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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Outubro 28, 2019

O programa do governo e a educação.

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior a questão do modelo de gestão foi por mim considerada a principal questão para haver uma escola onde se praticasse a democracia e onde se estimulasse a participação como preparação para a vida adulta. Ora, no dito programa, aparece uma referência a esta questão no sentido de adequar o modelo de gestão «ao novo quadro que resultou do processo de descentralização e aos progressos feitos em matéria de autonomia e flexibilização curricular». Portanto, subordinação ao poder autárquico sem nenhuma preocupação em fomentar a democracia direta. Ao mesmo tempo promete-se a valorização das funções de direção, incluindo as chefias intermédias - lembram-se das propostas do Arlindo, que foram por mim comentadas na altura, de reservar os últimos escalões para a direção, incluindo coordenadores de departamento? Pareceu-me um ensaio de revisão da carreira docente e agora esta frase genérica revive o assunto, será coincidência?

Ainda relacionado com isto temos o debate sobre «em torno das carreiras da Administração Pública é inevitável. As progressões na Administração Pública custam todos os anos 200 milhões de euros. Deste valor, quase 2/3 é gasto em carreiras especiais em que o tempo conta no processo de progressão, e que cobre cerca de 1/3 dos trabalhadores do Estado. Este desequilíbrio deve ser revisitado. O aumento desta despesa não pode continuar a limitar a política salarial na próxima década e a impedir uma política de incentivos na Administração Pública que premeie a excelência e o cumprimento de objetivos predefinidos.» Esta parte do programa do governo remete para uma alteração profunda no modo de progressão da carreira dos professores, a ser negociada pela nossa ex-secretária de Estado, agora ministra, precisamente com a responsabilidade das carreiras da administração pública e profunda conhecedora da carreira dos professores, o que não me parece uma simples coincidência.

Depois realçaria a continuidade da procura do sucesso administrativo, agora assumido explicitamente: «Criar um plano de não retenção no ensino básico». Esta visão da escola encontra-se nos antípodas das necessidades de acabar com a indisciplina e promover a responsabilidade, a minha segunda prioridade na educação. Lembro-me de num conselho de turma intercalar uma mãe ter dito que os problemas de indisciplina eram previsíveis uma vez que no ano anterior os alunos indisciplinados e com aproveitamento negativo tinham sido premiados com notas votadas, pelo que não tiveram qualquer motivação para mudarem, antes pelo contrário, pelo que não entendia a queixa dos professores sobre o seu comportamento já que este era expectável.

 Depois a referência ao que pode ser um doce, inserido numa lógica de valorização dos professores em início de carreira (também prometido na carreira de técnicos superiores), a promessa de uma revisão do modelo de concurso para professores e dos QZP.

Concluindo, leio que no programa de governo para a educação uma revisão profunda da carreira docente com o objetivo de reduzir os escalões de acesso a todos os docentes, mantendo os escalões de topo só para alguns, talvez para a direção e chefias intermédias. Leio também a manutenção da indisciplina e a não responsabilização do aluno. O caminho é garantir aos alunos com dificuldade de aprendizagem essa aprendizagem, sem diminuir o nível de exigência, caminho este que parece não ser o do governo que quer resolver o problema do insucesso sem gastar recursos e apela via administrativa.

 

 

Outubro 23, 2019

A falta de professores e a agressão a um aluno por um «professor».

vai-teaosprofessores

Em artigo anterior chamava a atenção para a falta de professores como um problema da educação, com impacto residual, mas que se pode tornar um problema estrutural a prazo. Dizia também que para quem navega (governa) à vista o mais provável é ignorar os problemas que não são prementes.

Por outro lado, foi notícia esta semana a agressão de um professor a um aluno por causa de um telemóvel. Uma agressão é sempre uma agressão que devemos repudiar e que envergonha a classe.

