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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Novembro 28, 2018

A questão do tempo de serviço a recuperar dos professores

vai-teaosprofessores

Para a crónica semanal de hoje hesitei entre este tema atual e um outro mais filosófico decorrente de uma pergunta de uma colega filosofia de quais os argumentos para ser contra o facilitismo. Sem prejuízo de voltar a este último de forma sistemática, cada post tem argumentos das razões para combater o facilitismo, ainda que não sistematizados.

Voltando à atualidade, na votação do OGE2019 o CDS, PCP, PSD e BE forçaram o governo a voltar às negociações com os professores para negociarem o modo de recuperação do tempo integral. 

Em primeiro lugar falou-se de coligação negativa, que já é uma forma de desvalorizar esta decisão, pois estes partidos foram coerentes com as suas posições anteriores e portanto era expectável. Aqui faltou humildade ao governo na previsão de que este resultado podia acontecer - volto mais à frente à problemática da falta de humildae. Em segundo lugar os opinion makers do PS, nomeadamente o irmão do 1º ministro, Ricardo, aparecereu a dizer que isto era uma consequência da tróica, numa tentativa de colocar o ónus no PSD/CDS, esquecendo-se de referir que este congelamento começou em 2005, num governo PS de que o irmão fazia parte. O PS tem culpa de parte deste descongelamento.

O argumento maior para o governo não concretizar este descongelamento é o seu custo. Mas o interessante é que não são apresentadas as contas, mas um número final, de 600 milhões de euros, que seriam divididos por vários anos em função da negociação a realizar e não tudo de uma só vez como quer fazer passar para assustar os portugueses. As contas que levaram a este montante são segredo de estado, não havendo transparência na prestação da informação, o que por si só é uma atitude que faz desconfiar, porque se o número fosse credível, nada custaria torná-lo público. Além disso este número, na blogosfera já foi desmontado como (muito) sendo excessivo, porque ignora pelo menos os estrangulamentos na carreira e os impostos adicionais a que vão dar origem, pelo que se deveria contabilizar o esforço líquido financeiro de impostos, o que não é o caso. Ou seja, é um pouco como a ilusão monetária, que corresponde à perda de poder de compra sempre que não há atualização dos rendimentos ao nível da inflação para o salário real se manter inalterado. Com a inflação o governo utiliza a ilusão monetária para diminuir custos com salários reais, ao passo que na previsão de gastos com os professores aumenta os gastos ao esquecer-se de descontar o retorno atravês dos impostos diretos a mais que vão ser cobrados. Neste aspeto o governo aje como ilusionista.

Por outro lado, o governo parece ter «personalizado» este debate no sentido de se manter orgulhoso e arrogante na sua posição, fazendo deste debate um finca pé que não acontece em nenhum outro dossier. Acho mesmo que ao aproximarmo-nos do fim da legislatura e com o PS próximo da maioria absoluta se começa a notar esta falta de humildade e a transparecer o orgulho e a arrogância.

Um último reparo, em tempos foram criadas as carreiras dos corpos especiais da função pública em que se reconhece a certas profissões um estatuto especial pelo seu contributo para o desenvolvimento do país que é uma forma de se atribuir estatuto social. Agora estamos perante uma alteração unilateral destas carreiras procurando equipará-las às carreiras ditas normais, o que é uma forma subtil de desvalorizar socialmente e monetariamente estas carreiras. Seria mais honesto avançarem com a revisão dos estatutos como acontece com os juízes e enfermeiros em vez de o fazerem à socapa com os professores. Sejam frontais, não façam baixa política, no sentido de ter objetivos encapotados por receio de as sua políticas não passarem na AR.

Concluindo, há uma janela de oportunidade para se resolver este problema criada pela Assembleia da República, mas desconfio das boas intenções do governo pela forma como se comportou até agora.

Novembro 21, 2018

Encruzilhada educativa: perfil do aluno ou exames?

vai-teaosprofessores

Voltou a ser notícia esta semana a questão da inflação de notas, isto é, a discrepância acentuada entre as notas de exame e as notas da classificação interna da escola. Voltou a ser notícia porque a inspeção visitou cerca de dez escolas onde propôs alterações aos critérios de avaliação. Este fenómeno aparece mais na zona norte do país e em escolas privadas. 

