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CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

CONTRAOFACILITISMO

Blog para debater ideias que recusem o facilitismo em educação.

Janeiro 10, 2018

O perfil do aluno - visão crítica

vai-teaosprofessores

O perfil do aluno é um documento do Ministério da Educação que está em discussão nas ecolas, para que toda a comunidade escolar se aproprie deste documento.

Começo por destacar que se pretende uma escola democrática, mas o modelo de gestão restringiu muito este debate democrático, quer para os professores, quer para os alunos, pois em vez de democracia direta temos um processo concursal para a escolha do diretor. Basta ver que antes deste modelo de gestão o confronto de ideias era vivo nas escolas, agora quase desapareceu e quem ousa propor algo diferente ou criticar os diretores pode ser alvo de processos disciplinares. Este aspeto não é um aspeto menor, pois a democracia ou se pratica ou não existe. Para mim este é o calcanhar de Aquiles deste documento, a falta de uma democracia genuina, mesmo à custa de menor eficiência de gestão, com mais protogonistas no poder em vez de tudo centrado na figura do diretor.

Com os princípios estou de acordo, são incontestáveis: base humanista, saber, aprendizagem, inclusão, coerência e flexibilidade, adaptabilidade e ousadia, sustentabilidade e estabilidade. Ainda que sobre a flexibilidade do currículo ainda se esteja a dar passos muito tímidos, a daptabilidade e ousadia, muitas vezes esbarra no controle excessivo, às vezes sufocantes, da gestão, a sustentabilidade, seja mais teórica do que vivida no dia a dia e a estabilidade, esbarra em concursos de professores que os desmotivam ao afastá-los das suas famílias. Apesar destes desfasamentos dos princípios com a realidade, estes princípios serão consensuais.

Sobre os valores também não haverá grande contestação, como responsabilidade e integridade, excelência e exigência, curiosidade, reflexão e inovação, cidadania e participação e liberdade. Além das já referidas limitações à cidadania, participação e liberdade, impostas pelo modelo de gestão, temos na prática em vez de excelência e exigência, muito facilitismo, empurrados pela tese economicista de que as retenções são desperdício de recursos e desmotivadoras para os alunos, teses estas que vêm de cima para baixo, no intuito de melhorar indicadores, a que os professores resistem muitas vezes, porque na sala de aula é-nos difícil justificar certas notas positivas, votadas, sem os alunos merecerem, o que provoca, muitas vezes, que os alunos que mereceram o 10 ou o 11, se desmotivem, porque vêem os colegas lá chegar sem transpirar. Mas não se criam condições financeiras para oferecer as melhores soluções de aprendizagem a cada aluno por falta de recursos financeiros que restringe a contratação de recursos humanos. A nossa escola ainda é uma escola de massas - a mesma solução para todos - e não uma escola com soluções à medida de cada caso, por escassez de recursos financeiros. Reconheço que há intenção de mudar de paradigma, com os planos de melhoria, que considero pouco eficientes devido à escassez de recursos e feitos à custa do aumento do trabalho (não-letivo) dos professores.

Sobre as competências, sabemos que estas não aparecem em pé de igualdade. Vejamos o caso dos cursos profissionais, muitas vezes lecionados sem condições adequadas para o seu funcionamento, devido a instalações físicas inadequadas - é diferente simular uma venda em ambiente de sala de aula, do que num espaço parecido com uma loja, ou ter uma cama articulada e um boneco para simular a manipulação de acamados nos cursos de geriatria. As artes foram colocadas fora das escolas normais, em guetos que têm sido subfinanciados. A atividade física limita-se a uma disciplina, com o desporto escolar pouco desenvolvido e vocacionado para a competição e não para a massificação da prática desportiva. Por fim, a falta de dinheiro, faz com que as escolas estejam deficitárias em equipamentos informáticos, o que limita o uso das novas tecnologias de forma mais generalizada: aprende-se as novas tecnologias nas escolas mas há pouco espaço físico e pedagógico para as usar devido à falta de recursos, muitas vezes os professores requisitam salas com meios informáticos e não as há disponíveis.

Concluindo, este é documento bem intencionado, mas sem recursos, não vai ser possível levá-lo à prática nas ruturas que propõe face ao que vigorava. É um bom documento no campo das intenções, mas não se vê forma de o concretizar sem reforço de meios financeiros e mudanças no modelo de gestão, na criação condições adequadas para os cursos profissionais, integração das artes nas escolas secundárias e melhorar substancialmente os meios informáticos ao dispor das escolas. Ou seja, o economicismo condiciona a qualidade de ensino e as soluções de fazer omoletes sem ovos não são soluções sustentáveis e excelentes.