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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Abril 29, 2020

Balanço de duas semanas de ensino à distância.

vai-teaosprofessores

Em primeiro lugar, por ser o mais importante, tenho 10% dos alunos ainda sem meios tecnológicos de acesso ao ensino à distância. Esta desigualdade é decisiva porque nestas duas semanas o ensino foi só para 90%. A escola que se pretnde igualitária está a acentuar as desigualdades.

Os 90% dos alunos que participam, não fazem deliberadamente a ligação por imagem, só por voz. Isto diminui a interatividade das aulas síncronas e a possibilidade de comprovar quem efetivamente está na aula…, respeita-se a lei do direito à imagem, mas as aulas tornam-se mais pobres. Tem havido respostas às tarefas pedidas, mas com um esforço mínimo e muitos copiando de um colega, pois os textos são iguais. Como alguém dizia preserva-se o mínimo que é manter os alunos ligados à escola (estes 90%, admitindo que não pediram a um familiar para estarem presentes). Dadas as circunstâncias já é algo positivo. Este modelo é aceitável numa situação de emergência, mas se houver necessidade de continuar temos de o melhorar bastante, nomeadamente o reconhecimento efetivo de quem participa.

Da parte dos professores o esforço feito foi tremendo e meritório, pelos alunos, falta calibrar o seu entusiasmo percebendo que ensino à distância é diferente de presencial, como interiorizar que há mais disciplinas, que mandar ler obras (nas línguas) está fora de questão e que é preferível realçar trechos de obras, nas questões fugir das mais complexas e centrar-se nas mais simples, portanto nivelar por baixo, dar prioridade à consolidação de matérias em vez de novas temáticas. O entusiasmo é tanto que quem tem só sessões síncronas quinzenais pediu semanais, não percebendo que se dermos trabalho em demasia os alunos não o fazem.

Portanto se temos um sistema que dá para lidar com a emergência e com muitas imperfeições, bastante menos exigente que o ensino presencial, a avaliação tem de levar isto em consideração, pelo que propus ao pedagógico que descida de classificações só muito bem justificadas, podendo-se premiar os alunos empenhados com mais um valor, tanto mais que a nota do terceiro período deve levar em linha de conta o ano inteiro e as circunstâncias particulares do terceiro período.

Sobre o grande debate dos exames, nomeadamente feito esta semana no ComRegras, lembro que foi opção clara do governo mantê-los, mas perdeu-se uma oportunidade de dar autonomia ao secundário e passar o acesso ao superior às universidades, acabando de vez com a prática de inflação de notas, que enviesa bastante o acesso ao superior. Esta foi uma opção política / ideológica, que traduz um PS mais conservador na área da educação e que não quer criar ruturas na sociedade portuguesa.

Abril 15, 2020

Reconheço que errei.

vai-teaosprofessores

No post antes deste, «Costa deu prioridade aos exames», critiquei a equipa da educação pela prioridade dada aos exames, que promove a normalização da avaliação, pondo de lado a lógica da prioridade ao indivíduo e a medidas que visem personalizar o ensino.

Já havia esta dicotomia na legislação educativa, com os exames versus perfil do aluno e medidas universais. Mas não levei em conta na minha análise o facto de os exames agora não servirem para o cálculo da nota do secudário, mas somente para o acesso ao ensino superior, restringindo os exames que os alunos que queiram prosseguir os estudos devem fazer, podendo ser no limite de apenas 1.

Isto muda o carater absoluto da minha crítica, reconhecendo um certo equilíbrio na decisão do governo, contudo, sem deixar de ser verdade que atualmente há uma dicotomia entre a lógica da existência de exames e o ensino mais personalizado, dicotomia essa que foi mitigada agora com o novo papel dado aos exames, de servirem excluisivamente para o acesso ao ensino superior.

Contudo, não deixa de ser real que um aluno que tenha sido alvo de medidas universais continua a não estar tão bem preparado para realizar os exames, mesmo que seja só um, se essas medidas baixarem o nível de exigência, como acontece a maior parte das vezes.

