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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Julho 22, 2019

As propostas do Arlindo: comentários e contrapropostas

vai-teaosprofessores

Estive à espera do conjunto de propostas para as poder comentar e ter uma visão holística. Antes de mais, obrigado por proporcionares este debate, Arlindo. Relembro que desempenho funções de coordenador de departamento, para justificar as minhas propostas alternativas em face da minha experiência.

Começo pela última, sobre a gestão, em que os professores elegem os coordenadores de departamento e estes o diretor, que acho uma via possível. Outra via é os professores elegerem os coordenadores de departamento e o diretor ser eleito no Conselho Geral, mas com legitimidades próprias e independentes. Eu prefiro a eleição direta quer de coordenadores quer do diretivo (colegial). O importante é haver eleições e concordo com a independência entre direção e coordenadores de departamento. Também acho que o presidente do CP deve ser eleito entre os coordenadores de departamento.

Depois a carreira docente teria segundo a proposta 5 escalões entre os índices 200 e 300, portanto havendo uma redução entre o início e topo da carreira de 2,2 para 1,5. Esta proposta é favorável aos professores em início de carreira e desfavorável aos do fim da carreira. A valorização das funções de direção com índices à parte não me parece feliz porque desvaloriza a função essencial do professor que é ensinar, além de valorizar a gestão. Rejeito-a pois não me escandaliza haver um diretor a ganhar o mesmo que um excelente professor na sua relação com os alunos. Além disso, ignora que muitos professores passam uma dezena de anos na pré-carreira. Depois a carreira seria de 40 anos quando por volta dos 30 se deveria atingir o topo. Portanto, os escalões deveriam ser de 5 anos no máximo. Haveria um índice de 180 para a pré carreira, em que o docente faria o período probatório. Depois os escalões seriam de 5 anos, entre os 200 e os 370 para todos. Contudo, aceito que os coordenadores de departamento e elementos da direção, receberiam pelos 340 enquanto estivessem em funções, se não tivessem atingido esse nível, com o presidente do diretivo nos 370.

Quanto à avaliação, a ideia principal é não se centrar no relatório de autoavaliação, pelo que a elaboração de um trabalho defendido perante um júri parece-me aceitável.

Concluindo, corrijo algumas das propostas do Arlindo, realçando a necessidade de democracia direta nas escolas, extensível aos alunos do secundário, que é uma forma de se combatera abstenção nas eleições que se realizam no país. A segunda ideia forte é discordar que a gestão é mais importante do que ser bom professor, que indiretamente está implícita na proposta do Arlindo.

Julho 15, 2019

Os magistrados, os médicos e os professores

vai-teaosprofessores

Recentemente a Assembleia da República aprovou a possibilidade de o vencimento dos juízes ultrapassarem o vencimento do Primeiro Ministro. A explicação para esta medida é os juízes serem titulares de órgãos de soberania.

Em primeiro lugar acho que os detentores de cargos políticos deviam ter os salários mais altos. Mas o que mais me preocupa é aparentemente não haver aqui uma política de quadros do Estado e tomarem-se medidas avulsas. Antes havia o conceito de corpos especiais que teriam uma remuneração condigna e estes corpos, entre outros, englobavam os magistrados, os médicos / enfermeiros e os professores. Depois com os problemas financeiros os vencimentos sofreram cortes diretos e indiretos devido ao aumento da tributação.

Na fase de reposição de direitos em que continua a haver rateio da disponibilidade financeira, que o crescimento e a diminuição dos juros da dívida vão disponibilizando, os corpos especiais mais numerosos têm mais dificuldade em repor o que já tiveram. Lembrando que neste rateio o acudir ao sistema financeiro é uma primeira prioridade absoluta, aparece agora como outra prioridade os magistrados judiciais (juízes e procuradores). No caso destes últimos serão beneficiados os do topo da carreira mas também os mais novos que vêm encurtados de 10 para 2 anos o acesso a um vencimento bastante acima de médicos e professores.

Acredito que poderá estar na base desta decisão o número pequeno de magistrados que beneficiam desta reposição e reforma da carreira, portanto tem subjacente uma lógica financeira. Mas, altera-se a política anterior de haver uma preocupação em ter remunerações condignas também para médicos e professores, na medida em que se reconhecia o seu estatuto de corpos especiais. Este estatuto estava ligado ao reconhecimento da saúde e educação como variáveis estratégicas da nossa sociedade. Logo com o descolar dos magistrados, a saúde e a educação aparecem secundarizadas.

Concluindo, paulatinamente as restrições financeiras estão a pôr em causa um consenso da sociedade, em que os tribunais, o sistema de saúde público e as escolas eram considerados fatores chave para a existência de desenvolvimento económico e não mero crescimento. Falta saber se é um dano colateral das restrições financeiras ou se é uma política deliberada. Os profissionais de saúde e educação ao serem deixados para trás significa que as prioridades da sociedade estão a mudar. Com a desculpa dos problemas financeiros o Estado liberal – assente na trilogia polícia, exército e tribunais – vai-se impondo e o Estado social, em que a educação e a saúde são essenciais, vai perdendo gás e os seus profissionais vão sendo desvalorizados na hierarquia das remunerações.

