Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Janeiro 16, 2019

A pedagogia diferenciada e o justiça relativa

vai-teaosprofessores

Com os decretos 54 e 55 instituiu-se a pedagogia diferenciada, que consiste em tratar os alunos de forma diferenciada conforme as suas potencialidades. Já num post anterior tinha alertado para que este tratamento diferenciado pode criar injustiças relativas. Por exemplo se existirem testes diferentes, quem fez o teste teoricamente mais difícil e  tivesse feito o teste mais fácil, teria uma melhor nota. Em relação ao modelo antigo em que tínhamos perguntas mais diretas para 10/12 valores, depois mais 4/5 valores de grau de dificuldade intermédio  e os restantes para perguntas que exigem um raciocínio mais complexo, agora temos um teste diferenciado para alunos com mais dificuldades, com mais perguntas diretas ou só com perguntas diretas ou de escolha múltipla. 

Na nova legislação são as chamadas medidas universais para lidar com o insucesso, que podem ser aplicadas a todos os alunos que delas precisam, só por um período de tempo limitado ou permanentemente, conforme o tipo de dificuldade esteja relacionada com uma dada matéria ou se se verifica permanentemente.

Um grupo disciplinar decidiu aplicar um teste de recuperação limitado a um grupo de questões do teste inicial em que os alunos tenham tido pouca pontuação, ajudando-os a preparar esta recuperação, para alunos com notas negativas ou com 10 (considera-se o 10 uma nota de risco no exame), não podendo a nova nota ultrapassar os 11 valores, para limitar as injustiças a quem não teve a segunda oportunidade. Neste caso tenta-se mitigar a possibilidade de injustiças com o teto da nova nota nos 11 valores.

Concluindo, há uma alteração profunda na avaliação dos alunos decorrentes da pedagogia diferenciada, que cria injustiças relativas, que podem ser mitigadas com tetos das notas a atribuir na recuperação. 

Janeiro 09, 2019

Um exemplo de verdadeiro ensino profissional e de inserção

vai-teaosprofessores

Vi na semana passada um filme, com a ação localizada numa região fronteiriça dos EUA, com muitos alunos falantes de espanhol e problemas de legalidade. A história é esta: a direção da escola decide criar uma área de projeto, em que os alunos procuram competir num concurso numa universidade californiana, em que construindo um aparelho submersível teriam de desempenhar tarefas como fazer medições, retirar objetos, captar líquidos, etc.

Passando ao «the end», num confronto com universitários ganham o 1º lugar, utilizando soluções de engenharia rudimentares, mas eficazes e imaginativas, porque as suas soluções são de baixo custo. O orçamento foi de 800 $, um décimo dos seus concorrentes.

Este é o objetivo dos cursos profissionais, alncançar resultados palpáveis e estimular a criatividade e a resolução de problemas, com os recursos disponíveis.

No nosso país o ensino profissional, nas escolas secundárias, estão insuficientemente equipadas, aproveitando-se basicamente recursos humanos existentes, pelo que proliferam cursos mais teóricos que práticos. Nas escolas profissionais a realidade é outra, pelo menos em algumas que visitei.

Em relação ao exemplo do filme, o projeto tinha um professor dedicado, o empenho da direção em inserir alunos problemáticos, mostrando a diretora conhecimento pessoal de todos os alunos e a tentativa de envolver as famílias no apoio ao projeto.

Comparando connosco, com os mega agrupamentos, as direções não conhecem individualmente os alunos, poucos agrupamentos têm horas para profesores afetados a projetos especiais para alunos problemáticos.

Concluindo, o exemplo fala por si e realça as diferenças existentes entre as duas realidades, com Portugal com muito que fazer no âmbito da reorganização do ensino e para criar um ensino profissional mais consentâneo com os seus objetivos. A vertente de inserção social daqueles alunos também é um exemplo determinante nesta comparação.

 

Janeiro 03, 2019

Perspetivas para 2019

vai-teaosprofessores

O ano de 2019 é um ano de eleições, que decidirão se o governo é só do PS ou tem de continuar a haver coligações, continuando a de esquerda ou o PS vira-se para a direita? Havendo coligações serão de incidência parlamentar ou mesmo de governo?

