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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Maio 29, 2019

Escola centrada no aluno versus centrada no professor?

vai-teaosprofessores

Para que serve a escola hoje? Para transmitir conhecimentos, transmitir valores e socializar o aluno. É possível haver escola sem professores? Não porque são os professores que conduzem o processo de ensino aprendizagem, mesmo com uso das tecnologias. São eles que transmitem conhecimentos ou orientam a aprendizagem com recurso a tecnologias, são eles que transmitem valores como solidariedade, retidão, etc, são eles que impedem a existência de bulling, são eles que em assembleia, a aula é uma assembleia, mostram a necessidade de regras, para que haja um bom funcionamento, logo socializam os alunos.

Mas também fazem parte da escola, que não existe sem eles, os alunos. São eles que são a motivação dos professores, são eles que são o objeto da ação pedagógica e de socialização dos professores. São eles que os professores precisam de motivar, mas também de corrigir, portanto são eles que recebem os estímulos positivos ou negativos dados pelos professores.

Portanto, para mim não existem escolas só centradas nos alunos ou só centrada nos professores. Deve existir uma dialética professor / aluno, que permita ao professor definir como ensinar, em função dos seus alunos e levando em conta as caraterísticas do aluno. Portanto, quem define o modo é o professor, quem define os currículos de valores e as formas de socialização a realçar é o professor, mas levando em conta as caraterísticas dos seus alunos e ajustando-se à reação dos alunos, na tal relação dialética. Aqui cabe a escola inclusiva.

Neste enquadramento, sim Joana (https://www.comregras.com/e-uma-medida-universal-e-umas-quantas-adicionais-se-faz-favor/) não faz sentido o professor não se relacionar com os seus alunos, mas também não faz sentido toda aquela parafernália do «eduquês» que quer retirar protagonismo aos professores, defendendo o ensino centrado no aluno, sem estímulos negativos, em que se retiram instrumentos de controlo dos alunos, como o facto de os alunos do profissional passarem a ter o controlo das faltas não módulo a módulo, como acontecia, mas só em relação ao total das faltas nas disciplinas, para evitar que um aluno absentista seja o mais cedo possível confrontado com o seu comportamento? O mais grave é a pressão para que não haja estímulos negativos como haver módulos por fazer, isto é, notas negativas. O argumento é que isto é considerado insucesso e logo podemos perder um curso se este não tiver 100% de sucesso, ou seja, haverá professores que ficarão com ‘horários zero’ se o curso for fechado. Se juntarmos a este discurso a ameaça velada de uma avaliação não Muito Boa ou Excelente, para quem está precisado de passar para os 5º e 7º escalão, percebemos que haja quem tenha sempre 100% de sucesso, mesmo com alguns alunos quase sem vir às aulas. Mas isto é abdicar do professor ser o condutor do processo de ensino, ou seja, do amago de ser professor. Por outro lado, quando não se dão estímulos negativos aparecem os problemas de indisciplina, pois os alunos não têm motivo para se adaptar à escola e suas regras, prejudicando-se a maioria dos alunos que quer aprender e seguir estudos, agora dispensados de exames de acesso ao superior.

Concluindo, nesta relação dialética professor / aluno tanto é negativo um professor que não se adapta aos alunos, como um sistema que se centra somente no aluno desprestigiando o papel do professor, ao retirar mecanismos de poder ao professor para mostrar aos alunos que certos caminhos / comportamentos não são socialmente aceitáveis e dar-lhe estímulos negativos.

 

Maio 21, 2019

Ser professor em Portugal: estudo de casos

vai-teaosprofessores

Face ao ataque despudorado do governo contra os professores decidi contrabalançar o que foi passado para a opinião pública com situações reais.

Hoje em dia a maior parte dos professores sai com a profissionalização feita, em geral como contratados, muitas vezes com horário incompleto e outras vezes concorrendo para longe de casa.

