos vários desportos, então poderia fazer sentido incluí-la na média. Quanto ao desporto escolar este deveria ter também uma vertente de criar hábitos de atividade física, não relacionada só com a competição, como caminhadas, aulas de hidroginástica, etc.

Sobre a flexibilidade curricular, surge hoje (21/2) um artigo no JN, que refere que não se está a aplicar o ensino pluridisciplinar com base em projetos, porque este pode colidir com a preparação para os exames. Ou seja, no 10º ano, as disciplinas com exame estão a ser excluídas desta experiência porque tem de se dar a matéria toda para os alunos se prepararem para os exames. Há mesmo uma professora entrevistada que realça esta contradição (flexibilidade curricular até 25% da matéria e preparação para exames que incidem sobre toda a matéria). Portanto, o ministério avança com reformas (ainda que experimentais e parciais) mantendo tudo o resto, o que leva a contradições no enquadramento superestrutural do ensino, como a flrxibilidade curricular mantendo as metas do Crato, pois ou se flexibiliza ou se cumpre as metas. Isto é irresponsabilidade, pois, no mínimo, deviam ter revisto as metas curriculares.

Por fim, o artigo de Santana Castilho, realça o uso pelo governo de um relatório da OCDE (método que não é novo) para preparar mudanças no regime de acesso à universidade dos estudantes do secundário. Estas mudanças não aparecem explícitas, mas passariam pelo fim dos exames ou por alteração no regime atual (em vez de centrado nas escolas passaria a estar centrado no ensino superior), que permitisse as alterações que estão em curso ao nível curricular e que são a reforma da atual equipa educativa. Aqui estou de acordo com Guinote, esta medida pode desvalorizar o ensino público, que deixaria de ser credível, e facilitar a escolha do ensino privado, onde se manteria a qualidade do ensino. Castilho também realça a criação de cursos curtos no superior, como forma de desvalorizar alguns do primeiros ciclos do ensino superior, obrigando a que quem queira frequentar cursos credíveis paguem mais tempo as propinas que é uma forma de introduzir o fator económico na equação, mas ao mesmo tempo diminuir a capacidade do sistema educativo de ser usado como fator de trampolim social. Todos estes desenvolvimentos são alarmantes e tendem a desvalorizar a escola pública como fator de trampolim social possibilitanto aos alunos que vêm de estratos económicos baixos a ascensão social.

Concluindo estes indícios, que não são explícitos e são feitos subrepticiamente, apontam para mudanças no ensino que podem vir a ser preocupantes. Porque os exames introduzem um fator de uniformização na avaliação dos alunos, impedindo a generalização do facilitismo. Mas aceito qualquer outro método de se introduzir este ou outro fator de uniformização dos alunos ainda no secundário.

Fevereiro 15, 2018

O grau zero da indisciplina

vai-teaosprofessores

Soube que aconteceu numa turma do profissional o grau zero da indisciplina, que é quando um aluno se recusa a sair da sala quando o professor o manda sair por motivo de indisciplina. Já passei por uma situação semelhante e a nossa (dos professores) frustação é tremenda e é difícil mantermos a calma, quando a nossa autoridade é posta em causa. 

Uma situação destas faz-nos perder a aula, pois a situação perturba a aula, acabando por se perder esse tempo ou bloco em termos de trabalho com os alunos. Os alunos não envolvidos nestas situações também saem prejudicados porque deixam de ter esse tempo letivo, quer porque o professor deixa de estar em condições de dar a aula, quer porque os outros alunos estão excitados.

A frustação é maior quando a direção não reage a uma situação destas e este comportamento fica sem castigo, minando ainda mais a autoridade do professor, que fica sózinho entregue às feras. 

Esta é uma situação que contribui muito para o burnout, pois dar aulas a uma turma em que não somos respeitados provoca um grande desgaste psicológico. O professor que gosta de dar aulas, mesmo sabendo que há alunos que continuam a merecer o seu esforço, fica desmotivado. Depois surgem os atestados, os alunos ficam sem aulas até haver substituição do professor.

Como já defendi, a indisciplina é o cancro que mina o ambiente de trabalho na sala de aula e é mau para todos.

Fevereiro 07, 2018

A pedagogia diferenciada

vai-teaosprofessores

A pedagogia diferenciada significa levar em conta o patamar de aprendizagem dos alunos e adaptar e criar condições para estes terem sucesso a partir desse patamar, além de levar em conta as caraterísticas do aluno. A forma de o conseguir passa por adaptar a organização escolar às necessidades desta pedagogia, do professor planificar a sala de aula tendo em conta a existência de grupos de alunos com necessidades específicas (ilhas) e haver meios de apoio às aulas que facilitem a aplicação da pedagogia diferenciada (mostram-nos a sala de aula do sec XXI, mas não financiam a sua implementação).

Antes de prosseguir convém alertar que o grande risco da pedagogia diferenciada é aprofundar/manter patamares diferenciados de aprendizagem, em que há grupos que atingem objetivos mais exigentes e grupos que atingem objetivos mais modestos, sendo esta pedagogia criadora ou continuadora de uma diferenciação. Portanto, corre-se o risco não de nívelar, mas de manter ou acentuar diferenças. Outro ponto que é realçado em entrevistas com professores franceses é  a «tensão entre o respeito pelo cumprimento dos programas e a sua reinterpretação em função das necessidades dos alunos», ou seja, ao darmos mais tempo para certas aprendizagens, estamos a pôr em perigo o cumprimento dos programas, pois o professor não tem autonomia para reescrever o programa, incidindo a aprendizagem num núcleo fundamental, principalmente em anos de exames.

Vejamos agora como operacionalizar este conceito a partir desta sitação de Annie Feyfant (2017): «direcionar as estratégias de ensino para as aprendizagens pretendidas, não abordar novas aprendizagens sem antes ter a certeza de ter ensinado os conhecimentos prévios necessários, garantir que cada aluno dispõe de tempo suficiente para fazer a aprendizagem» (Galand, 2009). Nestes princípios encontramos os elementos elencados nas modalidades de diferenciação expostas anteriormente, em termos de temporalidade (segmentar a atividade, maximizar o tempo atribuído à realização da tarefa), de processo (definir claramente os objetivos, explicitar, fazer avaliação formativa), de produção (propor exercícios suplementares), de estruturação (fazer corrigir). 

Quais os obstáculos à implementação desta pedagocia? Em primeiro lugar a dimensão das turmas, esta pedagogia é mais operacionalizável em turmas com menos alunos. Nas turmas grandes uma solução para a operacionalizar é a coadjuvação, em que a presença de dois professores permite dividir as ilhas/grupos por professor. O trabalho colaborativo de professores é essencial, mas este trabalho colaborativo exige que esteja previsto no horário dos professores tempo para coordenação. Depois é essencial haver reflexão sobre os processos implementados: voltamos ao mesmo, haver tempo para coordenação nos horários. 

Promover pedagogia diferenciada sem a escola enquanto organização criar condições para isso é responsabilizar os professores, sem haver compremetimento do ministério ou das direções. Isto tem sido feito à custa do aumento do trabalho dos professores, nos chamados não letivos.

Concluindo, a ideia pode e deve ser experimentada, mas sem dar condições (recursos humanos e investimento na modernização/ informatização das salas de aulas) propõe aos professores fazer omoletes sem ovos (só com recurso à boa vontade dos professores) é lavar as mãos como pilatos.