As causas deste fenómeno resultam do facto de os critérios de avaliação incluirem, além dos testes, os chamados critérios sócio-afetivos, que podem ter um peso de 10 a 20%, ou seja levando em conta estes critérios pode haver desvios até 2 ou 4 valores respetivamente. Estes critérios procuram avaliar os alunos na parte de comportamento, empenho, pontualidade, etc. Uma boa gestão das classificações atribuídas permite ajudar a criar um bom ambiente de trabalho, penalizando os comportamentos perturbadores, os alunos pouco empenhados e combater o absentismo e atrasos nas aulas. Daqui resulta que um aluno médio com bom comportamento, boa assiduidade e esforçado, vê a sua nota subir em relação à média dos testes.

Mas analisando as estatísticas vemos que as discrepâncias entre a nota interna e a nota de exame é superior a 4 valores, nomeadamente chega aos 6 valores, o que aponta para testes com grau de dificuldade inferior à dos exames.

O que está na origem disto? Encontrei nas escolas professores/as que defendiam abertamente que se devia dar notas mais elevadas para que os alunos fossem «compensados» pela pressão do exame, que é demostrar em 90 minutos, sob pressão, o trabalho de todo um ano letivo. Chamo-lhe o espírito de mãe galinha, isto é, resulta de uma tentativa de proteger o aluno dos infortúnios que podem acontecer no exame. Ou seja, na prática limitar o efeito dos exames no acesso ao ensino superior. Em geral são estes professores que também optam por testes menos exigentes aplicando a mesma lógica. Quando estes professores têm posições maioritárias numa escola, essa escola aumenta o peso dos critérios sócio-afetivos, institucionalizando esta visão de tentar limitar o efeito dos exames na seriação e seleção dos alunos.

Mas este debate só tem sentido num modelo com exames nacionais em que o secundário serve de preparação ao acesso ao ensino superior. Num outro modelo em que o secundário tem objetivos próprios, como os decorrentes do perfil do aluno, deixando para as universidades a escolha dos seus alunos, esta discussão já não tem sentido. 

Em face desta dualidade de funções para o ensino secundário temos inspeções a verificar a discrepâcia de notas, mas também temos inspeções a promover os últimos decretos governamentais, os famosos 54 e 55, que apontam para uma pedagogia diferenciada, logo avaliações diferenciadas, mesmo com testes diferentes, como já aconteceu na minha escola, para se melhorar os resultados. Ora como a escola já tinha grandes discrepâncias nas notas internas com as notas dos exames, com mais pedagogia diferenciada esta discrepância vai tender a aumentar. 

Ou seja, estamos numa encruzilhada educativa, temos uma reforma que quer introduzir um objetivo próprio para o ensino secundário que não seja o preparar o acesso à universidade, mas ainda não se desmantelou o sistema anterior, com exames para selecionar alunos no acesso à universidade. Como corolário desta bipolaridade temos inspeções (em separado) que avaliam se os dois objetivos estão a ser cumpridos - não sei se já aconteceu as duas em simultaneo!

Concluindo é urgente o governo clarificar a sua política educativa quanto ao seu objetivo para o ensino secundário. Serve para implementar o perfil do aluno ou preparar os alunos para os exames?

PS\: Fui nomeado para os sapos do ano, sem esperar. Agradeço, pois, aos meus leitores e votantes. A votação decorre até dia 15 de dezembro.

 

 

Novembro 14, 2018

O OGE de 2019 e a educação

vai-teaosprofessores

Decorreu à dias a audição do ministro da educação na Assembleia da República a propósito do OGE para 2019.

A grande novidade são os manuais gratuitos para todos os alunos até ao 12º ano. Esta medida peca por não discriminar em função dos rendimentos os que seriam beneficiados pela medida. Ou seja, quem tivesse rendimentos até um certo valor receberia os manuais gratuitamente e a partir daí seriam pagos pelas famílias. Esta medida seria mais justa, mas provavelmente como ficariam de fora poucos alunos, o esforço burocrático para a implementar não se justificaria.

Depois não se compreende como o orçamento diminui: o Ministério da Educação fala num aumento da despesa total consolidada de 150 milhões no próximo ano, mas, na verdade, a Educação perderá 182 milhões de euros. Não se compreende esta perda de verbas na educação, com o aumento da despesa com os manuais e com o crescimento da massa salarial dos professores devido ao fim do congelamento das carreiras, com as progressões normais e as progressões, ainda que reduzida a 1/3 do total, relacionadas com o tempo de serviço recuperado. Há aqui algo pouco transparente.