Acho que na educação pouca coisa mudará com a continuação de um governo PS só, principalmente se um dos secretários de estado for promovido a ministro. Se for nomeado um outro ministro com peso político, com a vontade de deixar marcas que é caraterística de todos os ministros, pode haver alterações de política educativa. De que sentido? Um dos dilemas que tem de resolver é se predomina o perfil do aluno ou se se mantêm os exames (este dilema emana da legislação publicada pela atual equipa que não pode ou não quis tomar uma opção sobre esta questão). Este dilema será possível de resolver com a maioria absoluta, que permitirá ter força política para atirar para as universidades a escolha dos seus alunos, concentrando-se o ensino secundário em formar os alunos, segundo um perfil do aluno, este ou outro, sem se preocupar com a serieação dos alunos.

Num governo mais à esquerda, admito que esta pasta possa ser entregue a um parceiro de coligação governativa, porque uma vez resolvida a questão dos salários dos professores a despesa pública educativa estará estabilizada e esta pasta pode ser controlada facilmente pelo ministro das finanças e pelo parlamento. Neste caso perspetivo o aprofundamento da implementação da autonomia curricular na perspetiva de se implementar e aprofundar a interdisciplinaridade, maior preocupação com a inclusão (não só no papel mas acima de tudo na prática) e o esclarecimento da questão dos tempos letivos e não letivos (a segunda questão fundamental para os professores).

Com o PS aliado à direita a predominância dos exames vai manter-se, vai-se avançar mais com as aulas observadas para se controlar mais os professores, impondo-se deliberadamente a supervisão pedagógica em força. Com este tipo de coligação avançará também em força a municipalização da educação.

Termino realçando que cada um de nós vai ser chamado a decidir qual destas perspetivas se vai concretizar ao colocar o nosso voto nas urnas.

Dezembro 12, 2018

A minha experiência num Pedagógico

vai-teaosprofessores

O Conselho Pedagógico (CP) é um importante órgão de gestão dentro das escolas na medida em que tem de aprovar muitas das decisões da direção, principalmente as relativas às questões pedagógicas.

Este é o meu segundo ano num pedagógico e nas 12 (contas por alto) reuniões em que já estive presente, algumas (cerca de 1/4) ultrapassaram as 4 horas de reunião, a maioria anda pelas 3 horas e poucas andaram pelas duas horas. As ordem de trabalho ultrapassam sempre 8 pontos e algumas chegam aos 12 pontos. Portanto sempre agendas muito carregadas com pouco tempo para debates.

Poucas vezes tivemos debates interessantes, a maior parte do tempo são aprovados documentos elaborados pela direção sem nosso conhecimento prévio, isto é, temos contacto com o documento na hora e temos de definir uma posição, logo, sobre o mesmo. A excepção são a constituição de secções para o projeto educativo e regulamento interno no próprio CP, onde nos mandam via email as propostas de alteração destes documentos.

As reuniões em que tivemos debates acalorados foi a propósito de um recurso de um aluno sobre uma nota, em que tivemos duas reuniões sobre o tema.

Pontualmente lá temos um assunto em que temos também um debate interessante, normalmente a propósito dos critérios de avaliação. Também debatemos mais demoradamente os resultados do agrupamento após os períodos de avaliação, quer internos quer externos. É por esta ocasião que se debate as causas do insucesso e onde pessoalmente lembro que os alunos/famílias são também um factor explicativo deste insucesso, muitas vezes subalternizado nas análises feitas.

Concluindo, há debates interessantes e pertinentes durante alguns pedagógicos, que justificam o facto de ser conselheiro, mas a maior parte das vezes limitamo-nos a aprovar documentos prévios de que temos conhecimento em cima da hora. Daqui resulta que o modelo tem um funcionamento de  cima para baixo em que cabe aos departamentos apropriar-se do que foi decidido pela direção, havendo muitas poucas situações em que a auscultação do departamento se torna central, o que deveria ser ao contrário.

Dezembro 05, 2018

A questão do insucesso: porque não intervir sobre o aluno e a família?

vai-teaosprofessores

Há uma tese que percorre por estes dias o campo da educação: reprovar alunos é contraprodutivo para os alunos e um aumento de custos desnecessário. Um complemento desta tese é aumentar os anos de um ciclo, ou seja, diminuir os ciclos passando para 3 ou mesmo 2, para se ir colmatando as lacunas dos alunos ao longo dos anos desse ciclo.

Esta tese esteve na génese do título deste blog, na medida em que discordo completamente desta tese, daí o contraofacilitismo, sem prejuízo de se poder fazer muito mais para combater o insucesso escolar. Combater o insucesso escolar não é ter 100% de sucesso artificial.