Abril 09, 2020

Costa inclinou-se para a prioridade aos exames.

vai-teaosprofessores

No dia 9 de abril o governo decidiu como vai ser o ano letivo, aulas na RTM Memória até ao 3º ciclo, sem avaliação, e aulas presenciais para para o secundário, em data a definir, com uma alteração na forma dos exames onde passa a ser possível escolher questões para obviar a matérias que tenham sido pouco aprofundadas ou mesmo não dadas.

O meu comentário a estas medidas é que os exames são uma prioridade educativa para este governo. Reconheço que os exames são um fator de equilíbrio entre as várias escolas com vista a seriar os alunos, aliás opinião que partilho com Santana Castilho conforme o expressou esta manhã num dos canais televisivos.

Mas, aqui não posso deixar de salientar uma certa esquizofrenia entre esta opção e  o perfil do aluno, as medidas universais e a autonomia pedagógica, pois se os exames são importantes para uniformizar, as outras medidas vão no sentido de personalizar o aluno e tirar dele uma competência específica ou adaptar o ensino ao seu ritmo de aprendizagem. Exemplifico um aluno com jeito para a música, um dos perfis previstos no fim do secundário não precisa dos exames para o seu futuro.

Depois, quero salientar que ao contrário de outros países europeus que deixaram cair os exames e recomeçam a escola pelas idades inferiores, a relevância dada aos exames fez o governo começar pelos mais velhos, os do secundário. Julgo que os outros governos dão prioridade à economia e assim faz todo o sentido tomar conta dos mais novos para os pais poderem regressar ao trabalho, enquanto o nosso ao dar prioridade aos exames faz regressar à escola os mais velhos.

A haver regresso às aulas em maio teremos de reorganizar as turmas para diminuir o risco de infeções. Não percebi se vai haver só aulas presenciais para as disciplinas que tenham exames, o que permitiria desdobrar as turmas para ficarem com os alunos respeitando o 1,5 metro de distância, mas se for essa a opção seria coerente com a prioridade dada aos exames.

Concluindo, os defensores dos exames e da uniformização ganharam este round e os defensores da personalização perderam, quando aparentemente a equipa da educação se inclinava para o outro lado da diferenciação/personalização. Ou isto é um interregno para não criar divisões - com o Presidente? - em época de pandemia, ou a equipa da educação viu a sua política desautorizada.

Abril 01, 2020

A escola centra-se no relacionamento entre pessoas.

vai-teaosprofessores

Estes tempos de confinamento, imposto pela Convid, vêm mostrar que a escola tem uma dimensão que a tecnologia, só em parte, consegue mitigar: o relacionamento humano.

De facto, o que tenho mais saudades como professor são a interação com os alunos e com os outros professores. Tenho saudades das traquinices dos alunos e depois de interagir com eles para as resolver, ajudando-os a crescer, tenho saudades das aulas, mesmo com interrupções constantes. Tenho saudades das reuniões presenciais em que ao interagirmos com os colegas, nos tornamos humanos, mesmo que as critiquemos pela pavorosa burocracia.

Nem tudo está bem na escola portuguesa, nomeadamente a aplicação de um modelo de gestão empresarial que afasta a democracia mais pura, pois, como já escrevi, umas eleições limitadas não são motivo para se dizer que há democracia, quando ela passa a depender do comportamento do diretor e não de um sistema de balanço de poderes, complementado com um processo administrativo mais musculado que permite tornar a liberdade de expressão em contencioso administrativo, em nome da liderança única, quando se transforma em perseguição de quem pensa diferente.

A escola também tem sido madrasta para a classe docente, com a sua carreira ao sabor das necessidades orçamentais.

Mas agora que estou, por imposição, afastado da escola, faz-me falta, mesmo com todas as imperfeições que tenho vindo a denunciar.

Isto também vem demonstrar que a chamada «escola do século XXI» deve ser construída com cuidado, para se manter o lado sociológico da escola, que é interação entre pessoas. A tecnologia pode melhorar o ensino, mas não deve destruir as relações humanas. Contudo, no lado tecnológico a escola está quase obsoleta e com falta de equipamentos adequados, porque também sofreu uma travagem acentuada no investimento em meios tecnológicos desde a anterior crise. A tecnologia é importante na escola e pode melhorá-la, e o primeiro passo é investir na tecnologia ao seu dispor. Mas a tecnologia não é a panaceia para todos os problemas.