Julho 09, 2019

Estudos provam que o elevador social funciona com deficiências na escola pública.

vai-teaosprofessores

Um estudo analisa os resultados obtidos a partir de dados relativos aos alunos que no ano letivo de 2011/2012 frequentavam o 6.º e 9.º anos em escolas públicas, como explica ao EDULOG um dos seus autores, Luís Nunes, investigador da Nova School of Business and Economics, Universidade Nova de Lisboa.

 Olhando para a dimensão da turma, mas também para a sua composição – através de indicadores relacionados com os alunos, como a idade, o sexo, o escalão de apoios sociais escolares, o acesso a Internet em casa - “o efeito do tamanho da turma não é significativo, enquanto os outros fatores que têm a ver com a própria composição da turma acabam por ter mais influência relativamente ao seu tamanho”.

Nos últimos dias, foi-nos também apresentado pelo Jornal Público um estudo feito pela Edulog, Fundação Belmiro de Azevedo,  que vem reiterar que a escola como elevador social apresenta deficiências.

Segundo o estudo, o nosso sistema de ensino reproduz desigualdades económicas e sociais, ou seja, quem é pobre terá menos oportunidades com o atual sistema de ensino, quem rico é, terá mais hipótese de acesso aos cursos superiores mais procurados e com maiores médias. Por exemplo 70% dos estudantes de medicina são filhos de pais com formação universitária e somente 8% têm bolsa de estudo.

Estes estudos mostram-nos que a igualdade de oportunidades começa na formação de turmas e quanto mais homogéneas forem em termos de realidade social melhores podem ser os resultados, mas mais se reproduz a sociedade ficando os pobres sem hipótese de ascensão social. Esta é a estratégia dos privados (também de algumas públicas nos centros urbanos), fazem turmas homogêneas, selecionando alunos.

Estes resultados sobressaem depois no ensino superior em que os melhores alunos vão para os cursos como medicina, algumas engenharias e arquitetura. Os alunos das classes mais pobres tem tendência a ir para os politécnicos, segundo o estudo divulgado pelo jornal Público.

Concluindo, estamos pois a reproduzir a sociedade e não a alterar a estrutura social através da educação.

Julho 02, 2019

As reformas necessárias do ensino básico e secundário em Portugal

vai-teaosprofessores

A principal reforma a fazer em Portugal seria mudar a gestão das escolas, deixar o modelo gerencialista (gerir a escola como uma empresa) e voltar à gestão democrática, com eleição direta de uma direção (não diretores) com base em listas, com eleição de alunos para certos órgãos, como garantir a presença no Pedagógico de 2 alunos do secundário quando se discutir a forma de avaliação e a aprovação das atividades extracurriculares a desenvolver, o atual PAA. A existência de uma Assembleia de Escola, com participação da comunidade, seria um órgão que definiria as opções estratégicas e fiscalizador, com poderes para convocar novas eleições. É na escola que se combate o absentismo eleitoral criando hábitos de participação cívica.

A segunda reforma a fazer seria diminuir a carga burocrática que recai sobre os professores, através de um simplex administrativo e com recurso a plataformas informáticas. A definição clara de serviço letivo e não letivo também se impõe.

Aceito a visão do perfil do aluno com as diversas competências elencadas, mas resolvendo a contradição com o acesso ao ensino superior, isto é, passando o acesso ao ensino superior para as universidades. Sem este passo, a lógica de avaliar competências diversificadas é subalternizada pela avaliação de conhecimentos nos exames, que são limitados a certas áreas.

No ensino profissional preconizo mais formação em contexto de trabalho e menos conteúdos de formação geral. Garantir a abertura de cursos só quando há instalações adequadas ao curso ministrado e recursos informáticos mínimos.

Caminhar para um ensino personalizado, não é reduzir o grau de exigência, mas criar condições para que o aluno tenha sucesso com mais tempo de ensino e mais oportunidades de recuperação com base no esforço do aluno, quando necessário. Menos alunos por professor é uma medida a acelerar, quer reduzindo os alunos por turma, quer implementando mais coadjuvações, que hoje se reduzem a uma média de uma em cada 15 dias. Estas deviam ser semanais para metade das horas letivas. A possibilidade de haver recuperações de conteúdos / grupos depois dos testes é também um caminho, para se evitar o desinteresse do aluno por conteúdos específicos em que teve fraco desempenho. Assim, o teste funcionaria também como avaliação formativa, além da sumativa, permitindo identificar e recuperar conteúdos apreendidos de forma insuficiente pelo aluno, através da substituição da nota do grupo pela da questão de aula a realizar à posteriori. O essencial é não haver medidas que baixem a exigência, mas que permitam novas oportunidades de recuperar conhecimentos aos alunos.

Há reformas que exigem recursos financeiros, mas outras há que dependem somente da vontade política. Quanto aos recursos financeiros, a tendência para a redução de alunos, via redução da natalidade, abre portas a uma libertação de recursos que podem ir sendo canalizados para algumas das reformas aqui preconizadas.

Há também uma reforma de mentalidades dos governantes, não verem o ensino como despesa, antes como investimento e valorizarem os professores como elementos centrais desse investimento conseguir os resultados esperados. Há também a necessidade de acabar com a promoção de reformas sem serem devidamente avaliadas, isto é, cada governante chega com as suas ideias e implementa-as sem avaliar se o que estava funcionava. O querer «deixar marca» leva à instabilidade sistémica e pode acabar com o que estava a dar resultados.