Assim, não discordo que reprovar alunos acaba por os desmotivar e há aumento de custos em algumas turmas extra, que representam (hipótese) pelo menos cerca de 10% de gastos extra. Quanto aos custos a minha perspetiva é a de gastar estes 10% em reforço de recursos para acompanhar os alunos em vias de insucesso ou com dificuldades de aprendizagem, quer acompanhando psicologicamente as famílias e os alunos, nuns casos e aumentando as soluções pedagógicas, noutros casos, como coadjuvações, apoios com 3 alunos no máximo, etc. Aqui reconheço que a pedagogia diferenciada é um instrumento a considerar, sem que isto implique facilitismo nesta diferenciação. Dou um exemplo, haver uma questão de aula para recuperar grupos do teste, mas sem repetir os mesmos exercícios com valores diferentes. 

Basicamente reconheço que o insucesso pode ter várias causas, não podendo descartar-se a responsabilidade da família / aluno, sob pena de fazermos uma análise pouco rigorosa ao deixarmos de fora da equação esta variável, que algumas vezes é a determinante. De facto causuisticamente pode ser a organização, a adequação da escola ao meio envolvente, nomeadamente às novas tecnologias - aqui é preciso um plano nacional de para equipar as escolas com as TIC -, o desempenho dos professores, mas também o aluno e a família. A escola tem intervido ao nível da organização, desempenho dos professores - há espaço para melhorar a avaliação do desempenho -, mas tem deixado os factores aluno e família de fora da equação. Portanto, deixar de fora o aluno - que é considerado passivo e recuperável ao longo de um ciclo longo - e a família é uma forma de análise facilitista e anti científica, porque se exclui das variáveis explicativas algumas delas.

Também tem que se investir na escola em termos de meios tecnológicos para adequar o ensino ao uso atual das tecnologias, tendo presente que a tecnologia não é a panaceia para todos os males e nalguns casos é mesmo desadequada, por exemplo continuando os alunos a precisar de desenvolver a escrita manual e o calculo sem recurso a calculadoras.

Concluindo, as teses educativas que emanam do governo e CNE têm lacunas graves ao deixar de fora factores explicativos. Mesmo naquelas que o governo «aceita» intervir há ainda muito espaço para melhorar, investindo em tecnologias, melhorando a avaliação do desempenho dos professores e dotando a escola com mais meios humanos e de técnicos de psicologia para se aumentar o esforço sobre o aluno e as suas famílias.

Novembro 28, 2018

A questão do tempo de serviço a recuperar dos professores

vai-teaosprofessores

Para a crónica semanal de hoje hesitei entre este tema atual e um outro mais filosófico decorrente de uma pergunta de uma colega filosofia de quais os argumentos para ser contra o facilitismo. Sem prejuízo de voltar a este último de forma sistemática, cada post tem argumentos das razões para combater o facilitismo, ainda que não sistematizados.

Voltando à atualidade, na votação do OGE2019 o CDS, PCP, PSD e BE forçaram o governo a voltar às negociações com os professores para negociarem o modo de recuperação do tempo integral. 

Em primeiro lugar falou-se de coligação negativa, que já é uma forma de desvalorizar esta decisão, pois estes partidos foram coerentes com as suas posições anteriores e portanto era expectável. Aqui faltou humildade ao governo na previsão de que este resultado podia acontecer - volto mais à frente à problemática da falta de humildae. Em segundo lugar os opinion makers do PS, nomeadamente o irmão do 1º ministro, Ricardo, aparecereu a dizer que isto era uma consequência da tróica, numa tentativa de colocar o ónus no PSD/CDS, esquecendo-se de referir que este congelamento começou em 2005, num governo PS de que o irmão fazia parte. O PS tem culpa de parte deste descongelamento.

O argumento maior para o governo não concretizar este descongelamento é o seu custo. Mas o interessante é que não são apresentadas as contas, mas um número final, de 600 milhões de euros, que seriam divididos por vários anos em função da negociação a realizar e não tudo de uma só vez como quer fazer passar para assustar os portugueses. As contas que levaram a este montante são segredo de estado, não havendo transparência na prestação da informação, o que por si só é uma atitude que faz desconfiar, porque se o número fosse credível, nada custaria torná-lo público. Além disso este número, na blogosfera já foi desmontado como (muito) sendo excessivo, porque ignora pelo menos os estrangulamentos na carreira e os impostos adicionais a que vão dar origem, pelo que se deveria contabilizar o esforço líquido financeiro de impostos, o que não é o caso. Ou seja, é um pouco como a ilusão monetária, que corresponde à perda de poder de compra sempre que não há atualização dos rendimentos ao nível da inflação para o salário real se manter inalterado. Com a inflação o governo utiliza a ilusão monetária para diminuir custos com salários reais, ao passo que na previsão de gastos com os professores aumenta os gastos ao esquecer-se de descontar o retorno atravês dos impostos diretos a mais que vão ser cobrados. Neste aspeto o governo aje como ilusionista.