Vejamos melhor a discrepância de valores: o ministro Tiago Brandão Rodrigues apresenta os cálculos comparando a verba inicial de despesa total consolidada prevista para 2018 — 6.173,1 milhões de euros — com a mesma verba que previa para o presente ano aquando da apresentação do Orçamento do Estado para 2017 — 6.022,7 milhões. Da comparação destes dois valores resulta o tal aumento de 150 milhões de euros. Mas a verdade é que o Governo não gastará 6.022,7 milhões com Educação este ano, mas estima, sim, encerrar o ano com uma despesa total consolidada de 6.355,6 milhões de euros. E caso se compare a despesa realmente gasta (embora ainda uma estimativa) com aquela que o Governo prevê gastar no próximo ano, então o que resulta é uma quebra de 2,9%, ou seja, menos 182,5 milhões de euros.

Não se comprende também que neste orçamento não exista verba que permita implementar as alterações legislativas que apareceram em cima do arranque do ano letivo, portanto à pressa, os famosos 54 e 55, que implicam alterações na organização escolar, particularmente o referente à autonomia e flexibilidade curricular, que procura implementar a pedagogia diferenciada sem dar mais horas ou reduzir as turmas, a flexibilidade curricular agrupando áreas de conhecimento, mas com os mesmos recursos humanos e financeiros, portanto feitos à custa da intensificação do trabalho dos professores. A analogia é com a cozinha, onde se procura fazer omoletes sem ovos. As escolas com professores com mais idade não terão crédito horário para responder a estas alterações legislativas.

Portanto, o orçamento da educação é decepcionante, para a escola e para os professores. Mais uma vez não há paixão pela educação ou vontade política de encarar a educação como investimento nos futuros recursos humanos, pois para mim a educação não é um gasto mas um investimento.

Novembro 07, 2018

Quando os alunos não sabem estar nas aulas!

vai-teaosprofessores

Já referi em post anterior que voltei a dar 10ºs anos depois de um longo interregno, cerca de 5 anos. Como só dou profissionais, é natural que muitos dos alunos que não querem estudar estejam nestes cursos. As turmas são heterogéneas com poucos bons alunos, alguns alunos médios e a maioria alunos que não querem estudar.

O que me tem surpreendido é alunos que não sabem estar na sala de aula, quer porque estão sempre a conversar, quer porque falam sem autorização do professor, não cumprem horários, etc. Numa palavra estes alunos não estão socializados, confundem bagunça com liberdade, pensam que uma aula é como estarem à mesa do café em grupo, acham que podem vir para a aula quando querem, atiram papeis para o lixo modo basket durante a aula, não têm noção de que ao falarem alto distraem os colegas que querem trabalhar.

A peimeira tarefa dos professores é socializarem os alunos levando-os a cumprirem regras, como pedir para falar, cumprir horários dentro de uma tolerância, estar na aula para trabalharem. Assim, desde logo sou rígido com os horários, pedir para falar, estarem sempre atentos, quem não estiver vai para a biblioteca com uma tarefa, etc.

Começando os alunos a cumprir estas regras, as aulas tornam-se produtivas, porque o aluno descobre que é mais fácil estar nas aulas a trabalhar, cumprindo o que o professor pensou para o plano da aula. O tempo custa menos a passar. Mas o mais interessante é que com a nova postura o aproveitamento melhora. Já tive alunos que desabafaram que nas minhas aulas o tempo passa mais rápido, que preparar os testes foi mais fácil com o caderno organizado, etc.

O que eu não compreendo é como estes alunos chegaram ao 10º ano sem estarem socializados, houve concerteza professores que se demitiram de o ser para evitar conflitos, ou deram prioridade aos bons alunos em deterimento dos que exigiam mais esforço (como já aconteceu com a turma da minha filha, em que uma professora só chamava a participar na aula os 3/4 melhores alunos) ou simplesmente faziam parte de uma turma problemática, em que se criou um gueto como forma de resolver problemas disciplinares e de aproveitamento, tornando-se a situação ingerível. Se não aceito retirar o aluno da equação que pode explicar o insucesso, também não retiro o professor. Isto é, o insucesso é explicado por várias variáveis, em alguns casos o problema pode estar no aluno (na sua família), outros casos pode estar no professor, noutros casos pode estar no sistema que não encontrou a melhor solução para aquele caso. 

Isto vem a propósito de o Ministério ter colocado o ónus dos insucessos nos professores, porque podem fazer diferente e melhor, esquecendo-se do aluno que aparece como não sendo uma possível variável, e principalmente ignorando as suas responsabilidades organizativas quando pedem esforços sem os recompensarem (horas extraordinárias não remuneradas porque não há dinheiro) e propõem alterações que exigem recursos ou humanos ou financeiros, mas não os disponibilizam.

Concluindo, não me demito de ser professor e luto em primeiro pela disciplina na perspetiva da socialização do aluno e ao conseguir esta disciplina melhoro o aproveitamento.