Mas depois soube-se que este «professor» foi contratação de escola e não tem profissionalização. É, portanto, um professor de recurso e não de carreira que encontrou trabalho no ensino sem estar preparado para este trabalho – nos Estados Unidos distingue-se o professor preparado do professor inexperiente chamando a este de professor substituto. Mais, isto aconteceu numa das áreas carenciadas do ensino em certas regiões: a informática. A conexão entre falta de professores e «professores» agressores está feita.

Confesso que não previ que o problema da falta de professores pudesse causar um problema destes, isto é, o recurso a profissionais pouco preparados pudesse levar a uma situação mais grave que é o uso da agressão por parte de um «professor». Mais uma vez me enganei, o que previa ser um problema residual, acabou por se transformar, por falta de preparação de uma pessoa ou temperamento, num problema grave e inadmissível, como o recurso à violência, que vai ser usado conta a classe.

Neste artigo refiro-me ao colega agressão como professor com aspas e identifico esta situação como uma falha do sistema que está a levar a haver contratação de professores sem que estes estejam preparados para o serem. Mas esta não é a visão de todos, uns dirão que isto é um mau exemplo da profissão, mas esquecem-se que este não era um profissional, pois não tinha a parte da profissionalização. Quando comecei a dar aulas havia também o recurso a pessoas só com formação superior mas sem preparação para serem professores, mas em geral estes ficavam com o ensino noturno para adultos, que hoje já não existe. Isto é, não tinham logo que enfrentar adolescentes, alguns revoltados por terem de andar na escola, o que exige o desenvolvimento de técnicas e estratégias para os trazer para dentro da escola.

Concluindo, há um recuo do recrutamento residual para o ensino ao que se passava nos anos oitenta: o recrutamento de pessoas com formação técnica, mas sem a componente psicológica, sociológica e pedagógica, que todos os professores necessitam. A eliminação deste tipo de recrutamento a partir dos anos noventa traduziu o maior acesso dos jovens ao ensino superior e o desenvolvimento das escolas de educação no ensino superior. Recuar no tempo é um sinal de alarme.

Em contraponto, continuam os casos de agressões a professores e funcionários, mas como este tipo de notícias já caiu na rotina, estes casos passam para segundo plano. A violência deve ser condenada em qualquer circunstância e neste caso o que está por detrás da notícia também deve preocupar os decisores públicos: a perda de autoridade do professor. Como mostrei em artigo anterior a indisciplina mina o funcionamento das escolas e prejudica também os alunos empenhados e esta deriva também da perda de autoridade do professor.

Por último, constatar que o «professor» agressor foi logo preso – o que me parece correto – enquanto os agressores de professores e auxiliares educativos aguardam por queixa e por inquérito judicial – aqui é que acho que devia haver o mesmo tratamento por parte das autoridades.

Outubro 16, 2019

Uma aula com alunos indisciplinados

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Aqui vai o resumo de uma aula pouco produtiva. O professor chega 3 minutos depois do toque, só 1/3 dos alunos está já à espera do professor. Os outros vão chegando a conta-gotas, os últimos apareceram já passava 15 minutos depois do toque. A partir dos 5 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que será marcada uma falta de atraso (a cada 3 destas faltas corresponde uma falta de presença). A partir dos 10 minutos o professor anuncia aos alunos atrasados que terão falta de presença. A aula arrancou aos solavancos e sempre a ser interrompida, o que não permite que haja ambiente de trabalho e concentração.

Depois há vários incidentes disciplinares, há alunos apanhados ao telemóvel, há alunos a conversar, tudo isto obriga o professor a interromper o assunto da aula e a tratar destes incidentes. Um dos alunos é apanhado uma segunda vez ao telemóvel e o professor manda o aluno para a biblioteca, seguindo o regulamento interno, pelo que sai da sala para chamar a auxiliar educativa para acompanhar o aluno e escrever num papel o motivo da ordem de saída da sala de aula e que trabalho deve o aluno fazer na biblioteca, onde um professor, de serviço na biblioteca, vai fazê-lo cumprir a atividade.