Por outro lado, o governo parece ter «personalizado» este debate no sentido de se manter orgulhoso e arrogante na sua posição, fazendo deste debate um finca pé que não acontece em nenhum outro dossier. Acho mesmo que ao aproximarmo-nos do fim da legislatura e com o PS próximo da maioria absoluta se começa a notar esta falta de humildade e a transparecer o orgulho e a arrogância.

Um último reparo, em tempos foram criadas as carreiras dos corpos especiais da função pública em que se reconhece a certas profissões um estatuto especial pelo seu contributo para o desenvolvimento do país que é uma forma de se atribuir estatuto social. Agora estamos perante uma alteração unilateral destas carreiras procurando equipará-las às carreiras ditas normais, o que é uma forma subtil de desvalorizar socialmente e monetariamente estas carreiras. Seria mais honesto avançarem com a revisão dos estatutos como acontece com os juízes e enfermeiros em vez de o fazerem à socapa com os professores. Sejam frontais, não façam baixa política, no sentido de ter objetivos encapotados por receio de as sua políticas não passarem na AR.

Concluindo, há uma janela de oportunidade para se resolver este problema criada pela Assembleia da República, mas desconfio das boas intenções do governo pela forma como se comportou até agora.

Novembro 21, 2018

Encruzilhada educativa: perfil do aluno ou exames?

vai-teaosprofessores

Voltou a ser notícia esta semana a questão da inflação de notas, isto é, a discrepância acentuada entre as notas de exame e as notas da classificação interna da escola. Voltou a ser notícia porque a inspeção visitou cerca de dez escolas onde propôs alterações aos critérios de avaliação. Este fenómeno aparece mais na zona norte do país e em escolas privadas. 

As causas deste fenómeno resultam do facto de os critérios de avaliação incluirem, além dos testes, os chamados critérios sócio-afetivos, que podem ter um peso de 10 a 20%, ou seja levando em conta estes critérios pode haver desvios até 2 ou 4 valores respetivamente. Estes critérios procuram avaliar os alunos na parte de comportamento, empenho, pontualidade, etc. Uma boa gestão das classificações atribuídas permite ajudar a criar um bom ambiente de trabalho, penalizando os comportamentos perturbadores, os alunos pouco empenhados e combater o absentismo e atrasos nas aulas. Daqui resulta que um aluno médio com bom comportamento, boa assiduidade e esforçado, vê a sua nota subir em relação à média dos testes.

Mas analisando as estatísticas vemos que as discrepâncias entre a nota interna e a nota de exame é superior a 4 valores, nomeadamente chega aos 6 valores, o que aponta para testes com grau de dificuldade inferior à dos exames.

O que está na origem disto? Encontrei nas escolas professores/as que defendiam abertamente que se devia dar notas mais elevadas para que os alunos fossem «compensados» pela pressão do exame, que é demostrar em 90 minutos, sob pressão, o trabalho de todo um ano letivo. Chamo-lhe o espírito de mãe galinha, isto é, resulta de uma tentativa de proteger o aluno dos infortúnios que podem acontecer no exame. Ou seja, na prática limitar o efeito dos exames no acesso ao ensino superior. Em geral são estes professores que também optam por testes menos exigentes aplicando a mesma lógica. Quando estes professores têm posições maioritárias numa escola, essa escola aumenta o peso dos critérios sócio-afetivos, institucionalizando esta visão de tentar limitar o efeito dos exames na seriação e seleção dos alunos.

Mas este debate só tem sentido num modelo com exames nacionais em que o secundário serve de preparação ao acesso ao ensino superior. Num outro modelo em que o secundário tem objetivos próprios, como os decorrentes do perfil do aluno, deixando para as universidades a escolha dos seus alunos, esta discussão já não tem sentido. 

Em face desta dualidade de funções para o ensino secundário temos inspeções a verificar a discrepâcia de notas, mas também temos inspeções a promover os últimos decretos governamentais, os famosos 54 e 55, que apontam para uma pedagogia diferenciada, logo avaliações diferenciadas, mesmo com testes diferentes, como já aconteceu na minha escola, para se melhorar os resultados. Ora como a escola já tinha grandes discrepâncias nas notas internas com as notas dos exames, com mais pedagogia diferenciada esta discrepância vai tender a aumentar. 

