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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

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Novembro 21, 2018

Encruzilhada educativa: perfil do aluno ou exames?

vai-teaosprofessores

Voltou a ser notícia esta semana a questão da inflação de notas, isto é, a discrepância acentuada entre as notas de exame e as notas da classificação interna da escola. Voltou a ser notícia porque a inspeção visitou cerca de dez escolas onde propôs alterações aos critérios de avaliação. Este fenómeno aparece mais na zona norte do país e em escolas privadas. 

As causas deste fenómeno resultam do facto de os critérios de avaliação incluirem, além dos testes, os chamados critérios sócio-afetivos, que podem ter um peso de 10 a 20%, ou seja levando em conta estes critérios pode haver desvios até 2 ou 4 valores respetivamente. Estes critérios procuram avaliar os alunos na parte de comportamento, empenho, pontualidade, etc. Uma boa gestão das classificações atribuídas permite ajudar a criar um bom ambiente de trabalho, penalizando os comportamentos perturbadores, os alunos pouco empenhados e combater o absentismo e atrasos nas aulas. Daqui resulta que um aluno médio com bom comportamento, boa assiduidade e esforçado, vê a sua nota subir em relação à média dos testes.

Mas analisando as estatísticas vemos que as discrepâncias entre a nota interna e a nota de exame é superior a 4 valores, nomeadamente chega aos 6 valores, o que aponta para testes com grau de dificuldade inferior à dos exames.

O que está na origem disto? Encontrei nas escolas professores/as que defendiam abertamente que se devia dar notas mais elevadas para que os alunos fossem «compensados» pela pressão do exame, que é demostrar em 90 minutos, sob pressão, o trabalho de todo um ano letivo. Chamo-lhe o espírito de mãe galinha, isto é, resulta de uma tentativa de proteger o aluno dos infortúnios que podem acontecer no exame. Ou seja, na prática limitar o efeito dos exames no acesso ao ensino superior. Em geral são estes professores que também optam por testes menos exigentes aplicando a mesma lógica. Quando estes professores têm posições maioritárias numa escola, essa escola aumenta o peso dos critérios sócio-afetivos, institucionalizando esta visão de tentar limitar o efeito dos exames na seriação e seleção dos alunos.

Mas este debate só tem sentido num modelo com exames nacionais em que o secundário serve de preparação ao acesso ao ensino superior. Num outro modelo em que o secundário tem objetivos próprios, como os decorrentes do perfil do aluno, deixando para as universidades a escolha dos seus alunos, esta discussão já não tem sentido. 

Em face desta dualidade de funções para o ensino secundário temos inspeções a verificar a discrepâcia de notas, mas também temos inspeções a promover os últimos decretos governamentais, os famosos 54 e 55, que apontam para uma pedagogia diferenciada, logo avaliações diferenciadas, mesmo com testes diferentes, como já aconteceu na minha escola, para se melhorar os resultados. Ora como a escola já tinha grandes discrepâncias nas notas internas com as notas dos exames, com mais pedagogia diferenciada esta discrepância vai tender a aumentar. 

Ou seja, estamos numa encruzilhada educativa, temos uma reforma que quer introduzir um objetivo próprio para o ensino secundário que não seja o preparar o acesso à universidade, mas ainda não se desmantelou o sistema anterior, com exames para selecionar alunos no acesso à universidade. Como corolário desta bipolaridade temos inspeções (em separado) que avaliam se os dois objetivos estão a ser cumpridos - não sei se já aconteceu as duas em simultaneo!

Concluindo é urgente o governo clarificar a sua política educativa quanto ao seu objetivo para o ensino secundário. Serve para implementar o perfil do aluno ou preparar os alunos para os exames?

PS\: Fui nomeado para os sapos do ano, sem esperar. Agradeço, pois, aos meus leitores e votantes. A votação decorre até dia 15 de dezembro.