As situações são diferentes nos diversos grupos de recrutamento, isto é inglês, economia, matemática, físico-química, em função das vagas. Vou trazer exemplos do meu grupo, economia, onde tenho duas colegas contratadas com horário completo, uma vivendo a 100 Km e outra a 50 Km, e dois colegas com horários incompletos de 14 horas, um apanhou um horário residual e outro substitui uma colega em situação de doença. Estes últimos têm a residência a cerca de 20 Km. Logo neste caso, verifica-se que há quem concorra a horários completos longe de casa para ingressar nos quadros e quem opte por concorrer para mais perto sacrificando uma parte do rendimento e da reforma. Estes quatro colegas andam na faixa etária dos 40 anos com filhos. Portanto, na faixa dos 40 anos há professores sem emprego fixo impondo de uma maneira ou de outra sacrifícios às suas famílias. Também tenho uma familiar de físico-química com cerca de 40 anos e horário incompleto. De seguida apresento a tabela de vencimentos dos professores, para perceberem quanto ganham estes colegas. Como não estão na carreira ganham pelo índice 151, ou seja, 1373,13€, o que líquido dá 1127,97€ se forem casados só um titular. Concluindo, até entrarem para os quadros os professores, ganham cerca de 1100€ líquidos e podem passar vários anos nesta situação. Os colegas com horário incompleto recebem em proporção das horas de trabalho.

 

 

Escalão

Índice

Vencimento base

ordenado líquido

 

151

1 373,13 €

1 127,97 €

167

1 518,63 €

1 221,37 €

188

1 709,60 €

1 336,64 €

205

1 864,19 €

1 411,82 €

218

1 982,40 €

1 494,90 €

235

2 137,00 €

1 582,07 €

245

2 227,93 €

1 622,82 €

272

2 473,46 €

1 767,75 €

299

2 718,99 €

1 902,68 €

340

3 091,82 €

2 068,45 €

10º

370

3 364,63 €

2 208,70 €

 

Entrando na carreira, até ao quarto escalão precisam de 16 anos para progredirem – antes o tempo de serviço como contratados contava para a progressão, mas agora não conta -, além de aulas assistidas em 2 momentos e formação de cerca de 25 horas por ano, ou seja mais 3 dias de trabalho anuais não contabilizado no horário. Quem tiver conseguido entrar para os quadros estará na casa dos 50 e poucos anos e atingirá um vencimento bruto de cerca de 2000 €, levando para casa 1500€. No final do quarto escalão têm outro obstáculo na carreira, a progressão para o 5 º escalão está sujeito a vagas a nível nacional, podendo ficar retido anos, por efeito de este mecanismo.

Um mecanismo idêntico acontecerá na passagem do 6º para o 7º. Portanto nos casos que temos acompanhado, quando estes professores atingirem os sessenta anos, se tudo lhes correr bem, terão atingido o 7º escalão com cerca de 2500€ brutos e cerca de 1750€ líquidos. Reformando-se aos 66 estarão no 8º escalão com 2719€ brutos e levando para casa cerca de 1900€.

Concluindo, ser hoje professor em Portugal exige uma vida de muito sacrifício, como andar com a casa às costas e estar longe da família até se atingir um lugar no quadro numa primeira fase. O tempo desta fase é variável, mas a partir de casos verifiquei que há professores que aos 40 anos andam com a casa às costas ou a fazer viagens desgastantes. Depois de mais cerca de 15 anos (sem contar com o congelamento) enfrentará um número clausus nacional para progredir ao 5º escalão segundo obstáculo não dependente do professor. O mesmo acontecerá no 7º escalão. Assim, se tudo lhe correr bem reformar-se-á no 8º escalão, descontando os seis anos e meio de congelamento ficar-se-á pelo 7º escalão.

Com estas dificuldades começa a haver falta de professores porque esta carreira não é motivadora.

Maio 14, 2019

O estranho caso do ex-diretor da escola do Curral das Freiras: um exemplo contra a autonomia das escolas.

vai-teaosprofessores

 

Um docente construiu uma imagem pública como diretor da escola do Curral das Freiras, umas das zonas mais isoladas da Madeira. Em 2015, surpreendeu o país ao colocar a escola entre as melhores nos rankings, sendo apontada como exemplo de inclusão e aprendizagem. Será que este docente foi louvado ou condecorado?

Não, foi alvo de um processo disciplinar de que resultou uma pena de seis meses de suspensão. Em primeiro lugar foi afastado da direção da escola - antes do início deste ano letivo já tinha sido afastado da direção da “escola-modelo”.Depois da Secretaria Regional da Educação ter decido avançar com a fusão daquele estabelecimento do concelho de Câmara de Lobos com a EB 2,3 de Santo António, no Funchal, foi considerado culpado de 11 das 12 infrações que constavam do processo disciplinar.  