Ou seja, estamos numa encruzilhada educativa, temos uma reforma que quer introduzir um objetivo próprio para o ensino secundário que não seja o preparar o acesso à universidade, mas ainda não se desmantelou o sistema anterior, com exames para selecionar alunos no acesso à universidade. Como corolário desta bipolaridade temos inspeções (em separado) que avaliam se os dois objetivos estão a ser cumpridos - não sei se já aconteceu as duas em simultaneo!

Concluindo é urgente o governo clarificar a sua política educativa quanto ao seu objetivo para o ensino secundário. Serve para implementar o perfil do aluno ou preparar os alunos para os exames?

PS\: Fui nomeado para os sapos do ano, sem esperar. Agradeço, pois, aos meus leitores e votantes. A votação decorre até dia 15 de dezembro.

 

 

Novembro 14, 2018

O OGE de 2019 e a educação

vai-teaosprofessores

Decorreu à dias a audição do ministro da educação na Assembleia da República a propósito do OGE para 2019.

A grande novidade são os manuais gratuitos para todos os alunos até ao 12º ano. Esta medida peca por não discriminar em função dos rendimentos os que seriam beneficiados pela medida. Ou seja, quem tivesse rendimentos até um certo valor receberia os manuais gratuitamente e a partir daí seriam pagos pelas famílias. Esta medida seria mais justa, mas provavelmente como ficariam de fora poucos alunos, o esforço burocrático para a implementar não se justificaria.

Depois não se compreende como o orçamento diminui: o Ministério da Educação fala num aumento da despesa total consolidada de 150 milhões no próximo ano, mas, na verdade, a Educação perderá 182 milhões de euros. Não se compreende esta perda de verbas na educação, com o aumento da despesa com os manuais e com o crescimento da massa salarial dos professores devido ao fim do congelamento das carreiras, com as progressões normais e as progressões, ainda que reduzida a 1/3 do total, relacionadas com o tempo de serviço recuperado. Há aqui algo pouco transparente.

Vejamos melhor a discrepância de valores: o ministro Tiago Brandão Rodrigues apresenta os cálculos comparando a verba inicial de despesa total consolidada prevista para 2018 — 6.173,1 milhões de euros — com a mesma verba que previa para o presente ano aquando da apresentação do Orçamento do Estado para 2017 — 6.022,7 milhões. Da comparação destes dois valores resulta o tal aumento de 150 milhões de euros. Mas a verdade é que o Governo não gastará 6.022,7 milhões com Educação este ano, mas estima, sim, encerrar o ano com uma despesa total consolidada de 6.355,6 milhões de euros. E caso se compare a despesa realmente gasta (embora ainda uma estimativa) com aquela que o Governo prevê gastar no próximo ano, então o que resulta é uma quebra de 2,9%, ou seja, menos 182,5 milhões de euros.

Não se comprende também que neste orçamento não exista verba que permita implementar as alterações legislativas que apareceram em cima do arranque do ano letivo, portanto à pressa, os famosos 54 e 55, que implicam alterações na organização escolar, particularmente o referente à autonomia e flexibilidade curricular, que procura implementar a pedagogia diferenciada sem dar mais horas ou reduzir as turmas, a flexibilidade curricular agrupando áreas de conhecimento, mas com os mesmos recursos humanos e financeiros, portanto feitos à custa da intensificação do trabalho dos professores. A analogia é com a cozinha, onde se procura fazer omoletes sem ovos. As escolas com professores com mais idade não terão crédito horário para responder a estas alterações legislativas.

Portanto, o orçamento da educação é decepcionante, para a escola e para os professores. Mais uma vez não há paixão pela educação ou vontade política de encarar a educação como investimento nos futuros recursos humanos, pois para mim a educação não é um gasto mas um investimento.

Novembro 07, 2018

Quando os alunos não sabem estar nas aulas!

vai-teaosprofessores

Já referi em post anterior que voltei a dar 10ºs anos depois de um longo interregno, cerca de 5 anos. Como só dou profissionais, é natural que muitos dos alunos que não querem estudar estejam nestes cursos. As turmas são heterogéneas com poucos bons alunos, alguns alunos médios e a maioria alunos que não querem estudar.

