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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Os percursos diretos: uma nova pressão sobre os professores.

vai-teaosprofessores, 15.07.20

Percursos diretos realizam-se quando um aluno faz o número de anos de um ciclo sem repetir qualquer ano. Ainda recentemente numa inspeção tive conhecimento de que os inspetores se centraram muito mais neste indicador, do que nos resultados dos exames e nas diferenças entre notas dos exames e a classificação interna. Logo este indicador tende a tornar-se central para muitas direções.

Mas, este novo indicador é mais uma fonte de pressão sobre os professores e conselhos de turma, quer nos percursos de prosseguimento de estudos, quer nos percursos mais profissionalizantes.

Nos cursos de prosseguimentos de estudo evita-se reprovar alunos, deixando para os exames a resolução de algumas situações, optando-se por votar notas. Nos cursos profissionais tem-se vindo a ser menos exigente nas Provas de Aptidão Pedagógicas (PAP), que é um trabalho final de curso. Verifico aqui um aumento do facilitismo, porque as PAP deveriam ser um processo acompanhado pelo professor, mas há cada vez mais alunos a apresentarem somente o produto final sem qualquer controlo anterior pelo professor, o que dá origem a fenómenos de copy e paste, e depois, mesmo que o aluno não tenha capacidade de explicar o que escreveu, tem a nota mínima para ter o percurso direto e a escola ficar bem na fotografia.

Nas inscrições para exames os períodos de inscrição são flexíveis (!), aparecendo em cima da hora novas inscrições, com os professores a fazerem as matrizes e as provas à pressa. Estes exames tendem a ser cada vez mais um trabalho, (de copy e paste?) que os alunos têm de defender perante um júri, quando os colegas fizeram testes ou trabalhos acompanhados pelos professores. Os alunos têm cada vez mais a expetativa de que se não fizerem um módulo no período de aulas, o farão por exame, sem grande esforço. A pressão dos percursos diretos está a abrir caminho a facilitismo nos exames de recuperação de módulos.

Concluindo, os percursos diretos, uma nova forma de acompanhar o desempenho das escolas, sendo uma alternativa aos rankings baseados em notas dos exames, é mais um fator que tem vindo a alterar o rigor que era apanágio do ensino público. Agora há menos controlo sobre o processo de construção das PAP, abrindo-se as portas à fraude, os exames de recuperação de módulos passam a ser facilitados e com grau de dificuldade menor que na avaliação durante o período de lecionação, criando-se a expetativa de que se um aluno não conseguir durante as aulas fazer um módulo deixa para exame que é mais fácil. Nos cursos de prosseguimento de estudos a lógica dos percursos diretos também aumentou as notas votadas.

Cada vez que se cria um instrumento para avaliar as escolas os atores subvertem-no e usam-no a seu favor, pouco preocupados se há incentivo ao facilitismo desde que fiquem bem na fotografia.

Desnorte no ME e desaparecimento dos sindicatos.

vai-teaosprofessores, 08.07.20

Neste final de ano letivo assistimos a um desnorte no ME substanciado nos seguintes fatores:

  1. As normas da DGS não se aplicam nas salas de aula, os alunos podem ficar a um metro no próximo ano letivo – comentário: a educação é um mundo diferente com interpretação livre das regras. Passa-se o sinal que os jovens são especiais e depois admiramo-nos das suas concentrações e festas;
  2. As matrículas foram uma tremenda confusão, mostrando o não investimento na digitalização – comentário: o ensino à distância só foi possível com os meios privados dos professores, ao arrepio das normas sobre o teletrabalho, como nos lembra o Luís Braga;
  3. O desnorte com os manuais, com esperança que o grupo parlamentar do PS resolvesse o assunto, criou problemas às escolas para a devolução dos mesmos – comentário: não há antecipação de problemas;

Em simultâneo com o desnorte do ME temos os sindicatos anestesiados sem capacidade de aparecerem e muito menos de mobilização, mesmo os que foram nos últimos tempos uma pedrada no charco, como o STOP. Ainda estamos na ressaca da derrota da recuperação do tempo de serviço dos professores!

Salva-se neste contexto a proposta de requerimento do Luís Braga, em https://www.comregras.com/requerimento-para-o-cumprimento-da-lei-do-teletrabalho-e-o-pagamento-das-despesas-inerentes/.  Esta iniciativa vem mostrar que se os sindicatos quiserem fazer uma intervenção em defesa dos professores há várias iniciativas possíveis e matérias abundantes, se não o fazem é por falta de vontade política.

Concluindo, o ME está desnorteado e os sindicatos ausentes, deixando os professores à sua sorte.

Ainda sobre os rankings.

vai-teaosprofessores, 01.07.20

Saíram no fim de semana passado os rankings das escolas referentes ao ano de 2018/19. E sobre eles concluo o seguinte:

* As escolas privadas lideram;

* As escolas privadas recebem maioritariamente os alunos com capital cultural, o que não acontece nas escolas públicas, que recebem todos os alunos, apesar de algumas também terem estratégias para selecionar alunos, principalmente nas grandes cidades. Contudo, não há divulgação dos dados sociológicos das famílias, instrumento decisivo para se compreender qual o capital cultural das famílias dos alunos e seu impacto nas classificações;

* As escolas privadas também têm discrepâncias entre as notas internas e os exames, como acontece nas escolas públicas e esta discrepância traduz o peso de outros critérios na avaliação, incluindo estratégias para amortecer os resultados menos bons nos exames;

*Um ranking mais recente que mede a evolução do aluno, realçando os alunos com percursos diretos, isto é, alunos sem retenções, vem destacar o esforço das escolas na melhoria do ensino / aprendizagem, na medida em que mede o acompanhamento dos alunos pela escola ao longo de um ciclo. Este parâmetro traduz um apoio individualizado extra para alguns casos e a evolução dos alunos face aos resultados no ciclo anterior e verifica se o aluno manteve, progrediu ou regrediu. A canalização de recursos humanos para atividades de apoio educativas eficazes é aqui medida e neste ranking contatamos que há escolas do interior a obter bons resultados e escolas que melhoraram o seu ranking da ordem dos 400 para os 170. Contudo, este ranking continua a não ser valorizado pelos órgãos de comunicação social.

O blog Dear Lindo tem uma evolução das médias das diversas disciplinas em exames, em Evolução das médias dos exames nacionais (2008 / 2019), publicada no dia 27 de junho, https://youtu.be/Cv4RRCwO00k, que deveria preocupar mais os senhores jornalistas, com grandes oscilações de médias em algumas disciplinas. O que explica estas grandes oscilações? Sabemos que em educação há muitas variáveis a considerar, os alunos, os professores, as famílias, a organização educativa e a política educativa. Esta oscilação, na minha opinião, parece ter a ver com o modo como são feitos os exames, ou seja, com a conceção dos exames, que traduzem mais as opções do IAVE e da política educativa, do que as outras variáveis.

Concluindo, não sou contra qualquer indicador estatístico, mas todos eles devem ser contextualizados e a análise dos rankings em particular, porque são a ponta do iceberg no que diz respeito à reprodução social e pouco nos diz do esforço feito na escola no âmbito do ensino / aprendizagem. Este último já tem dados estatísticos, os percursos diretos, que continuam a ser pouco divulgados na opinião pública. Por fim, na minha opinião a forma como se elaboram os exames tem impacto nos resultados, como a grande oscilação de médias nos exames por disciplina parece-nos indicar.