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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

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Um problema no E&D: o direito à imagem.

vai-teaosprofessores, 17.06.20

Nas sessões síncronas uma maioria bastante significativa dos meus alunos não têm disponibilizado a sua imagem com base no direito à sua imagem. O professor tem à sua frente um ecrã com mosaicos escuros. Esta situação tem de ser resolvida para se poder utilizar o ensino à distância, pois como as coisas estão não sabemos se os alunos estão presentes nas aulas à distância. Para contornar este problema comecei por solicitar a sua participação com voz, o que só resultava marginalmente, depois em vez de fazer a chamada no início, comecei a fazê-la no meio ou mais perto do términos da sessão. Mas tudo isto é contornar o problema principal que a seguir se explana.

Os alunos têm de frequentar a escola obrigatoriamente até aos 18 anos, no ensino presencial há a recolha de faltas e também o controlo da postura do aluno na sala de aula. Não se percebe porque não haja também um controlo visual do aluno durante o E&D. Portanto, o normal seria o aluno disponibilizar a sua imagem e estar apresentável para participar na mesma, tal como se viesse para a escola, pois a aula à distância substitui a aula presencial, estão porque permitimos que o aluno ainda esteja na cama, como alguns me confessaram, para não mostrarem a imagem? Além de que não sabemos se o aluno está a prestar atenção ou se está ao telemóvel. Assim, para o ensino à distância continuar e eu espero que seja somente como supletivo do ensino presencial, tem que se legislar para que o aluno que esteja presente nas aulas síncronas, mostre a sua imagem e tenha postura adequada. Entre o direito à imagem e a obrigatoriedade de frequentar a escola, mesmo no E&D, com controlo dos alunos pelo professor, acho que deve prevalecer a segunda, já que a educação é um bem coletivo e o direito à imagem é individual.

Claro que este não é o único inconveniente do E&D, mas os outros, como a interação professor/aluno limitada, a discriminação dos alunos que não têm acesso à tecnologia, o que limita a escola pública como elevador social, já foram abundantemente referidos, tornam o E&D um remendo em alturas de crise. Deixo em aberto que possa suplementar o ensino presencial, mas o aluno deve ter deveres, como o de mostrar a sua imagem e apresentar durante a aula uma postura adequada, tal como tem deveres no ensino presencial. Além disso, tenho conhecimento de tentativas de boicote das aulas síncronas, como alunos que acedem mais cedo ao «classroom» para controlarem a sessão e tirarem o som ao professor, ou mesmo situações de indisciplina que levaram à exclusão de alunos destas sessões, pelo que é fundamental o professor ter controlo das aulas.

Concluindo, o E&D pode ser uma forma de complementar o ensino presencial, mas o direito à imagem não pode servir de pretexto para o aluno não ser controlado pelo professor, em termos de presença e postura durante as aulas, senão as aulas à distância deixam de ter dignidade.

A questão da inflação das classificações internas.

vai-teaosprofessores, 03.06.20

A «inflação de notas» é um tema agora na ordem do dia, porque o ministério ameaçou a classe docente com ações da inspeção se houvesse subida das notas anormais (?), agora que os exames só contam para o acesso ao superior. Depois surgiram notícias que estavam em vias de se concluir inquéritos sobre o mesmo assunto que vinham de anos anteriores. Tudo isto tentando pressionar os professores. Por fim, os inspetores reagiram à ameaça do ministério alertando para a dificuldade de provar estas situações.

Em primeiro lugar, quero lembrar que a orientação do ministério, acompanhadas por muitos diretores, é não haver reprovações. Para que isto aconteça haverá subida de notas para se atingir os níveis de passagem de ano. Portanto, uma orientação que leve à subida de notas não é inflacionar notas, é governar, ou seja, depende de quem o sugere, se for por iniciativa dos professores é inflacionar notas, se for por orientação ministerial ou do/a diretor/a já não é inflacionar notas.

Outra situação que levou à subida de notas (não inflação!) foram as medidas universais, que permitem aos alunos recuperarem ou evitarem classificações negativas, por exemplo promover exercícios mais fáceis para os alunos com dificuldades de aprendizagens e permitir testes de recuperação parciais de grupos negativos nos testes. Mais uma vez estamos perante orientações de política educativa pelo que não há inflação de notas! Mas atenção, a orientação ministerial é só ao nível da passagem / retenção do aluno.

Depois, temos um outro nível, o do acesso ao ensino superior, onde falar de inflação de notas é também falar de colégios privados que para manter uma clientela têm notas de classificação interna elevadas para compensar eventuais azares nos exames, nomeadamente as notas têm uma amplitude somente entre 17 e 19 ou a existência de um número anormal de 18s, 19s e 20s. Nestes casos o ministério atuou em algumas situações, logo ao nível de acesso ao superior o ministério já considera a subida de classificações dos alunos um problema.

No ensino público a minha experiência também permitiu constatar que quando os professores têm filhos no secundário, mesmo não dando aulas às turmas dos seus filhos – o que é ilegal -, tornam-se mais sensíveis nas classificações atribuídas de forma a acautelar um eventual azar nos exames. Depois os professores que não tiveram esta sensibilidade, ao se aperceberem desta situação, acabam por alinhar neste clima, para não prejudicar os seus alunos. Portanto, o clima tende a ser subir as classificações internas.

Concluindo, temos assistido nos últimos anos a uma tendência de subida das classificações internas, umas vezes por influência direta das orientações ministeriais, outras por interesses dos privados em satisfazer as suas clientelas, outras por maior sensibilidade dos professores à situação que os filhos vivem, o que acabou por ir provocando subida das classificações internas. Claro que neste clima há exageros como pautas só com classificações elevadas. Há, portanto, motivos para a inspeção intervir em certos casos, mas nada justifica a ameaça feita pelo ministro, pois todos têm contribuído para a situação. O que tem de fazer é agir nos casos que o justifiquem, hoje é fácil, com o recurso à informática, tratar dados e obter a informação das situações mais aberrantes.