O que me tem surpreendido é alunos que não sabem estar na sala de aula, quer porque estão sempre a conversar, quer porque falam sem autorização do professor, não cumprem horários, etc. Numa palavra estes alunos não estão socializados, confundem bagunça com liberdade, pensam que uma aula é como estarem à mesa do café em grupo, acham que podem vir para a aula quando querem, atiram papeis para o lixo modo basket durante a aula, não têm noção de que ao falarem alto distraem os colegas que querem trabalhar.

A peimeira tarefa dos professores é socializarem os alunos levando-os a cumprirem regras, como pedir para falar, cumprir horários dentro de uma tolerância, estar na aula para trabalharem. Assim, desde logo sou rígido com os horários, pedir para falar, estarem sempre atentos, quem não estiver vai para a biblioteca com uma tarefa, etc.

Começando os alunos a cumprir estas regras, as aulas tornam-se produtivas, porque o aluno descobre que é mais fácil estar nas aulas a trabalhar, cumprindo o que o professor pensou para o plano da aula. O tempo custa menos a passar. Mas o mais interessante é que com a nova postura o aproveitamento melhora. Já tive alunos que desabafaram que nas minhas aulas o tempo passa mais rápido, que preparar os testes foi mais fácil com o caderno organizado, etc.

O que eu não compreendo é como estes alunos chegaram ao 10º ano sem estarem socializados, houve concerteza professores que se demitiram de o ser para evitar conflitos, ou deram prioridade aos bons alunos em deterimento dos que exigiam mais esforço (como já aconteceu com a turma da minha filha, em que uma professora só chamava a participar na aula os 3/4 melhores alunos) ou simplesmente faziam parte de uma turma problemática, em que se criou um gueto como forma de resolver problemas disciplinares e de aproveitamento, tornando-se a situação ingerível. Se não aceito retirar o aluno da equação que pode explicar o insucesso, também não retiro o professor. Isto é, o insucesso é explicado por várias variáveis, em alguns casos o problema pode estar no aluno (na sua família), outros casos pode estar no professor, noutros casos pode estar no sistema que não encontrou a melhor solução para aquele caso. 

Isto vem a propósito de o Ministério ter colocado o ónus dos insucessos nos professores, porque podem fazer diferente e melhor, esquecendo-se do aluno que aparece como não sendo uma possível variável, e principalmente ignorando as suas responsabilidades organizativas quando pedem esforços sem os recompensarem (horas extraordinárias não remuneradas porque não há dinheiro) e propõem alterações que exigem recursos ou humanos ou financeiros, mas não os disponibilizam.

Concluindo, não me demito de ser professor e luto em primeiro pela disciplina na perspetiva da socialização do aluno e ao conseguir esta disciplina melhoro o aproveitamento.

Outubro 24, 2018

O que ainda faz os professores serem estimados?

vai-teaosprofessores

Os inquéritos feitos às poupulações valorizam os professores, dando-lhes credibilidade e reconhecendo a sua dedicação. Não obstante, do lado dos governos tem sido uma classe profissional que tem sido analisada mais do lado dos custos orçamentais, em vez de um investimento para o futuro, como devia ser encarada a educação e os seus operacionais qualificados.

Esta classe tem sido afrontada não só do ponto de vista dos salários, onde tem sido discriminada, sendo uma das poucas em que o tempo de serviço congelado não foi integralmente contado. Mas não tem sido só no aspeto monetário que os professores têm sido afrontados, foram afastados da escolha direta dos seus dirigentes (agora estão em minoria no CG), foram sobrecarregados de tarefas burocráticas, são cobaias da aplicação de teorias educativas, são sacrificados com mais horas de trabalho - na componente de trabalho individual - na implementação destas teoriais, sem que depois se faça uma avaliação independente das experiências, aumentam o seu ritmo de trabalho ao implementarem novas leis e novos paradigmas em cima do começo do ano letivo.

Este contraste entre o reconhecimento da população e o tratamento dos governos, que querem fazer omoletes sem ovos (sem dar recursos às escolas) à custa da intensificação do trabalho não letivo com os alunos dos professores, que pode prejudicar o trabalho letivo na medida em que os professores estão mais cansados senão mesmo em burnout, tem de ser resolvido ou a escola entra em ruptura. 

Se até agora o sistema não entrou em colapso deve-se ao profissionalismo dos professores que apesar destas condições adversas gostam daquilo que fazem e para se manterem lúcidos recorrem cada vez mais aos fármacos. Mas esta solução é como a aspirina alivia mas não cura e os problemas vão-se agravando!...