Em primeiro lugar temos aqui uma fusão de escolas em dois concelhos o que é de facto um atentado à gestão autónoma das escolas e até contra a lógica da municipalização em implementação. Portanto, nem autonomia pedagógica, nem autonomia administrativa e financeira ao nível municipal. Este despudor anti autonómico promovido por um governo regional com autonomia terá sido para facilitar a nomeação de instrutor do processo que garantisse uma condenação?

Em causa, no processo disciplinar, estão questões burocráticas relacionadas com o funcionamento da escola, como o controlo da assiduidade de professores (foram substituídas horas extraordinárias por descanso,que garantiam a existência de apoios pedagógicos), a abertura de uma sala de pré-escolar ou a promoção do abandono escolar (aceitou a anulação da matrícula de um aluno de 17 anos que se transferiu para um curso profissional antes de chegar o comprovativo).

Este processo disciplinar visava garantir a prevalência dos normativos sobre iniciativas criativas que asseguraram um maior sucesso escolar.Ou seja, garantir que o sistema de educação continua a ser centralizado e de acordo com os normativos. Quem tem de pensar a educação é o senhor secretário regional e não o senhor diretor (ou os professores nos seus órgãos próprios), mesmo que os resultados provem o acerto das decisões tomadas.

Concluindo, para quem se deixa iludir, o sistema de ensino em Portugal é fortemente centralizado (regionalmente ou no ME) e sem autonomia. Penso que este governos das esquerdas falhou na alteração deste estado de coisas, a pretensa autonomia municipalizada é antes de tudo uma desresponsabilização financeira do Estado central. Falhou também na alteração da gestão das escolas, também ela centralizada no diretor, criando-se órgãos coletivos de gestão e maior autonomia pedagógica (que este diretor tentou concretizar) colegial.

Fonte: https://www.publico.pt/2019/03/26/sociedade/noticia/director-escola-modelo-suspenso-durante-seis-meses-salario-1866782

Maio 07, 2019

A propósito do reforço da internet nas escola

vai-teaosprofessores

Hoje é notícia que o Ministério da Educção vai reforçar a internet nas escolas. Esta notícia é boa, pois permite o uso pedagógico de ferramentas, como o Kahoout, que possibilita fazer questões de aula e corrigi-las de forma simplificada. Refiro este programa a título exemplificativo, mas há mais.

É verdade que todos os alunos têm telemóveis e portanto com uma boa internet se pode fazer uso deles para fins pedagógicos. É um avanço, mas não chega, porque é necessário utilizar outras aplicações informáticas, como programas de contabilidade e de faturação, para só falar os necessários na minha área e previstos em programas de algumas disciplinas.

Ora a utilização de tais programas e acima de tudo ter a possibilidade de fazer uma avaliação diferente, com base em trabalhos, por exemplo, exige computadores. A minha escola tem 6 salas equipadas para 40 turmas, pelo que muitas vezes esta possibilidade de acesso a uma sala de informática para dar um módulo com avaliação por trabalho torna-se difícil ou mesmo impossível, porque as seis salas são prioritárias para os cursos de informática e os outros ficam com as sobras. Exemplificando um módulo da disciplina de economia refere-se ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que se pode dar explicando a construção do índice e como interpretá-lo, com avaliação por teste,  ou colocar os alunos a fazer um trabalho individual relativo a países diferentes sobre o IDH do país selecionado. Esta segunda opção exige sala com computadores.

Concluindo a escola portuguesa ainda está longe das condições facultadas pelos países mais desenvolvidos para a prática do ensino.

Olhando agora para os fatores realçados por Guinote no Educare que explicam a falácia da comparação com a Finlândia, temos de acrescentar este. Será que podemos comparar o ensino em Portugal, ainda com recursos informáticos limitados com países em que as salas de aulas já estão todas equipadas com material informático? Claro que não, este é mais um constrangimento do ensino em Portugal que condiciona um ensino com a tecnologia disponível no século XXI e motivadora para os alunos que já usam essa tecnologia no dia a dia.