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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Junho 03, 2019

Formas subtis, sem escrutínio, de tirar poder aos professores.

vai-teaosprofessores

Depois de acalmar a questão do tempo de serviço com a derrota dos 942, importa debater a questão do poder dos professores na sala de aula. Este poder é crucial em termos de autonomia do professor na sala de aula. Como com todo o poder é preciso haver mecanismos de controlo desse poder, que existe com as reclamações relativas a notas ou denúncias de outros abusos. Mas haver mecanismos de controlo do poder não é a mesma coisa que retirar poder / autonomia ao professor. Como alguém disse: o poder tem sido retirado aos professores e alguns de nós professores temos aceitado que este poder nos seja retirado. Vejamos alguns desses mecanismos.

Ora o DL 54/18 é um veículo de limitação do poder dos professores. Consultem neste o blog o artigo https://www.comregras.com/author/alberto-veronesi/ intitulado «medidas universais de suporte à aprendizagem ou medidas universais de sucesso automático?» em que é mostrado uma pirâmide de medidas de suporte à aprendizagem. A aplicação destas medidas visa tornar o sucesso generalizado. Ora o sucesso generalizado é uma forma de retirar poder aos professores, que passam a ser uma espécie de máquina na sala de aula, que se limita a criar caminhos facilitistas para certos alunos para garantir o sucesso a 100%. Eu estou de acordo em dar outras oportunidades aos alunos, mas sem cair no facilitismo. Pessoalmente o que faço é dar até mais 2 testes de recuperação, mas sem repetir as perguntas (para o aluno saber antecipadamente o que sai no teste e preparar-se) e nas aulas de preparação levo-os a preparar toda a matéria dada. Não aceito ser uma correia de transmissão de um ministério que quer sucesso total. O aluno se tem capacidades não deve ser tratado diferente dos outros. A escola pode dar mais oportunidades, mas sem cair na injustiça e no artificial. Quando há handicaps que o professor deteta, aqui há lugar a uma adaptação do teste a essas situações, no âmbito das medidas universais, como evitar perguntas de desenvolvimento. Mas quando o aluno não quer, tem de haver consequências, tal como na vida real, da sua atitude.

Também estou de acordo com o Alberto Veronesi, no artigo citado, de que se passa uma mensagem aos demais alunos de que o esforço não compensa, pois uns têm sucesso sem fazer nada e outros fazendo muito. Como o professor não é uma máquina, ou correia de transmissão dos políticos, não alinho num ambiente em que não se transmita estímulos negativos para quem os mereça. Quando se desmotiva os alunos, indicando-lhes ser indiferente trabalharem ou não, começam os problemas de indisciplina. Numa turma indisciplinada todos perdem, o professor esgota-se mais, os outros alunos que querem trabalhar passam a ter pouca motivação para trabalhar e podem cair também na indisciplina, pelo efeito da adesão acrítica ao grupo de pertença. Aqui o não querer é faltar às aulas, é estar sempre distraído, é recusar o trabalho proposto à turma, tudo isto diferente de dificuldades na realização das tarefas propostas. Impedem-nos de detetar estas situações diferenciadas ao propor que as tratemos como iguais para se alcançar o sucesso generalizado. Isto é tirar poder aos professores tirando-lhes autonomia para separar as causas do insucesso e de agir em conformidade.

Tudo isto se passa sem se assumir claramente o objetivo sucesso total, por parte do ministério, tal como quando saiu o perfil do aluno, este veio sem o corolário óbvio de se acabar com os exames, transferindo o acesso ao superior para as universidades ou politécnicos. Falta-lhes coragem política para isso. O caminho é mais subtil, pressionam os professores, através do poder centralizado, a seguirem um dado caminho, incluindo nas formações obrigatórias. Muitos de nós sucumbimos a esta pressão ou simplesmente se o objetivo é passar todos, estão mais vale fazê-lo logo, pensam alguns, sem mais chatices, como enfrentar burocracias administrativas para justificar o insucesso ou mesmo a critica velada de alguns colegas nos conselhos de turma. Estamos no âmbito do teatro chinês, não numa assunção clara de objetivos educativos para que a sociedade os possa escrutinar. Acho que é deste escrutínio que fogem, porque a opinião pública não aceitaria premiar os procrastinadores, os absentistas e os que se recusam a cumprir regras. São valores cívicos que estão em causa que devem ser discutidos por todos e que tornam o professor central no ato educativo quando pugna por estes.