Aqui duas coisas podem acontecer, ou o aluno vai para a biblioteca ou recusa-se a ir, como algumas vezes acontece e a funcionária regressa à sala de aula para comunicar que o aluno se recusou a cumprir a tarefa, o que deverá dar origem a uma participação disciplinar grave, que vai originar um conselho de turma para propor à direção uma medida disciplinar. As ordens de saída da sala de aula só ao fim de 3 dão origem a processo disciplinar.

Com isto já passaram 2/3 do tempo de aula (50 minutos), o professor queria dar um dado tema e não conseguiu, o planeamento ficou comprometido. Para o último terço estava previsto a resolução de exercícios. O professor decide avançar para o exercício e explicar como resolvê-lo, quando devia ter dado oportunidade aos alunos de tentarem a sua resolução, num processo construtivista, mas não teve tempo.

Concluindo, a indisciplina mina o processo de ensino / aprendizagem, prejudicando o decorrer da aula e acima de tudo os alunos que querem aprender. Depois existe uma imensa burocracia de papelada a preencher, alguma durante a aula e outra depois se a situação for grave, neste último caso vai ser convocado um CT e vai-se discutir medidas disciplinares, sabendo nós que enviar alguém para casa com suspensão de dias é um prémio para o aluno, que se vai vangloriar de não ir à escola, havendo inúmeras dificuldades em implementar outro tipo de medida, como trabalho comunitário, que deve ter a concordância dos pais e da direção, que alega não ter funcionários para acompanhar os alunos castigados.

Outubro 09, 2019

Aproxima-se uma crise no ensino devido à falta de professores?

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A resposta a esta pergunta passa por equacionarmos várias situações:

Em primeiro lugar o ataque feroz à profissão que vem do tempo da Maria de Lurdes Rodrigues e com a crise a desvalorização da carreira quer socialmente quer monetariamente pode estar a afastar candidatos a professores da profissão, como nos mostram a diminuição de candidatos aos cursos de formação de professores.

Depois quem entra na profissão sofre para entrar na carreira, ou seja, sofre para entrar no quadro. Do ponto de vista do professor: tem um salário mais baixo correspondente à pré-carreira, é afastado da família ou tem um desgaste (pessoal e custos acrescidos) com os quilómetros que tem de fazer. Esta precariedade prolonga-se pelo menos durante uma década na maioria dos casos. Ma s o ensino também fica pior com o arrastar da precariedade como nos bem descreve Guinote  em https://www.comregras.com/descontinuidade-pedagogica-paulo-guinote/, num artigo com um título sugestivo, «descontinuidade pedagógica».

Por outro lado, esta precariedade é agravada com o que se passa na sociedade na perspetiva do imobiliário, onde com o preço proibitivo da habitação, em especial no arrendamento, que é a solução para os professores deslocados da sua habitação familiar, tem afastado os professores de certas zonas como o Algarve e Lisboa, aparecendo cada vez mais situações de horários que não são preenchidos. Já agora a este propósito salienta-se que entre os médicos, juízes e professores, estes últimos são os únicos que não têm apoios para ter habitação quando deslocados, quer do governo central quer do local, o que é mais um indicador da perda de estatuto social.

Outro aspeto desta questão é a intensificação da intensidade do trabalho devido à implementação de estratégias de combate ao insucesso escolar, à custa de trabalho com alunos em tempo não letivo e à intensificação de reuniões de coordenação, tudo isto aumentando o trabalho burocrático. Este aspeto tem levado ao burnout, o que faz com que os atuais professores não incentivem o ingresso na profissão.

Concluindo, contrariamente ao que o PM Costa disse num debate, que só é necessário mexer na carreira / aposentação dos monodocentes, há muito trabalho a fazer na área da educação para garantir que a profissão docente não entre em crise aguda. Mas como possivelmente uma crise aguda não estará no horizonte de uma legislatura, o mais provável é nada ser feito. A ser assim, corre-se o risco de a médio prazo surgir a tal crise, ainda que ano após ano, os sinais que já existem se vão agravando. Por tudo isto, um governo com apoios pontuais no parlamento será uma solução que pode adiar medidas de fundo necessárias para o ensino incentivando a tática da avestruz que é ignorar os problemas quando não são permentes.